“A governação não é um tabu a evitar”

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Panorama (P): Os eleitores confiam no LIVRE?
Rui Tavares (RT): Os que conhecem, que sabem que o partido existe – que, para sermos francos, não são assim tantos – confiam, porque é um partido que lhes transmite uma ideia de genuinidade naquilo que faz e que não diz aquilo de que se está à espera no debate político. O partido é recente, tem um ano, e neste tempo conseguimos fazer com que muita gente o conhecesse – às vezes mais do que partidos muito mais antigos.

P: Mas não teme que a possível participação de cidadãos comuns na elaboração dos programas do LIVRE possa levar à descredibilização junto do eleitorado?

RT: Eu creio que não. Ao mesmo tempo que damos mais abertura, temos a preocupação de dar abertura com seriedade. Nas eleições europeias, também com um programa aberto aos cidadãos, embora não tão ousado, muitos observadores independentes reconheceram que era o melhor programa presente, precisamente porque estamos a receber produtos da sabedoria coletiva, que tem percepção dos reais problemas. Estamos a conseguir casar problemas e propostas.

P: Os princípios inclusivos do LIVRE são uma resposta à tendência do BE, citando o Fórum Manifesto, de se “fechar em si próprio”?

RT: É uma coisa curiosa: eu sempre respeitei muito o que se passa dentro dos partidos e nunca me meti na vida interna do Bloco de Esquerda. Nunca procurei nenhum motivo de birra, inimizade ou crítica gratuita, ou uma crítica só focada no partido. Acho que em geral os partidos políticos portugueses são estruturas muito rígidas que acabam por transformar o partido mais numa máquina disciplinadora e nalguns casos clientelística – sobretudo nos partidos do “centrão” -, quando um partido no século XXI deveria ser um ponto de encontro de cidadãos que partilham os mesmos ideiais, mas que essencialmente são cidadãos livres.

P: Não referindo a validade do programa mas a percepção da opinião pública, acha que Portugal está preparado para uma estrutura tão inovadora?

RT: Acho que está. Acho que a nossa sociedade é muito mais aberta, inovadora e de qualidade do que é a nossa política. A nossa política é que anda atrás da nossa sociedade – é fechada, é conservadora, é receosa porque na verdade não precisa de mudar, porque o jogo está estável, os partidos usam a frustração dos eleitores. Aos abstencionistas ninguém liga porque saíram do sistema. Espero que a nossa forma de trabalhar contamine positivamente outros partidos e nos obrigue a melhorar no futuro. Já está a resultar: nós fizemos primárias, depois o PS fez primárias. Também com a divulgação programa acredito que mais gente use estes métodos.

P: Mas o que é que em termos de programa traz de novo, num espectro já tão dividido?

RT: Traz várias coisas. Para começar, é um partido de uma esquerda libertária que não existia em Portugal. Temos países de uma tradição mais disciplinadora, mais ortodoxos, mais autoritários. É também de uma ecologia autónoma que não existe. É um partido que luta pela democracia europeia, ou seja, pela ideia de que a Europa só sairá desta crise se for uma democracia. E com isso nós quebramos a dicotomia que existe em Portugal entre ou ser seguidista daquilo que se considera que a EU nos manda fazer ou então ser isolacionista e considerar que Portugal deve sair do euro, da EU, etc. Nós optámos por uma visão transformadora em relação à EU, e portanto estamos a falar de um espaço que não estava politicamente representado em Portugal, embora fosse socialmente revelante.

P: E para estas legislativas em concreto qual é a abordagem nova que propõem?

RT: Tem a ver com outro elemento importante para o LIVRE, que é o da convergência. Nós logo de início chamámos ao LIVRE um “partido partilhado”. A ideia é que seja partilhado pelos próprios membros mas pela sociedade no seu todo também, e neste caso partilhado com outras organizações que têm preocupações semelhantes à nossa, instituições políticas como o Fórum Manifesto, a Renovação Comunista… Com muitos cidadãos independentes que não são sequer apoiantes de um partido e que se juntam a nós em igualdade de circunstâncias – um membro do LIVRE não vale mais do que alguém que não o seja – na plataforma a que chamamos Tempo de Avançar, que congrega gente que tem uma posição anti-austeridade, uma posição progressista, de querer uma coligação de esquerda para o país e que numa estrutura tradicional de partido não se sentiriam impelidas a trabalhar connosco.

P: Acha viável essa coligação anti-austeridade?

RT: O Tempo de Avançar serve para mobilizar o eleitorado que está à esquerda do partido Socialista. Já quanto à coligação, é mais difícil de adivinhar. Sabemos que é necessária, porque sem ela não conseguiremos não só ter novas políticas em Portugal como não conseguiremos representar as ideias anti-austeridade a nível europeu. Acreditamos que é a única alternativa e damos para isso o nosso contributo, mas sabemos que depende da responsabilidade que outros actores à esquerda – PCP, BE, PS – quiserem assumir como nós assumimos a nossa.

P: O BE quer governar?

RT: Não sei… isso compete ao BE dizer. Para ser justo, acho que à esquerda há visões muito diferentes daquilo que é ser governo. Certos partidos, como o PS, vêem a governação como um fim em si. Quando estão na oposição é uma espécie de mero acaso do destino. Outros partidos, como o BE e o PCP, provavelmente considerarão que querem governar com o seu programa, e não com o programa de mais ninguém, o que significa que o compromisso governativo é um tabu a evitar. Nós consideramos que a governação é um meio, e não um fim ou um tabu a evitar; consideramos que o compromisso faz parte da política e que isso, embora tenha dificuldades a curto-prazo, a médio e longo prazo compensa. A cultura de governar em conjunto tem vantagens para o país e a longo prazo. Os problemas têm sido com o tacticismo político que impera noutros partidos.

Rui Tavares

“O estímulo às medidas de austeridade tem a ver com interesses e carreiras políticas individuais do governo”

P: Falou da posição de governo de esquerda que o Syriza tem na Grécia. É isso que o LIVRE oferece, em Portugal?

R: Somos todos diferentes, de país para país. Não vale a pena tentar fazer fotocópias do Syriza; seria tão ridículo quanto fazer fotocópias do LIVRE noutros países. Acho que o Syriza é um exemplo importante para a EU, um exemplo em curso com um caminho difícil e cheio de obstáculos.

P: No programa do LIVRE para as eleições Europeias lê-se que o tratado orçamental, como a troika, é gerado pela obsessão da austeridade e deve ser revogado. Noutra conjuntura em que este tipo de ideias singrasse, já teriam atingido metas que o Syriza atingiu?

R: O problema não é Portugal. O problema é termos de começar por algum lado, e neste momento o Syriza é o único governo anti-austeridade da EU – vemos a dificuldade que isso traz; já houve momentos em que o Syriza poderia simplesmente ter sido posto num canto ou até forçado a sair do euro. Para mudar o quadro da União Europeia, vamos precisar de maiorias a três níveis: no Parlamento Europeu, na Comissão Europeia e no Conselho Europeu. As eleições para o PE e indiretamente para a CE já foram, em 2014, portanto agora, se quisermos mudar a EU, temos de trabalhar governo a governo, país a país, para que daqui a alguns meses haja governos anti-austeridade que possam trabalhar com partidos que apesar de tudo não sejam fechados ao debate de acabar com as políticas de austeridade, e aí, quando conseguirmos ter no Conselho Europeu um número de países que nos permita ter ou minorias de bloqueio ou mesmo maiorias vencedoras, vamos mudar a EU. É um trabalho que demora e que nós, europeus, estamos a aprender a fazer.

P: Defendeu no seu blogue que a crise do euro acabou. Isso não pode ser mais um dos anúncios de viragem económica que têm aparecido sem fundamento desde 2008?

R: Não, é muito diferente. Eu digo que isto pode ser o início do fim da crise do euro, mas que isso não representa nem o fim da austeridade, nem o da crise económica ou social. O que pode é representar um ponto de viragem que é aquele em que a propaganda e o pânico da saída da Grécia do euro começam a diminuir gradualmente. E começaram.  Ainda no meio de uma situação muito volátil e vulnerável a fobias e pânicos, começa a sentir-se um certo alívio gradual. A partir do momento em que esse alívio lance raízes, podemos finalmente passar da ideia da desagregação do euro para aquilo de que há muitos anos devíamos estar a falar, e de que o ministro Varoufakis falou no Eurogrupo: reformar o euro e ajudar as economias a voltar a crescer. Sair de uma crise que é de pânico, a crise do euro, para a crise real, económica e social que se está a viver nos países da EU. A minha previsão foi audaz e isolada.

P: Teme ser mal-interpretado?

R: Há sempre um temor, por isso é que contextualizo. É um bocadinho como nas doenças: há a fase aguda e depois a fase crónica. Nós vivemos ainda na fase aguda da crise do euro, mas pode estar a ser superada, e ainda que passemos à fase crónica isso não quer dizer que a crise tenha chegado ao fim.

P: Polémicas como a que agora envolve Varoufakis e a produção da Paris Match são distrações?

R: Eu se fosse a Varoufakis não teria ido fazer uma sessão fotográfica para a Paris Match, porque os riscos de estar a ajudar a essa descredibilização são grandes – até porque de facto existe uma tentativa de descredibilização do governo grego e do ministro Varoufakis em particular, de gente que prefere que a crise continue como ela estava antes, e que muitas vezes lucra com a saída da Grécia do euro. Eu sei que o Varoufakis pensa não só como grego mas como europeu; entendeu que se sairá desta crise não opondo gregos a alemães, mas tendo uma visão conjunta para criar mecanismos que beneficiem todos os europeus ao mesmo tempo. Isto não é só termos pensamento optimista: é um pensamento muito realista.

P: Neste momento temos um governo que se refere às propostas do Syriza como “contos de fadas”. Portugal e Espanha podem estar a dar um tiro no pé por não se aproximarem da Grécia?

R: Só não é um tiro no pé de Portugal e Espanha porque não são eles quem está a fazer isto: os povos de Portugal e Espanha já viram há muito tempo que temos um interesse estratégico em juntar-nos ao debate da reestruturação da dívida e que temos um interesse e uma solidariedade concreta em não cortar os laços com os cidadãos gregos. É o nosso governo que tem estado a estimular essas posições mais rígidas dos parceiros europeus e as medidas de austeridade, e acho que tem exclusivamente a ver com o interesse individual das carreiras políticas dos ministros em causa e do primeiro-ministro em causa. Eles sabem que se se demonstrar que é possível fazer diferente, a abordagem deles fica cortada pela base.

“A Guiné Equatorial passou a ser problema nosso”

P: Em relação a política internacional, falou da aprovação da Guiné Equatorial como membro da CPLP. Os interesses económicos sobrepuseram-se a direitos humanos?

R: Eu considero que se sobrepuseram. A Guiné Equatorial é um dos piores casos no mundo de desrespeito por todos os direitos: civis e políticos, económicos, sociais… Houve interesses nomeadamente de países que com a Guiné Equatorial partilham não a língua portuguesa, certamente, que é pouco ou nada falada lá, mas a indústria petrolífera. Portugal esteve particularmente mal nesse capítulo, não só porque não conseguiu ter uma posição de princípio acerca de vedar a entrada de um país onde as violações de direitos humanos são tão frequentes, mas também por não ter tido uma estratégia para que países com uma ligação a Portugal tenham uma relação baseada na melhoria dos diretos humanos. Considero que todo o processo de adesão foi dos pontos mais baixos da história da política externa portuguesa.

P: Qual foi então o critério seguido para concretizar a adesão?
R: Eu acho que não houve critério. E a Guiné Equatorial passou a ser problema nosso! E também me espanta como nem o governo português nem as sociedades civis dos países lusófonos ainda fizeram nada para assumir esse problema. Onde está por exemplo a rede dos defensores dos direitos humanos que seja uma espécie de amnistia internacional para os países lusófonos? Onde é que está o apoio financeiro português a ONGs e associações de apoio a direitos humanos em países lusófonos? Onde é que estão as missões com representantes eleitos para irem à Guiné Equatorial visitar prisões, fiscalizar se de facto a pena de morte está suspensa e se vai ser abolida ou não…? O erro está feito.

P: Qual seria a estratégia do LIVRE para o enfrentar?
R: Posso dizer que estou, a nível pessoal, empenhado na criação de uma rede de defensores dos direitos humanos nos países de língua portuguesa. Brasil e Angola são países em que já localizei alguns parceiros e portanto em breve lançaremos um projeto de rede de defesa dos direitos humanos nos países de língua portuguesa. A nível geral, acho que os estados têm um papel importante para apoiar a sociedade civil nessa demanda por mais direitos humanos e fazer um grande balanço do que é e deve ser a CPLP, insistindo numa vertente de democracia e desenvolvimento que têm faltado.

 Com Mariana Bandeira.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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