As eleições departamentais francesas em 5 pontos

O Contexto

A conjuntura política que antecedeu as eleições departamentais francesas de 2015 tem muito que se lhe diga, sendo por isso essencial para compreender melhor o significado por detrás dos resultados deste domingo. Comecemos pela situação do presidente francês François Hollande e do seu Partido Socialista.

hollandeDepois de ter sido eleito presidente em maio de 2012 num clima que ditava altas expectativas para uma viragem de centro-esquerda na França e na Europa, os 3 anos que se seguiram foram repletos de desilusões e fracassos políticos para o presidente socialista. Imagine-se governar um país com uma economia estagnada, ou quase, aliada a um desemprego na ordem dos 3.5 milhões e a uma das cargas fiscais mais elevadas da zona euro ao mesmo tempo que se tem a reputação de ter passado de “esperança do socialismo europeu” a “bom aluno” da chanceler alemã, Angela Merkel. Por outras palavras, a situação não se adivinhava famosa para o partido socialista francês à entrada para as eleições departamentais.

Do outro lado da barricada, conservadores e centristas juntaram forças numa coligação encabeçada por nenhum outro que não Nicolas Sarkozy, ex-presidente francês derrotado por Hollande nas presidenciais de 2012. À frente do partido conservador UMP (União por um Movimento Popular), Sarkozy aliou-se aos centristas do UDI (União dos Democratas e Independentes) na criação de uma coligação de centro-direita que se desmarcou quer do PS de Hollande, quer dos ultranacionalistas da Frente Nacional. Estes, por sua vez liderados por Marine Le Pen, vinham de umas eleições europeias em que foram os vencedores com 25% dos votos – feito inédito para um partido de extrema-direita na França – e eram apontados como um dos favoritos à vitória nas eleições departamentais.

A primeira volta

Os resultados da primeira volta viram a coligação de direita de Sarkozy sair na frente, com 29,4% dos votos, seguida pela Frente Nacional com 25,19%. Já para o Partido Socialista, os resultados foram um sinal claro de derrota – 22,23%. Convém relembrar que as eleições departamentais francesas são uma espécie de eleições regionais a 2 voltas. Os franceses são chamados às urnas para, num processo de duas fases, escolher a liderança dos 101 departamentos do seu território bem como os conselheiros existentes em cada um destes (o equivalente a vereadores). Assim, enquanto à primeira volta concorrem todos os partidos que apresentam uma lista, na segunda vão a votos apenas os 2 partidos mais votados na primeira.

Nas reações aos resultados da primeira volta, Sarkozy e Manuel Valls (atual primeiro-ministro francês e secretário-geral do Partido Socialista) estiveram em improvável sintonia, ao reconhecer, por um lado, a derrota eleitoral do PS e, por outro, ao apelarem ao chamado “voto republicano”. Sarkozy criticou fortemente a Frente Nacional e fez saber que não iria existir qualquer espécie de acordo eleitoral com o partido de Le Pen a nível regional ou nacional, enquanto Valls apelou diretamente ao eleitorado francês para “votar no partido republicano, da esquerda ou da direita” na segunda volta das eleições. Já Marine Le Pen considerou os resultados da primeira volta positivos para o seu partido, relembrando que “conseguir o mesmo resultado, numa eleição regional, quando não temos nenhuma implantação local, que nas eleições europeias, que foi uma votação nacional, é extraordinário. Nós tivemos mais 360 mil votos que nas eleições europeias”.

A segunda volta – Regresso em glória para Sarkozy

No passado domingo os franceses foram novamente chamados às urnas para a segunda volta das eleições departamentais. Uma vez conhecidos os resultados, as conclusões eram agora definitivas – Nicolas Sarkozy foi mesmo o grande vencedor. Com 45.03% dos votos, a coligação de direita UMP/UDI liderada pelo ex-presidente francês conseguiu o controlo de 66 departamentos franceses.

sarkozy

O regresso de Sarkozy à política foi assim marcado por um enorme sucesso eleitoral, vingando até certa medida a derrota presidencial de há três anos atrás. Sobre a vitória, o líder da UMP prometeu “acelerar a preparação do projeto para a alternativa republicana”. Segundo Sarkozy, trata-se de “um projeto absolutamente inovador” e que será “a condição absoluta para reequilibrar o país e interromper o declínio em que mergulhámos em três anos do socialismo mais arcaico da Europa”.

Derrota amarga para os socialistas

Em clara espiral descendente, o Partido Socialista francês foi a segunda força política mais votada na segunda volta das eleições departamentais, obtendo cerca de 32,12% dos votos, em alguns departamentos em situação de coligação com partidos de esquerda. A derrota socialista torna-se ainda mais evidente se tivermos em conta que até este domingo controlavam 61 departamentos, número que foi reduzido quase pela metade e que se situa agora nos 34. Nem o departamento anteriormente dirigido por Hollande, na região da Corrèze, escapou ao controlo da coligação de direita.

A braços com o projeto falhado de recuperar a economia francesa e índices de popularidade cada vez mais baixos, estes resultados anteveem enormes dificuldades para o partido atualmente no governo para as eleições presidenciais de 2017. O primeiro-ministro socialista, Manuel Valls, afirmou que não tinha qualquer intenção de apresentar a sua demissão, não obstante a derrota política sofrida pela esquerda nas eleições departamentais. Valls considerou que “a esquerda, demasiado dispersa e dividida na primeira volta, teve um claro recuo, apesar do bom desempenho dos executivos departamentais”.

Frente Nacional – Copo meio cheio

A Frente Nacional ficou em terceiro lugar na segunda volta das eleições departamentais, tendo obtido 22,23% dos votos dos franceses. Há duas formas de analisar os resultados obtidos pelo partido de extrema-direita. Enquanto na primeira volta a Frente Nacional tinha ficado à frente em 43 departamentos, o “voto republicano” acabou por prevalecer no segunda volta, tendo Le Pen não conseguido o controlo de qualquer departamento. Até o Partido Comunista francês conseguiu o controlo de um departamento, o de Val-de-Marne, na região de Paris.

Contudo, aquilo que pode ser visto como uma derrota para Le Pen – e um alívio para os dirigentes republicanos – é sem dúvida um claro sinal de que a Frente Nacional continua cimentar a sua posição perante o eleitorado francês. Le Pen e o seu partido agora não só têm expressão europeia como passam a ter força nos departamentos regionais franceses. Os 22,23% dos votos na segunda volta destas eleições dão à Frente Nacional cerca de 62 conselheiros, que, garante Le Pen, vão defender as ideias dos seus eleitores nos vários departamentos franceses.

A líder do partido de extrema-direita disse que os resultados da Frente Nacional foram positivos, não obstante não ter conseguido o controlo de qualquer departamento, e deixou uma mensagem ao primeiro-ministro francês – “Não peço que Manuel Valls se demita porque, embora se espere que os estadistas saiam com dignidade, os políticos mesquinhos e medíocres tendem a cair por si”. Le Pen referiu ainda que com estes resultados “o objetivo aproxima-se: Chegar ao poder, aplicar as nossas ideias para levantar a França, devolver-lhe a liberdade, a segurança e a prosperidade”. “O empobrecimento, o desemprego em massa e a destruição da nossa identidade não são fatalidades”, disse ainda.

Nota: A abstenção foi, como já era esperado, bastante alta – cerca de 50% dos eleitores não foram votar os seus representantes para os departamentos regionais da França.

Descomplicador:

Sarkozy regressa à política com uma vitória clara nas eleições departamentais francesas. Em coligação com a UDI, a UMP do ex-presidente conseguiu o controlo de 66 departamentos. Já o Partido Socialista perdeu quase metade dos que detinha, ficando-se pelos 34. O “voto republicano” acabou por impedir os extremistas da Frente Nacional de conseguir qualquer departamento, mas a crescente influência do partido de Le Pen na França é inegável.

xhegml@anappthat.com'
Publicado por: Rui Miguel Pereira

Finalista de Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social. Foi coordenador dos noticiários da ESCS FM, onde também participou em vários programas, e redactor no Bola na Rede. Colabora também com o Shifter

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