Henrique Neto: o militante inconformado

O primeiro candidato às eleições presidenciais de 2016 foi sempre um dos socialistas mais críticos dentro do próprio partido mas também fora dele. Aqui ficam algumas situações em que o ex-dirigente socialista acabou por ter algum mediatismo.

henrique neto

Henrique Neto, ex-deputado socialista, apresentou ontem, dia 25, a sua candidatura à Presidência da República. Apresentou-se como independente e não se mostrou preocupado com o facto de não ter apoios partidários. O ex-empresário de 78 anos afirmou que vai tentar conquistar votos “da esquerda à direita”. Declarando-se “revoltado e triste” com o estado do país, Henrique Neto diz que o facto de concorrer a Belém como independente se deve a que os partidos políticos estão controlados por “grupos organizados”, querendo assim demarcar-se do actual sistema.

O fundador da Ibermoldes, que entrou para o PS pela mão de Jorge Sampaio, foi protagonista de algumas polémicas ao longo da sua carreira política. Críticas a António Guterres e a José Sócrates, o envolvimento na Operação Furacão, denúncias feitas sobre a maçonaria e a apresentação de diversos manifestos e moções são alguns dos exemplos disso mesmo.

Críticas a António Guterres – “Uma liderança sem ideias”

Henrique Neto opôs-se à actuação de António Guterres enquanto Primeiro-Ministro. Em 2001 chegou mesmo a apresentar uma moção com o título “Portugal Primeiro”, que acabou por não ser debatida em congresso por ordem do próprio António Guterres. O agora candidato a Belém definiu a liderança do antecessor de Durão Barroso como sendo uma “liderança sem ideias, convicções ou respostas adequadas”.

Na altura foram bastantes as insinuações de que a oposição feita por Henrique Neto ao então líder socialista se devia ao facto de não ter sido convidado para formar parte do executivo. O ex-empresário tentou esclarecer mais tarde as dúvidas: “Ficou sempre a ideia de que eu queria ser ministro, mas eu, por acaso, tinha feito um acordo com ele [António Guterres] de que nunca seria ministro. Não era só não querer, era não poder, tinha problemas nas empresas.”

Críticas a José Sócrates – “Sempre achei que o PS entregue a um tipo como Sócrates só podia dar asneira”

José Sócrates foi uma pedra no sapato para Henrique Neto durante muito tempo e muitas foram também as críticas feitas ao ex-Primeiro-Ministro.

O ex-deputado socialista afirmou sempre tinha achado “que o PS entregue a um tipo como Sócrates só podia dar asneira”. Mas não se ficou por aí: “Não tenho nada contra José Sócrates. Se ele se limitasse a ser um vendedor de automóveis. Mas ele é Primeiro-Ministro e está a dar cabo do meu país. Não é o único, mas é o mais importante de todos”, declarou então.

O antigo líder socialista chegou mesmo a ser acusado por Henrique Neto de ser uma pessoa que “só fala mentira”.

Aquando da prisão de José Sócrates, o histórico socialista não deixou de comentar a situação assegurando que “há anos que esperava que isso acontecesse. Os indícios eram mais que muitos”.

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Operação Furacão – “Recebi alguns montantes monetários, tendo-os utilizado, pelo menos em parte, em benefício próprio”.

Mas o antigo administrador da Ibermoldes também se viu envolvido em polémicas. Em 2007, no âmbito da Operação Furacão, que envolvia dezenas de figuras que teriam lesado o Estado em mais de 30 milhões de euros através de transferências bancárias para contas em paraísos fiscais, Henrique Neto foi constituído arguido mas não chegou a ser acusado apesar de ter admitido receber “alguns montantes monetários, tendo-os utilizado, pelo menos em parte, em benefício próprio”.

O empresário não chegou a ser acusado de fraude fiscal qualificada por entretanto ter regularizado a situação. Este processo tinha como juiz de instrução… o juiz Carlos Alexandre.

Maçonaria – “Havia deputados que saiam da sala para fazer um telefone que lhes indicasse como se deviam comportar”.

Num programa de comentário da SIC Notícias, intitulado “Plano Inclinado”, o ex-dirigente socialista denunciou abertamente a influência da maçonaria na vida das máquinas partidárias. Henrique Neto garantiu ter assistido a vários casos em que havia “mudanças de opinião abruptas e que eram inexplicáveis”. “Havia deputados que saiam da sala para fazer um telefone que lhes indicasse como se deviam comportar”, disse ainda.

O programa moderado por Mário Crespo tinha ainda outro comentador: Medina Carreira, que também se mostrou muito crítico para com a forma de agir dos partidos políticos portugueses. “Detesto estes partidos políticos”, acabou por dizer.

A emissão deste programa foi transmitida mas a SIC acabou por cancelar as emissões seguintes. Este episódio levantou vozes contra a direcção do canal televisivo e fez com que as críticas feitas à maçonaria por Henrique Neto ganhassem mais mediatismo.

Manifestos e moções – “O PS precisa de uma limpeza”

O histórico socialista está por trás de diferentes moções e manifestos tanto dentro do Partido Socialista como fora dele. Exemplo disso é o manifesto que juntou 60 personalidades de diversas áreas em Março de 2013, do qual Henrique Neto era um dos signatários, e que tinha como ponto central a reconstrução de um regime democrático e o fim da concentração do poder político nos partidos.

Henrique Neto, juntamente com outras figuras históricas do PS, foi um dos criadores de um manifesto de apoio a António José Seguro, cujo título era “Sejamos consequentes”. Este manifesto surgiu em Junho de 2014 como resposta a uma moção de apoio a António Costa lançada por históricos socialistas como Jorge Sampaio ou Manuel Alegre. No texto pode ler-se também uma dura crítica a José Sócrates e à sua liderança, acusando o ex-primeiro-ministro de ter conduzido “o país ao desastre”.

O fundador da Ibermoldes também foi crítico em relação à liderança de Ferro Rodrigues e por duas vezes tentou interferir na liderança do actual líder da bancada parlamentar socista. Em 2002, Henrique Neto apresentou em congresso uma série de medidas que visavam corrigir questões estruturais do partido, entre elas constava a ideia de se avançar com eleições primárias. Em 2003, o ex-deputado pediu a demissão de Ferro Rodrigues acusando-o de se ter envolvido demais no escândalo Casa Pia. Começou nessa altura a advertir que o PS precisava “de uma limpeza” – frase que repetiu inúmeras vezes em várias ocasiões.

Descomplicador

Henrique Neto apresentou-se ontem como candidato às eleições presidenciais de 2016. O ex-deputado socialista viu-se envolvido em diversos casos, quer fosse por ter criado polémica com os seus comentários quer fosse por ser o centro da polémica: desde críticas a António Guterres e a José Sócrates até ao envolvimento na Operação Furacão e passando por denúncias feitas sobre a maçonaria. É com esta herança que se apresenta o primeiro candidato na corrida a Belém.

Publicado por: José Pedro Mozos

23 anos, natural de Lisboa. Aos dezasseis anos percebeu que a sua vocação era o jornalismo. Licenciado em jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós graduado em Jornalismo Multiplataforma pela FCSH – Universidade Nova de Lisboa. Entre março de 2016 e junho de 2017 passou pela SIC Notícias. Faz parte da editoria de política da Revista VISÃO desde julho de 2017. Acredita no jornalismo como sendo um dos pilares de qualquer democracia. Atualmente, faz parte do Conselho Editorial do Panorama.

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