Os desafios da Universidade no século XXI

As metamorfoses operadas no sistema de Ensino Superior português, consequentes das transformações introduzidas pelo processo de Bolonha e que viriam a ser acompanhadas da introdução do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior pelo Ministério de Mariano Gago, contribuíram para romper com o modelo clássico de Universidade, desenhado como espaço privilegiado de produção de conhecimento porém destinado a alimentar a própria estrutura, encerrando-o sobre os seus muros. A criação de um diploma orientador e estratégico dos princípios de Ensino Superior conduziu, por inerência, à necessidade de renovação das instituições e simultaneamente o processo de redução de dotação orçamental do Ensino Superior contribuiu para que os subsistemas de ensino procurassem diferentes estratégias de resposta à quebra de financiamento.

Processo de BolonhaSe numa primeira fase as instituições recorreram a lógicas de diversificação da oferta formativa através da introdução de maiores índices de oferta pós-graduada destinada a gerar maior atração de financiamento privado, rapidamente este modelo se assumiu como determinante para a compensação da progressividade da diminuição de verbas públicas destinadas ao sector. A aposta por um modelo híbrido de Universidade Ensino-Empresa materializa-se com a introdução na equação das articulações com o tecido laboral, em particular o sector terciário que convergiram nas formações executivas. A acompanhar este modelo e face às exigências dos novos financiadores do Ensino Superior, as instituições solidificaram a sua posição no espectro de Ensino Superior com o desenvolvimento de estratégias assentes na excelência curricular, ofertas formativas diversificadas e personalizáveis e protocolos de parceria visando a internacionalização.

A legitimar esta transformação, o ranking da Universidade de Xangai, um dos mais importantes elementos avaliadores das instituições de Ensino Superior que contempla as 500 melhores universidades do mundo, foca sobretudo aspectos decorrentes da internacionalização e investigação nas Universidades, o que direciona o sector para uma tendência de criação de Institutos de estudos pós-graduados e de Universidades de investigação que apostam sobretudo nas qualificações de 2º e 3º ciclos e no prestigio da sua produção científica.

Universidade de LisboaComo resposta a esta necessidade, as Universidades Portuguesas têm procurado estratégias de convergência com Universidades internacionais de referência, visando melhorar os seus currículos e estruturas, apoiando-se nas ausências de regulamentação executiva de determinadas matérias que, a acompanhar a permanente exigência de reforço de autonomia por parte dos órgãos de gestão das mesmas, conduziu a uma nova estratégia de associação entre instituições ou unidades orgânicas. São exemplos o consórcio das Universidades da zona norte, a associação da Universidade Nova de Lisboa à Young European Research Universities Network (YERUN) e a fusão das duas mais antigas e institucionalizadas Universidades de Lisboa, projeto que recentemente cumpriu o seu primeiro ano de existência. Os ganhos de escala que a dinamização do conhecimento e do espaço físico e virtual das Universidades gerou ainda não são conclusivos, no entanto tendem a indicar um crescimento qualitativo da intervenção científica internacional, resolução que valeu à Universidade de Lisboa uma significativa subida de aproximadamente 100 lugares no ranking de Xangai em comparação com o resultado obtido pelas instituições no ano anterior à fusão.

Em suma, as Universidades são hoje espaços absolutamente dinâmicos, não apenas ao nível da partilha do saber, como também da portabilidade desse mesmo saber. A internacionalização, associada à mobilização de estudantes, investigadores e docentes é, hoje, um traço marcante na construção das Universidades do século XXI, com a comercialização do conhecimento como pano de fundo, em espaços mercantilizados, direcionados para o mundo dos negócios, em que a excelência e a competitividade caminham lado a lado.

Publicado por: André Santos Pereira

Licenciado em Sociologia pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, a frequentar o Mestrado em Sociologia na mesma instituição, co-autor do livro Sociedade em Rede em Portugal: Uma década de transição, investigador, Presidente da Federação Académica de Lisboa e membro do Conselho Geral do ISCTE-IUL

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