“Numa democracia saudável este Governo já tinha caído há muito tempo”

Na segunda parte da entrevista exclusiva de Catarina Martins ao PANORAMA, a coordenadora do BE aborda a saída do euro e a actuação do Governo de Passos Coelho.

cm parte 2

 

PANORAMA (P): O Bloco de Esquerda vai defender a saída do euro nas próximas legislativas?

Catarina Martins (CM): Eu julgo que há uma coisa que toda a gente já percebeu: o euro como está não funciona. O euro destrói-se a ele próprio e destrói os povos. O euro como está é completamente destrutivo. Qualquer pessoa percebe isso porque a situação actual é insustentável socialmente, economicamente, financeiramente e politicamente. E isto pode abrir as portas às reacções mais terríveis.

P: Como o crescimento da extrema-direita em França.

CM: Exacto! E não falem em crescimento dos extremismos. Na Europa existe extrema-direita mas não existe uma extrema-esquerda. Se quiserem, existe uma esquerda radical. Porque falar em extremismo é falar em movimentos que semeiam ódios e egoísmos nacionais. Os movimentos de esquerda querem uma maior solidariedade na Europa.

P: E o Bloco de Esquerda, tendo como princípio base essa solidariedade, defende a ideia de que o euro deve ser redesenhado para o tornar mais solidário?

CM: Nós temos uma convicção: ou é possível fazer uma conferência internacional para a reestruturação das dívidas soberanas dos países periféricos da zona euro, reconhecendo que aquilo que foi feito até agora foi uma centralização dos recursos que retirou capacidades a estes países – reconhecer o erro, no fundo – e com isto mudar a arquitetura do euro; ou então o euro deixa de ser possível.

P: E acredita que com a actual conjuntura essa solução europeia é possível?

CM: Com a actual correlação de forças não. Mas essa correlação está a mudar. E o Bloco de Esquerda está muito interessado na mudança da correlação de forças na Europa. E isto não é por em causa a Europa. O que o Syriza está a fazer não é por em causa a Europa, como se tem dito. Quem pôs em causa a Europa foram os governos que estiveram até hoje no poder.

P: Inclui o Governo português nesse grupo?

CM: Claro! O Governo português prometeu que a seguir à austeridade ia nascer uma nova economia e tal não aconteceu: a dívida soberana subiu da casa dos 90% do PIB para a casa dos 130%; o desemprego é elevado; o problema social afunda-se; o Estado tem cada vez menos recursos e perdeu poder decisão com as privatizações.

P: Mas o desemprego tem diminuído nos últimos tempos.

CM: Estamos a olhar para a taxa de emprego, porque Portugal perdeu 400 mil pessoas em quatro anos e há 700 mil desempregados e desempregadas que não recebem subsídio de desemprego, ou seja, muitos deles estão desencorajados e já nem entram para as estatísticas. E isto para não falar das alarvidades que o Governo criou como os contratos de emprego inserção que saem das taxas de desemprego. O que é preciso saber é se há mais emprego em Portugal porque isso é que determina se um país tem capacidades. Num país com dez milhões de habitantes, com a taxa de nascimento a cair porque não há perspectiva de futuro e com 400 mil pessoas a emigrar em idade activa é um país inviável. O que interessa não é discutir cada décima do INE mas sim perceber se o país está melhor.

cat martins

P: Sendo assim, que avaliação faz dos anos de governação deste executivo? Foi um Governo que foi “para além da Troika”?

CM: O problema de “ir para além da Troika” é um problema de ritmo e não de política. Ou se considera que o problema na Europa se resolve cortando no Estado e na despesa para que com isso surja uma nova economia, o que, depois de anos de testes em vários países da Europa, deu sempre errado; ou se acha que é preciso pôr a finança no lugar, ou seja, fazer com que a finança assuma perda por uma vez na vida – uma vez que foi a finança que criou esta crise –, e criar investimento público para estimular o desenvolvimento. E o Governo português preferiu o primeiro quadro.

P: Mas considera que há alguma ideologia por trás dessas políticas do Governo de Passos Coelho?

CM: Claro que há. Porque não haveria? Há uma ideologia em tudo.

P: Mas a questão vai no sentido de perceber se este Governo foi mais pragmático ou mais ideológico.

CM: O que é que é ser pragmático?

P: Digamos que é tomar as decisões com base naquilo que a realidade nos pede.

CM: E a realidade em Portugal pedia que as pessoas morressem nas urgências sem assistência médica? A realidade em Portugal pedia que o ano lectivo não abrisse a horas?

P: Mas também não acreditamos que o Governo tenha querido que essas situações acontecessem.

CM: Sim. Mas isto significa que o Governo também não foi pragmático.

P: Mas pintam-no [ao Governo] como tal.

CM: Sim. Mas quando o Governo teve de tomar decisões foi cortar em sectores que paralisaram o país e isso não é ser pragmático. Isso é uma de duas coisas: ou é incompetência profunda, coisa em que eu não acredito, ou é ter uma ideologia de destruição do Estado.

P: E nisso já acredita?

CM: Nisso já acredito. Não acredito que seja incompetência porque era preciso que fosse muita gente, muita incompetência e durante muito tempo sem que ninguém lá dentro avisasse que “o rei vai nu”. Incompetência não podia ser.

P: Outra característica deste Governo é o facto de ter resistido a diversas polémicas: o caso da licenciatura de Miguel Relvas; a demissão irrevogável de Portas; o caso Tecnoforma…

CM: Isso deve-se à deterioração da democracia na Europa. Este Governo honra mais os compromissos que assume com instituições financeiras como a Troika do que os compromissos com o seu eleitorado. De facto, numa democracia saudável este Governo já tinha caído há muito tempo.

P: Culpa o Partido Socialista por isso?

CM: Eu julgo que o PS faz parte do problema. Por um lado, porque do ponto de vista europeu esteve sempre do lado do Governo da direita: com a direita aprovou o Tratado Orçamental, com a direita apoiou a eleição de Jean-Claude Juncker para Presidente da Comissão Europeia e segurou-o mesmo depois de se saber dos escândalos das offshores no Luxemburgo… Aliás, veja-se que o melhor amigo da Sra. Merkel já foi o senhor engenheiro José Sócrates! Portanto, do ponto de vista europeu são corresponsáveis. Mas também o são aquando da demissão de Vítor Gaspar. Após o anúncio desta demissão, Paulo Portas disse que abandonaria o Governo e que era uma decisão irrevogável. Não podíamos contar com o Presidente da República, que sempre defendeu este executivo. E o Partido Socialista fez parte, durante semanas, da fantochada da “salvação nacional”, que foram aquelas reuniões que permitiram que a direita fosse circulando apesar da forte contestação que se sentia na altura nas ruas. E o PS devia ter dito que não havia nada para salvar neste Governo.

A entrevista a Catarina Martins está dividida em três partes e a última será publicada amanhã, Sábado, no PANORAMA.

A primeira parte está disponivel AQUI

Com Duarte Pereira da Silva.

Publicado por: José Pedro Mozos

22 anos, natural de Lisboa. Aos dezasseis anos percebeu que a sua vocação era o jornalismo. Licenciado em jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Socia e pós graduado em Jornalismo Multiplataforma pela FCSH - Universidade Nova de Lisboa. Foi comentador num programa da rádio da sua faculdade sobre actualidade política; editor de música da ESCS Magazine e escreveu para o site Bola na Rede. Acredita no jornalismo como sendo um dos pilares de qualquer democracia. Atualmente, é jornalista na SIC Notícias.

Existem 2 comentários a este artigo
  1. Pingback: "Não haver controlo democrático sobre o BCE é uma verdadeira aberração!" - Panorama
  2. Pingback: Entrevista Catarina Martins

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *