Afinal por que saíram os brasileiros à rua?

Foi no passado dia 15 de Março que os brasileiros saíram à rua naquelas que foram as maiores manifestações do país desde 1985, o último ano da Ditadura Militar do Brasil. Nos 26 estados, protestaram contra o Governo da Presidente Dilma Rousseff e a corrupção.
Esta será a versão resumida – mas há muitas outras razões interligadas. Aqui, apresentamos-te um guia para perceberes os motivos do povo brasileiro.

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Manifestações Anteriores

Quem está atento sabe que estes não foram os primeiros protestos contra o Governo de Dilma.
À medida que as notícias de corrupção eram divulgadas, vários protestos foram organizados, mas nenhum teve tanta adesão como o de 15 de Março.
Em 2014, especialmente em Maio e Junho, houve várias manifestações. Estávamos em ano de Campeonato do Mundo de futebol e o Brasil foi o país anfitrião. Os gastos envolvidos levaram às manifestações contra a Copa do Mundo – para o povo brasileiro as melhorias nos sistemas de saúde e de educação deveriam ser as principais fontes de despesa.
Mas voltando ainda mais atrás no tempo: no final de 2013, deram-se as manifestações que começaram por ser somente contra o aumento das tarifas dos transportes públicos mas que se transformaram rapidamente em protestos de descontentamento político.

Eleições Presidenciais 2014

Para além da Copa do Mundo, 2014 foi também ano de eleições presidenciais.
Em Outubro, os brasileiros tiveram a hipótese de escolher entre a continuidade ou a mudança. A continuidade viria através da reeleição de Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), que já governava desde 2011. A mudança, viria com Aécio Neves, do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB) ou com a candidata Marina Silva, do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Dilma Rousseff foi reeleita com 51,6% dos votos, na que se considera ser a eleição mais renhida desde 1989.
Durante a campanha, a vencedora apelou aos sentimentos de ascensão social e cultural da população brasileira. Já Aécio insistiu que o mais urgente era avançar com medidas para garantir a estabilização macro-económica. Os resultados tiveram consequências económicas logo no dia seguinte às eleições, com a Bolsa de São Paulo a começar o dia com uma queda de 6%.

A questão económica

O Brasil tem tido um crescimento económico acelerado – desde 2002 que o PIB cresceu em média 4% ao ano. Em 2010, chegou a registar um crescimento de 7,5%, em plena crise económica de outros países.
Actualmente a economia brasileira está estagnada e à beira da recessão. Nos últimos anos, sob o governo de Dilma, foram aplicadas políticas que passaram pela injeção de recursos e pela inserção de programas sociais. Porém em 2014 o PIB contraiu 0,12%, mostrando que as mesmas políticas não poderiam continuar.
Outro indicador que também não deixou os brasileiros contentes foi a taxa de inflação. Em 2014 registou-se uma inflação de 7,14%, quando a meta oficial do Governo era de 6,5%. Em 1990, a inflação brasileira chegou aos 82%. Portanto, as consequências de uma inflação elevada ainda fazem parte da memória da maioria dos habitantes.
Depois de reeleita, Dilma contratou Joaquim Levy, que tem uma longa carreira na banca, para ser o novo ministro das Finanças. Este ficou desde logo conhecido pelo povo como “Joaquim Mãos de Tesoura”, como referência aos cortes que iria fazer na despesa pública.
O maior desafio deste novo mandato será o de regressar ao crescimento, sem comprometer os programas sociais, que foram sendo implementados ao longo dos últimos anos.

Corrupção

Sistema político
O próprio sistema político brasileiro é susceptível de corrupção. As eleições brasileiras são feitas através de votos nominais, isto é, votação no candidato, em vez de ser no partido. Diz a história que a fidelidade por parte dos candidatos aos seus partidos não é muita, o que faz com que estes actuem de acordo com os seus próprios interesses, muitas vezes em forma de trocas de favores.

Os Casos de Corrupção – Mensalão e Petrolão
Para além do caso conhecido como Mensalão, que abalou o ex-presidente brasileiro, Lula da Silva, e levou altas figuras do PT à prisão, temos o escândalo mais recente do Petrolão, que envolve a Petrobras – a petrolífera estatal.
A Operação Lava Jato – é assim que é conhecida a investigação – foi lançada em Março de 2014, para investigar um alegado esquema de branqueamento de capitais. Estima-se que se terão movimentado cerca de 10 mil milhões de reais (cerca de 3,1 mil milhões de euros).
Segundo as autoridades brasileiras, o esquema envolveria várias fraudes em contratos – inflacionavam os preços, dividiam a diferença com os directores da empresa e ilegalmente financiavam os seus partidos.

Mas de que forma é que isto se relaciona com a Presidente?

Um antigo responsável da empresa, Alberto Youssef, entretanto preso, fez um acordo para obter benefícios em troca de informações. Youssef afirmou às autoridades que o dinheiro não declarado era para o Partido dos Trabalhadores (PT), dizendo também que o ex-presidente, Lula da Silva, e Dilma Rousseff estavam a par do que se passava. No meio disto tudo, o nome do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, chegou também à imprensa como suspeito de ter sido o principal intermediário neste esquema em que as empresas pagavam ao partido em troca de contratos.
O período destes contratos ilegais apanha a presidência de Lula da Silva e de Dilma Rousseff, ambos do PT. Além disso, Rousseff foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras entre 2006 e 2010, enquanto já estava em vigor este esquema de desvio de dinheiro.
Por todo o Brasil surgiram acusações e rumores de que Roussef e o seu antecessor, Lula da Silva, sabiam de tudo. E daí surgiram os pedidos de destituição da Presidente.

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Manifestações 15 de Março

Ainda não fizeram três meses desde que Dilma Rousseff tomou posse. Mas antevê-se que o seu segundo mandato vai enfrentar vários desafios. Insatisfeito, o povo brasileiro saiu à rua para exigir o fim da corrupção e a demissão da Presidente.
Estima-se que o número de pessoas que saiu à rua nos 26 estados do Brasil, calculado através de estimativas feitas pelas Polícias Municipais, seja cerca de dois milhões. Pessoas de todas as idades e profissões, vestidas de verde e de amarelo, as cores do Brasil, ou até mesmo de preto, em sinal de luto pelo país, levaram consigo cartazes cujas mensagens ilustraram o descontentamento com a Presidente: “Dilma, porque você mentiu para os seus eleitores?”; “Cadê o dinheiro da Petrobras?” e também “Fora Dilma!!! E leve os corruPTos com você!”.
Os protestos vieram independentes dos partidos. Como disse o colunista Reinaldo Azevedo na sua descrição da manifestação que pode ser lida aqui, “A democracia nos reserva, sim, o direito de ser de direita. Mas, neste domingo, as pessoas direitas é que estão nas ruas, de direita ou não”.
Após os protestos, a opinião pública em relação à Presidente do Brasil continuou a descer. Segundo os dados mais recentes do Datafolha, o Instituto de Pesquisas brasileiro, 62% dos brasileiros avaliam o desempenho da Presidente como “Ruim/Péssimo”, sendo este o valor de insatisfação mais alto desde o mandato do presidente Collor de Mello, que foi destituído em 1992.

Descomplicador:

Os protestos de 15 de Março nos 26 estados do Brasil foram a consequência de uma população insatisfeita com o Governo e as suas políticas institucionais e económicas e com a corrupção – mais especificamente com o caso Petrobras, um esquema de lavagem de dinheiro, e a suspeita do envolvimento de vários políticos dos principais partidos, inclusive do partido do poder, PT.

xldaus@clrmail.com'
Publicado por: Marta Menezes Ventura

22 anos, natural de Lisboa. Finalista de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social. Durante o ano lectivo de 2012/2013 participou no Sala de Projeção, um formato da ESCS FM sobre cultura, composto por um directo semanal e um site. Em 2013/2014 foi coordenadora do projeto.

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