A Grécia perdeu o medo. E a Europa?

Tsipas Syriza

“Vencemos o medo e recuperámos a esperança. A nossa vitória é a vitória de todos os povos europeus que lutam contra a austeridade”. Esperança na vitória para derrotar o medo e a austeridade. Foi esta a tónica do discurso vitorioso de Alexis Tsirpas, o novo primeiro-ministro grego, que conseguiu que a Grécia depositasse nele a confiança que começava a julgar-se perdida.

Os partidos que vinham governando o destino dos gregos nas últimas quatro décadas sofreram ambos uma pesada derrota. Embora a Nova Democracia surja como a segunda força política, não vai além dos 28%, ficando a 8% do Syriza. A maior hecatombe é mesmo a do PASOK, que conveceu apenas 5% do eleitorado.

É a primeira vez que o Syriza vence umas eleições legislativas. Um feito histórico num país onde, nas últimas décadas, o bipartidismo tinha sido o grande protagonista, com uma alternância constante entre o PASOK e a Nova Democracia, renegando assim forças dos polos políticos sempre para um plano secundário. No entanto, a crise das dívidas soberanas e as intervenções da Troika que recaíram sobre a Grécia em forma de austeridade agudizaram a indignação entre o povo grego, invertendo assim o paradigma.

Esta vitória do Syriza é uma vitória que se deve em grande parte à figura de Alex Tsipras. Recorde-se que as promessas do político grego foram bastante atacadas no início da campanha, mas Tsipras teve a inteligência de mudar o discurso para uma vertente mais apaziguadora que lhe permitiu transformar o Syriza, uma coligação de contra-poder, numa coligação com o objectivo de ganhar.

E foi esta capacidade de um partido conotado com a extrema-esquerda de conseguir transformar-se num partido de poder que levou a Europa a assustar-se com a vitória de Tsipras na Grécia. Num momento em que as linhas gerais de actuação do Syriza enquanto Governo são ainda desconhecidas, a grande questão da União Europeia é o grau de tolerância do agora eleito primeiro-ministro ao diálogo com os restantes parceiros/credores internacionais.

Os desafios para Tsipras começam pelo futuro parceiro de coligação. O rosto da luta contra a austeridade europeia ficou a uns escassos dois deputados de conseguir a maioria e portanto terá de assumir compromissos – cedências para as quais começou a abrir caminho logo durante o discurso de vitória, em que reforçou a disponibilidade para negociar, ao invés de apostar em rupturas abruptas.

A hipótese de coligação mais provável era até o To Potami (O Rio), cujo líder, Stavros Theodorakis, se disponibilizou prontamente para um acordo, mas Tsipras apressou-se a coligar com os Gregos Independentes, um partido com tendências nacionalistas de direita. Seria à partida pouco provável que o partido maioritário se aliasse tanto à segunda força política – o derrotado Nova Democracia – como à terceira, que, ironicamente, se trata do Aliança Dourada, o partido de extrema-direita que vem comprovar a crescente polaridade europeia em tempo de crise. No entanto, e apesar de Alexis Tsipras ter já um parceiro de coligação, o futuro do Syzira é incerto: pode Tsipras levar o seu programa anti-Troika avante ou será que, como afirmou o Manfred Weber, líder do PPE – a família política do Nova Democracia, partido até hoje no poder na Grécia -, vão ser os contribuintes a pagar o preço das “promessas vazias” feitas durante a campanha?

Miguel Dias

José Pedro Mozos

Mariana Lima Cunha

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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