Da esquerda à direita, elas são mais iguais do que diferentes – II

JCP JS JSD

A imagem negativa das Juventudes Partidárias

Quando confrontada com a imagem pública negativa que as juventudes partidárias têm, Liliana Miranda responde prontamente: “quando as pessoas falam sobre isso, eu costumo dizer que está nas mãos delas as coisas mudarem”. “Há um lobby, sem dúvida”, confessa, mas logo diz que “temos de fazer crer que efetivamente esta posição que as pessoas têm ao facto de se fazer da política vida não é a correta”.

A crise “aproxima mais os jovens da política sem eles saberem que se estão a aproximar da política”, considera a jovem socialista Catarina Castanheira, mas logo ressalva que – ao mesmo tempo – os afasta da atividade partidária. Uma das causas pode ser o facto de as ideologias dos partidos estarem diluídas, numa aproximação constante ao centro. Contudo, Catarina acha que a crise “obrigou os partidos a definirem-se” e que as “ideologias estão a regressar”.

Quanto ao combate da má imagem? Catarina, baseando-se na sua experiência, dá o argumento positivo: “estar ativo vai-lhe dar uma formação que infelizmente a sociedade não dá”. E acrescenta que “os jovens sentem a vontade mudar a sociedade mas não sabem como fazê-lo”, sendo que considera que as juventudes partidárias podem ser um dos caminhos para fazer isso acontecer. Contudo, alerta para o preconceito existente perante os jovens saídos das juventudes partidárias. A própria admite estar reticente em meter esta experiência no seu currículo porque há uma “desvalorização geral” na sociedade.

Contrariamente às restantes juventudes partidárias, para Sara Guedes Covas a JCP tem outra imagem: “echo que a JCP se mantém à margem [da má imagem] por uma razão muito simples: o facto de nós conhecermos vários casos, o facto de nós sermos realmente diferentes”. Justifica esta sua opinião pela proximidade que têm com os jovens revelando que o cariz da JCP foi “sempre de ir à conversa com os estudantes, e não só na altura de eleições”. Mantendo-se à margem desta imagem negativa, a jovem alerta até para uma situação: “porque é que eles querem que tu não vás votar? – nós temos de alertar a juventude e a população em geral que a abstenção também conta para aqueles que ganham; é contrário a toda a tendência democrática que nós pretendemos”.

Maria de Lourdes Pintasilgo foi a primeira e única mulher até ao momento a assumir o cargo de PM

Maria de Lourdes Pintasilgo foi a primeira e única mulher até ao momento a assumir o cargo de PM

O mundo cor-de-rosa das Juventudes Partidárias

Quando entrou para a Juventude Social-Democrata do Montijo, Liliana Miranda diz que teve a “vida facilitada, podemos dizer, porque na altura havia muitas mulheres jovens”. Para a atual Presidente da Mesa da Assembleia Geral já não existe preconceito perante as opiniões femininas, e que a menor creditação dos argumentos dados por mulheres é “uma coisa do século passado”. No século XXI, Liliana diz que nunca sentiu que as suas ideias “fossem colocadas de parte por ser mulher”. Liliana considera que as mulheres têm um papel fundamental na política “não só pelo facto de sermos sensíveis ao impacto das coisas, mas também porque podemos dar outra visão à forma como se faz política”.

No entanto, admite que – apesar de a representatividade ter sido melhorada – ainda estamos longe de ter uma primeira-ministra e uma Presidente da República. “Também não sei se estaríamos preparados para o contrário”, ou seja, para o domínio feminino na política. Liliana refere o caso de Manuela Ferreira Leite, líder do PSD em 2009, que concorreu contra José Sócrates, e que “não ganhou, como é óbvio”. Apesar de não poder tirar conclusões evidentes, diz que “ela não foi eleita possivelmente por ser mulher”. Um dos problemas é que “não há um grande número de candidaturas [no feminino] a estes cargos” de topo, alerta, acrescentando que a única melhoria é a nível local onde as mulheres têm mais espaço para dominar.

E quanto à Lei da Paridade que entrou em vigor em 2006, e que impõe quotas de 33 por cento para as mulheres nas listas eleitorais? “Foi fundamental para chamar um pouco mais de intervenção feminina no campo político”, responde Liliana Miranda, numa opinião que é rejeitada por Sara Guedes Covas e Catarina Castanheira.

A militante socialista não concorda, mas diz que é um “mal menor”. “Eu quero tratar os militantes pela sua qualidade, independentemente do género”, diz Catarina Castanheira sem hesitar. A sua perceção é a de que há mais mulheres dirigentes mas que estas não são diferentes dos homens: “a sensibilidade para as questões, depende mais das pessoas do que do género”.

Apesar disso, sente a discriminação em pequenas coisas que estão enraizadas na sociedade portuguesa. Não quer que lhe abram a porta para entrar, nem que a deixem comer primeiro – no fundo, “quero ser tratada como outra pessoa qualquer”. Porém, este pensamento já lhe trouxe dissabores, e discussões com militantes que defendem tanto a igualdade como ela. Isto já a prejudicou, mas tem a certeza de uma coisa: “se eu me sacrificar para que no futuro outras pessoas possam ter outras oportunidades, a minha missão está feita”.

Ao início Catarina aproximou-se mais do estilo ‘one of the boys’ instintivamente porque diz que “a mulher sente que tem de ser perfeita para conseguir o mesmo que alguém pior do que ela”, e para o ser tem de se colar à imagem rígida dos homens. Porém, logo a seguir condenam discussões acesas com mulheres – considerando-as histéricas -, segundo nos conta Catarina Castanheira. “Catarina, tu és um homem a fazer política!”, disseram-lhe uma vez. “O pior elogio que podia ter recebido”, remata.

Já Sara Guedes Covas é completamente contra – até porque o seu partido não votou a favor – e argumenta: “dá margem para que eu um dia tenha que apanhar de um homem que me diga assim: «pois, só estás aqui porque uma lei o obriga…»” Perante esta possibilidade, a jovem camarada considera que as mulheres conseguem lá chegar por si próprias, dando como exemplo a liberdade sexual e democrática pós-25 de abril. No seio da sua juventude partidária diz que há uma atenção para com todos, nomeadamente na festa do Avante, um símbolo cultural comunista, onde por vezes são necessários trabalhos de esforço. A preocupação de Sara é outra: “o que me aflige, e isso sim é perigoso, é as mulheres continuarem a receber para o mesmo trabalho um salário inferior aos homens”.

A reportagem Da esquerda à direita, elas são mais iguais do que diferentes será publicada em duas partes. A primeira parte está disponivel AQUI.

Esta reportagem foi redigida num período anterior às Eleições Europeias de 2014.

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Publicado por: Tiago Varzim

Nasceu na Póvoa de Varzim mas fez toda a sua vida em Barcelos. Agora é em Lisboa que dá os primeiros passos no jornalismo. Estudante de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social. Colabora com vários sites, entre eles o Panorama.

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