Coerência e Memória

Miguel AlbuquerqueEm Política, como em tudo na vida, a coerência do que dizemos e fazemos determina a confiança que os outros depositam em nós. O recente processo eleitoral na Região Autónoma da Madeira é um exemplo paradigmático disso mesmo, tal como as reações que se seguiram.

O desastroso resultado do PS não é certamente alheio ao facto de este partido se ter apresentado a votos coligado com forças políticas tão distintas como o Partido da Terra, o Partido Trabalhista Português ou o Partido pelos Animais e pela Natureza. Esta coligação negativa, ao invés de se ter preocupado em apresentar, de facto, uma alternativa, deixou bem claro, desde logo com a diversidade (e até antagonismo) de partidos que integraram a candidatura, que o seu único objetivo era “retirar” a maioria absoluta ao PSD. Falharam redondamente, como se viu.

Tal como em 2011, o PS perdeu as eleições regionais e o PSD renovou a maioria absoluta. Mas com uma particularidade: o PS em 2011 foi sozinho a eleições e obteve 11,5% dos votos, em 2015 foi coligado com mais 3 partidos e obteve 11,41% dos votos. E comparemos as reações: em 2011, o líder de então, António José Seguro deslocou-se à sede do partido “para manifestar solidariedade para com o PS-Madeira e os seus candidatos”. Em 2015, António Costa “enviou” o membro da direção nacional do PS, Porfírio Silva, para dizer que “é evidente que os nossos camaradas da Madeira não atingiram os resultados que eles esperavam”, negando a extrapolação para o âmbito nacional. Com um resultado francamente pior em 2015 do que em 2011, não só o atual líder do PS se tenta (em vão) demarcar do desastre eleitoral, como até a postura com os seus camaradas socialistas é abismalmente diferente.

António CostaMas o silêncio de António Costa em relação às eleições na Madeira é ainda mais interessante se comparado com o entusiasmo ridículo e injustificado aquando da vitória do Syriza. Aí já o PS quis fazer uma extrapolação para o âmbito nacional de umas eleições num outro país, quando disse que os resultados na Grécia eram “os primeiros sinais de que há consciência de que é necessário mudar de direção e de como quem persiste como o nosso Governo em seguir no caminho que tem sido seguido está errado e temos que fazer a mudança também em Portugal que está a ser feita no conjunto da Europa”. A avaliar pelo previsível aumento do IRS e do IVA na Grécia, em sentido contrário ao que o Syriza tinha prometido na campanha eleitoral, estamos esclarecidos sobre a mudança de direção a que se referia António Costa…

Há ainda a reação do PS, ou melhor, de António Costa, à vitória do PS nas eleições europeias. Repito, vitória, tangencial, mas vitória. Aí novamente António Costa fez dessa vitória numas eleições europeias motivo para “correr” com o então Secretário-Geral, António José Seguro.

Se comecei por destacar a importância da coerência para o juízo que os outros fazem de nós, devo juntar-lhe a importância da memória. E é na importância da coerência e da memória dos Portugueses que devem residir as preocupações de António Costa. Aliás, como Pessoa nos ensinou “A memória é a consciência inserida no tempo”.

Publicado por: Margarida Balseiro Lopes

Deputada eleita pelo PSD. Licenciada e Mestre em Direito e Secretária-Geral da Juventude Social Democrata

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