Da esquerda à direita, elas são mais iguais do que diferentes

A ideologia que guia Liliana Miranda, Sara Guedes Covas e Catarina Castanheira é diferente, mas há duas coisas que as une: pertencem a uma juventude partidária, e são mulheres. As três jovens distribuem-se da esquerda à direita, mas é o género que as torna iguais perante a supremacia masculina da máquina partidária da respetiva juventude. Numa altura que o tema da igualdade entre géneros povoa os media portugueses, fomos à descoberta de três histórias ímpares com um início, meio e fim pautados de diferentes experiências enquanto mulheres e enquanto jovens políticas.

Juventude Social Democrata JSD

JSD Montijo. “São mais aqueles que criticam do que aqueles que se chegam à frente para defender”

Liliana Miranda, de 25 anos, militante da Juventude Social-Democrata do Montijo, já tem uma licenciatura em Reabilitação e Reinserção Social e um mestrado em Política Social, mas não fugiu ao facto da dura realidade do desemprego. Atualmente, para além de ser Presidente da Mesa da Assembleia Geral da JSD, Liliana dedica-se a uma Associação de Jovens no Montijo que, diz, pretende “tentar chamar os jovens para a participação sem ser a nível político”. “Ou seja, uma associação que não está ligada a nenhum partido, mas que quer estimular a educação informal, a cidadania, e tentar formar os jovens para a participação [cívica]”, completa a presidente da associação desde 2011.

O interesse pela política, diz, começou quando achou que estava nas suas mãos “contribuir para resolver algo que estava mal”. “Achava que havia poucas medidas, poucos incentivos aos jovens – que eu sentia na altura – e portanto tinha de começar por algum lado”, diz Liliana Miranda. Se para uns a ideologia a que pertencem é evidente, tal podia não ser para Liliana. Inserida num grupo de amigos que pertenciam a várias juventudes partidárias, da esquerda à direita, a agora militante da JSD Montijo viu-se encurralada nesta abrangência. Mas havia algo em comum: “interesse de fazer alguma coisa cada um na sua respetiva ideologia”. Daí que Liliana Miranda tenha estudado a ideologia de cada partido para chegar uma conclusão: “efetivamente identifiquei-me mais com a Juventude Social-Democrata”.

A sua entrada foi através de amigos que conhecia na JSD Montijo, e a integração gradual – “no Montijo eu senti facilidade de integração”. Contudo, no início, Liliana admite que – ideologias à parte – era “um zero à esquerda”. E alerta que nota isso na maior parte dos jovens de hoje em dia. Pela sua experiência, diz que a aprendizagem é realmente a base de uma juventude partidária: “eu senti que os jovens que foram chegando, tal como eu senti quando cheguei naquela altura, foram adquirindo estes conhecimentos para ter uma visão diferente das coisas”. Uma tomada de conhecimento que clarifica e promove o voto, acrescenta.

Já dentro da estrutura partidária, Liliana não teve dúvidas de que o seu papel foi e é importante: “senti que tive um papel ativo não só na defesa das minhas ideias, mas como na construção de outros jovens”. “Óbvio que há momentos em que discordamos, em que sentimos que não defendemos aquela ideia e que o nosso papel ali é nenhum… mas eu costumo dizer que quem ganha é as maiorias”, revela. O objetivo final é claro: fazer com que os jovens se afirmem ao nível da sua cidadania. A militante social-democrata defende que se devia começar logo no secundário a informar e a incutir estes valores de participação na vida coletiva, “sobretudo tomarem conhecimento da importância que é estarem ativos a nível da política e da defesa dos seus direitos”.

Quanto ao funcionamento da JSD Montijo, a explicação é simples: reúnem-se semanalmente, discutem assuntos de política nacional com debate de ideias entre os jovens, mas depois seguem para aquilo onde podem fazer uma grande diferença – as autarquias. Nas reuniões partilham argumentos sobre a política do Montijo, nomeadamente sobre aquilo que é discutido na Assembleia Municipal. Liliana Miranda acha que esta política local é essencial para a formação dos jovens: “se não começarmos pelo sítio onde nós vivemos – onde nós partilhamos o nosso espaço com os outros – dificilmente conseguimos depois chegar mais longe porque é a partir daí que o trabalho começa. É a partir daí que nós temos de começar a contribuir para o melhoramento”.

Segundo nos conta, no momento em que entrou “houve uma participação muito ativa dos jovens (…) agora sinto que esmoreceram um pouco na sua participação”, admite. “Obviamente a participação é menor agora, e temos de fazer alguma coisa para que isso mude”, diz Liliana apesar de perceber que os jovens que saem atualmente da faculdade estão numa situação de desemprego iminente, e que por isso consideram que a sua participação não tem qualquer influência na política. Ainda assim, acha “que a crise não é uma desculpa”, mas que “acaba por influenciar a predisposição para participar [civicamente ou politicamente], obviamente”.

O caso de Liliana Miranda não é assim tão distante da realidade que relata. Licenciada, com mestrado, mas desempregada. Ainda assim, não quer fazer carreira na política. “Sou formada em Política Social, tenho muitos mais conhecimentos para poder trabalhar nas políticas sociais do que outra pessoa”, considera, mas logo afirma que nunca pensou fazer vida da política. “Eu acho que a política não pode ser vida para alguém. A política tem é de tirar um pouco de nós para poder dar aos outros”, remata. A militante considera até que esta situação de dedicação total à política – ou seja, uma carreira na política como é o caso do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho ou do líder da oposição António José Seguro, que não têm atividades paralelas – é perigosa. “É um perigo quando as pessoas fazem da vida política e vivem daquilo simplesmente”, considera Liliana Miranda, acrescentando que esse caminho leva “ao que acontece atualmente: os interesses, essa defesa para proveito próprio”.

No entanto, Liliana aponta também o lado negativo da sociedade: os portugueses “são pessoas solidárias, que se interessam, mas que têm uma dificuldade enorme de chegarem até às coisas (…) é mais fácil que as coisas cheguem até elas; sair e ir procurar, e ir ter conhecimento, é mais complicado”. “São comodistas nesse aspeto”, considera. A Presidente da Mesa da Assembleia Geral da JSD do Montijo responsabiliza também a comunicação social dizendo que, se as pessoas se informassem mais sobre os assuntos chegariam “à conclusão de que aquilo que foi noticiado não é bem aquilo que é na realidade; isso acontece diariamente com as notícias que vão saindo na comunicação social”. Liliana Miranda não tem dúvidas: “são mais aqueles que criticam do que aqueles que se chegam à frente para defender”.

Juventude Socialista JS

Uma ascensão meteórica. Da JS Porto ao Secretariado Nacional, e às Europeias.

Há quatro anos atrás, Catarina Castanheira iniciava a sua atividade política. Agora, com 24 anos, conta que o seu percurso tem tudo menos a ver com esta área. De Ciências e Tecnologias diretamente para Bioquímica, no Porto, pouco tempo restou fora do laboratório para se dedicar a assuntos sociais.

No entanto, foi nas Europeias de 2009 que desenvolveu a sua consciência política que até ali se limitava a um sentido prático, tal como nos diz. Depois de refletir e estudar os programas, Catarina Castanheiras – natural de Bragança, de Torre de Moncorvo – diz que “comungava na ideologia” do PS – “era aquele tipo de sociedade que eu pretendia”.

Questionava-se se ia acrescentar alguma coisa ao que já havia, mas a vontade de contribuir – e de “não ser mais uma pessoa robô que não pensa o que anda cá a fazer” – foi maior e pouco depois estava a ingressar na Juventude Socialista (JS) do Porto. A sua entrada não foi através de amigos ou conhecidos, mas tornou-se marcante ainda assim porque a JS da sua concelhia estava a ser reativada. Rapidamente se integrou no seio da JS Porto, “no meio da diversidade (…) uma pluralidade de pessoas tremenda”, diz, e depois de conversas com alguns dirigentes acaba por ir para o secretariado federativo apenas com 3 ou 4 meses de militância.

Três mandatos depois – e após uma intensa atividade na Federação, segundo conta  – já estava como secretária nacional para a igualdade, onde se mantém. Recentemente integrou as listas do PS para as Europeias de 2014 ao lado de Francisco Assis.

Justificação para este sucesso? “Adoro fazer política e, por isso, dediquei-me”, afirma sem medo. A ascensão de Catarina Castanheira explica porque deixou Bioquímica a meio para se dedicar a Direito: “a sociedade atualmente impinge-nos que não podemos parar… essa pressão é má para quem não tem vocação” “Quando eu entro na JS apercebo-me que adoro fazer política – e não tenho receio de o dizer”, remata. O curso de Direito – que frequenta atualmente – dá-lhe a formação abrangente que diz ser uma ajuda “fundamental” para a parte técnica da atividade política, uma vez que dentro do próprio partido conhecem-na como a Catarina que sabe todas as regras e todos os estatutos.

Aliás, diz que a política, principalmente as atividades que organizou no início da sua militância, foram essenciais para a sua formação enquanto pessoa, nomeadamente no que toca a “skills adquiridas na política”. “Uma juventude partidária tem duas vertentes: formar os seus militantes, não só para serem bons políticos mas para serem bons cidadãos”, argumenta, dizendo com lamento que “não temos no nosso ensino uma disciplina que ensine questões básicas que toda a gente devia perceber em relação à democracia”. Catarina Castanheira não tem dúvidas de que “qualquer pessoa que passe por uma juventude partidária fica melhor capacidade para ser um melhor cidadão”.

Apesar de concordar que se pode fazer da política profissão – até porque considera que “os políticos são a representação da sociedade que temos” -, Catarina Castanheira quer exercer os dois mundos em paralelo: a política e a advocacia.

Juventude Comunista Portuguesa JCPJCP Lisboa. A menina que via o debate quinzenal sem pestanejar

Aos 19 anos decidiu entrar para a Juventude Comunista Portuguesa (JCP), mas a aptidão para a política já tinha começado bem antes. “Na minha família houve sempre dois temas muito abordados: futebol e política”, conta Sara Guedes Covas, oito anos depois de ter ingressado na juventude partidária que a cativou. Diz que sempre teve “conversas muito abertas (…) desde pequena fui habituada a discutir ideias”. A televisão, pelo menos uma vez por mês, não estava nos habituais desenhos animados: “lembro-me de passar horas e horas ver os debates mensais em casa porque a minha mãe realmente tinha interesse nisso”. Sara não tem dúvidas de que a mãe foi a grande influência na sua vida cívica. Ela “viveu intensamente o 25 de abril”, e dizia-lhe sempre “como devíamos valorizar e permanecer em democracia”, rejeitando outro tipo de discursos extremistas – apesar de ser comunista -, revela-nos a agora camarada juvenil.

No entanto, reconhece que os discursos políticos a mais podiam tê-la chateado na juventude. Tal não aconteceu porque, diz Sara Guedes Covas, a mãe sempre lhe ensinou “a olhar para as coisas com um grau de importância tal que era muito difícil desviar o olhar”. Apesar do Partido Comunista Português (PCP) – ao qual os pais pertenciam – ser uma presença constante nas quatro paredes de sua casa, Sara não tem dúvidas de que sempre foi livre de ter outras ideologias. Conta até que perguntava à mãe, quando era pequena, porque é que ela era do Porto, ao que a mãe respondia: “porque ganhamos sempre”. E a mesma pergunta foi feita para o PCP, que nunca chegou a governar. Ficou sem resposta, mas Sara viria a compreender mais tarde.

A agora jovem adulta Sara insiste num ponto: “a minha mãe sempre me perguntou sobre o que é que eu pensava das coisas” e que, portanto, a liberdade para “pensar muito” estava presente. O que a ajudou a pensar nestas questões foi a extensa biblioteca que tinha em casa. “Eu lembro-me de ter 16 ou 17 anos e estar aborrecida em casa nas férias de verão, e começar a ter um certo tipo de leitura que depois também ajudou na minha entrada na JCP”, conta-nos. Um dos livros foi as Vinhas da Ira, de John Steinbeck, que marcou o seu pensamento “para sempre”.

Mais do que pensar na política, a mãe de Sara queria que ela pensasse na participação cívica e na diferença que ela podia fazer na sociedade. Na realidade, confessa-nos, a mãe “sempre atrasou a entrada na JCP porque sabia o era ser comunista”. E o que é ser comunista? “Ser comunista é um grau de militância muito grande”, diz sem hesitar. O medo da mãe era então ver menos a filha. Por isso, a pergunta que surgia sempre era: “estás preparada para isso?” Sara só conseguiu responder mais tarde quando estava a ver o canal do Parlamento. Nessa altura estava a estudar Direito e ao ver as discussões quinzenais ia estudando os vários processos legislativos. Acontece que por acaso escutou uma discussão sobre o ensino superior: “tinha acabado de pagar as propinas (…) tinha andado a trabalhar para pagar propinas (…) sentia-me roubada e estoirada de todas as maneiras e feitos, e na altura ouço o Miguel Tiago a fazer uma intervenção brilhante sobre o Ensino Superior Público gratuito e de qualidade”, intervenção que a conquistou. Uma semana depois foi ao Centro de Trabalhos do Partido Comunista Português na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e “disse que queria ser comunista”. Leu o manifesto do partido, ficou a conhecer os princípios orgânicos da JCP, e os dois camaradas que a inscreveram logo lhe disseram: “agora este é o teu mundo”.

A sua integração e entrada não foi demorada. Segundo nos conta, Sara começou a ir às reuniões e a integrar-se melhor no coletivo de comunistas que existia na faculdade onde estava a estudar. Entre os debates, as distribuições nas faculdades, os boletins de escola, e outras “tarefas”, tal como lhes chamam no seio da juventude partidária, o seu trabalho foi crescendo até à altura do 8º Congresso da Juventude Comunista Portuguesa. Nessa altura foi chamada a ler um projeto de resolução política que diz ser “uma coisa que não existe muito nas outras juventudes partidárias”, e que “foi muito importante” para se integrar na JCP. A partir daí foi sempre a subir: atualmente faz parte da direção da Organização do Ensino Superior de Lisboa e é membro da Comissão Regional da JCP em Lisboa.

Com a entrada na JCP, Sara Guedes Covas diz que aprendeu a ser mais organizada e a analisar de forma profunda os problemas que existem no Ensino Superior. A missão é “alertar e consciencializar os estudantes, e mostrar que o nosso [da JCP] caminho é justo”. De uma coisa tem a certeza: “este [o atual] não é o caminho!”

A reportagem Da esquerda à direita, elas são mais iguais do que diferentes será publicada em duas partes. A segunda parte será colocada online amanhã.

Esta reportagem foi redigida num período anterior às Eleições Europeias de 2014.

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Publicado por: Tiago Varzim

Nasceu na Póvoa de Varzim mas fez toda a sua vida em Barcelos. Agora é em Lisboa que dá os primeiros passos no jornalismo. Estudante de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social. Colabora com vários sites, entre eles o Panorama.

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