“Não haver controlo democrático sobre o BCE é uma verdadeira aberração!”

Em entrevista exclusiva ao PANORAMA, Catarina Martins tece duras críticas à forma como as instituições europeias têm lidado com a crise que nos últimos anos assola o velho continente.

Catarina-Martins

PANORAMA (P): Acha que o Bloco de Esquerda pode vir a ser o Syriza português?

Catarina Martins (CM): Não vejo nunca as coisas nesses termos. As realidades políticas são diferentes e a forma como nós nos organizamos é diferente. Grécia e Portugal são países diferentes. Há dois ou três pormenores que são exemplos disso. Por exemplo, o estado grego não é um estado laico, o que já diz muito sobre a diferença da organização do estado, das pluralidades e das liberdades entre os dois países. Na Grécia os sistemas fiscal e de justiça não estão informatizados: enquanto em Portugal o Bloco de Esquerda (BE) anda a lutar para que se faça o cruzamento de dados entre Segurança Social e fisco, de maneira a apanhar quem não cumpre, na Grécia luta-se pela informatização desses sistemas. O terceiro exemplo é o Serviço Nacional de Saúde: em Portugal este serviço é universal, na Grécia funciona como se fosse um grupo mutualista de quem trabalha. Por isso, se as realidades são diferentes as forças políticas também o são, embora do ponto de vista europeu tenhamos muito em comum.

P: E do ponto de vista europeu, os acordos que o Syriza conseguiu nas reuniões com o Eurogrupo foram alcançados depois de haver algumas cedências. Que análise faz do resultado dessas reuniões?

CM: O programa do Syriza – o chamado programa de Salónica – tinha três eixos. O primeiro é o responder à crise humanitária (devolver a luz às pessoas, dar aos cidadão gregos acesso aos hospitais, resolver os problemas básicos de carência alimentar…). O segundo pilar passa por fazer com que a crise seja paga por quem a deve pagar, que está relacionado com o combate à fraude e à corrupção, por exemplo. E o último eixo era o de relançar a economia através do investimento público, de parar com as privatizações, etc. A parte do programa que tinha como objetivo responder à crise humanitária avançou. Claro que a situação não muda da noite para o dia, até porque a Grécia perdeu 25% do seu PIB e o desemprego jovem ronda os 60%, mas é importante que esteja a avançar. O segundo eixo passa em primeiro lugar por informatizar os sistemas de Justiça e do fisco, por exemplo. Veja-se bem que os governos gregos que deixaram que o país chegasse ao século XXI sem que estes sistemas estivessem informatizados eram formados por partidos que foram parceiros de PS e PSD; parceiros de Angela Merkel; parceiros do Eurogrupo…

P: Nesse sentido pode falar-se de uma Europa a duas velocidades?

CM: Sim. Há várias velocidades na Europa e há várias velocidades no euro. E isso é um problema. Um problema maior quanto mais os governos dos países mais fragilizados tiverem uma postura não de aliança mas uma postura de subserviência para com os mais fortes. E esse é o grande drama que se vive hoje em dia na Europa. Se perguntarem se o Syriza está a fazer tudo aquilo que estava no seu programa eleitoral a resposta é “não”. Mas o Syriza conseguiu tempo porque foi chantageado, pois o país ia ficar sem liquidez. Por enquanto ganhou tempo, não ganhou ainda a política. Para ganhar a política é preciso muito mais, mas ganhou tempo para o conseguir e isso é importante. E há coisas que estão a avançar: parou privatização da energia, devolveu-se a luz às pessoas, começou-se com o programa alimentar… Em Portugal privatizou-se tudo! Ou seja, não tivemos uma austeridade assim tão leve.

P: E acha que essas privatizações em Portugal são reversíveis?

CM: Têm de ser. Têm de ser porque é um problema de democracia. O controlo público de sectores estratégicos é um problema de soberania, de democracia. Passa por podermos decidir aquilo que estamos a fazer.

P: Estamos a falar, no fundo, de prestar um serviço público.

CM: Estamos a falar de poder decidir a vida colectiva. Uma coisa é haver iniciativa privada em várias áreas que podem ser concorrenciais, outra coisa é isso existir em sectores que não são por natureza concorrenciais e que, por consequência, determinam o funcionamento de um país. E este Governo passou a energia para a mão dos chineses, por exemplo.

Catarina Martins

P: As privatizações são uma das grandes diferenças que existem entre o BE e os partidos do arco da governação. Outro assunto que os afasta é a posição em relação ao euro. Afinal o BE defende a saída de Portugal do euro?

CM: Quando o euro foi criado o BE ainda não existia e portanto não há para o registo a posição que tínhamos quanto a isso, mas há a posição dos partidos que deram origem ao BE: foram contra. O euro está mal desenhado, pois o capital vai todo para o centro da Europa. E com o capital, as pessoas, muitas delas qualificadas e formadas. E para além disso temos um BCE que tem como único objectivo parar a inflação, não tem como objectivo equilibrar as economias dos países da zona euro.

P: Ultimamente isso tem-se alterado. O BCE comprou dívidas públicas.

CM: O problema é que quando se fazem as coisas numa altura muito tardia já se pode estar a servir o sistema financeiro e não os povos. O problema é perceber se no momento em que se age se esta a servir a finança ou os povos. O momento é tudo. ­­O BCE nunca agiu da forma de que os povos precisava e nem sequer tem controlo democrático. É uma verdadeira aberração!

P: Essa é precisamente uma das maiores críticas que se faz à Troika.

CM: Sim. A Troika não pode existir. Não tem legitimidade democrática. E para além disso temos uma zona de moeda única muito assimétrica com moeda que favorece a concentração e não a redistribuição de riqueza. Portanto, o euro não pode continuar assim.

A entrevista a Catarina Martins está dividida em três partes e será publicada de Quinta-Feira a Sábado, no PANORAMA.

A segunda parte da entrevista está disponivel AQUI.

Com Duarte Pereira da Silva.

Publicado por: José Pedro Mozos

22 anos, natural de Lisboa. Aos dezasseis anos percebeu que a sua vocação era o jornalismo. Licenciado em jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Socia e pós graduado em Jornalismo Multiplataforma pela FCSH - Universidade Nova de Lisboa. Foi comentador num programa da rádio da sua faculdade sobre actualidade política; editor de música da ESCS Magazine e escreveu para o site Bola na Rede. Acredita no jornalismo como sendo um dos pilares de qualquer democracia. Atualmente, é jornalista na SIC Notícias.

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