Sampaio da Nóvoa 2012, Sampaio da Nóvoa 2015: As semelhanças e as diferenças

António Sampaio da Nóvoa apresentou ontem a sua candidatura à Presidência da República, no Teatro da Trindade. O ex-reitor da Universidade de Lisboa apareceu de forma mediática na sociedade portuguesa como presidente da comissão organizadora da comissão de comemoração do 10 de Junho, onde proferiu um discurso que foi dos mais relembrados desse dia. De 2012 a 2015. Do Centro Cultural de Belém ao Teatro da Trindade, o que mudou e o que está igual em António Sampaio da Nóvoa?

Sampaio da Nóvoa 2

Portugueses em dificuldades

Sampaio da Nóvoa começou o seu discurso em 2012 dirigindo as “minhas primeiras palavras, por inteiro, para os portugueses que vivem situações de dificuldade e de pobreza, de desemprego, que vivem hoje pior do que viviam ontem” e este ano, não se esqueceu novamente desses mesmos portugueses, afirmando assim que “vivemos anos duros, duríssimos, de uma austeridade que tornou o país mais frágil, que trouxe a pobreza e a miséria de volta a muitas famílias portuguesas; de uma austeridade que criou mais desigualdades, que forçou a emigração, que aumentou a dívida. Que política é esta? Sem uma única ideia de futuro para Portugal. Que país é este? Que parece sem vontade, sem pensamento, sem rumo“.

Estado social

O estado social e a manutenção desse estado social é uma das preocupações com mais “tempo de antena” nos discursos de Sampaio da Nóvoa. Em 2012, Sampaio da Nóvoa disse que “a regra de ouro de qualquer contrato social é a defesa dos mais desprotegidos“, dizendo ontem que “olhos nos olhos, não me resignarei perante a destruição do estado social, nem perante situações insuportáveis de pobreza, de desemprego e de exclusão, nem perante a precarização do trabalho, nem perante quaisquer outras circunstâncias que ponham em causa a dignidade humana“.

As desigualdades sociais que se têm verificado ao longo dos anos são também um tema que marcou presença em 2012, quando afirmou que “começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades“, mantendo o registo este ano embora diluído nas questões sociais que apresentou ao longo do seu discurso acerca de desigualdades.

Ensino e cultura

A sua ligação ao mundo académico leva assim a que Sampaio da Nóvoa dedique uma grande parte das suas intervenções a esta temática. Em 2012 o tempo dedicado ao academismo e à importância do conhecimento foi maior, abrindo em 2015 o leque de abrangência do seu discurso.

Ainda assim em 2012, Sampaio da Nóvoa disse que “o futuro está no reforço da sociedade e na valorização do conhecimento, está numa sociedade que se organiza com base no conhecimento“, afirmando este ano que “é por isso que não podemos voltar atrás no caminho do conhecimento, da educação e da cultura“, mantendo essa aposta pessoal.

O agora candidato a Belém afirmou ontem no Teatro da Trindade que se for eleito “esta será uma das minhas grandes causas: promover uma estratégia nacional de valorização do conhecimento e dos jovens, para conseguir que levem a sua vitalidade à economia e à sociedade, uma economia inovadora, de alta intensidade tecnológica, com fortíssimas preocupações sociais e ambientais“, indo assim em linha de conta quando em 2012 disse que queria um “país que se transforma a partir do conhecimento“.

Mancha gráfica do discurso de Sampaio da Nóvoa em 2012

Mancha gráfica do discurso de Sampaio da Nóvoa em 2012

Europa e mundo

Em 2012, Sampaio da Nóvoa dava já como garantido que “a Europa não é uma opção, é a nossa condição“, e este ano reforça que “depois do ciclo dos últimos quarenta anos, precisamos agora de reinventar uma visão estratégica para Portugal, que não se feche na Europa, e que se abra ao mundo e, em particular, ao mundo da língua portuguesa“, indicando como uma das suas estratégias “uma atenção muito especial às forças armadas, e à sua dignificação, não abdicando da palavra que o Presidente da República possui no que diz respeito à sua mobilização para missões no estrangeiro“.

Problemas da sociedade

Um pouco na linha das questões sociais, da cultura e do conhecimento, Sampaio da Nóvoa referiu também outras questões mais ligadas ao mundo empresarial e da procura do emprego. Em 2012, o candidato a Belém disse que “Portugal tem um problema de organização dentro de si: num sistema político cada vez mais bloqueado; numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício e numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial“, mas agora, três anos depois afirma que vem “para juntar os portugueses em torno de um projecto de mudança, para restaurar a confiança na nossa democracia e no nosso futuro. Com esperança. Com determinação. Com a coragem que os portugueses sempre revelaram nos momentos mais difíceis da sua história“.

Liberdade de iniciativa

Onde mais se destaca a procura da liberdade em Sampaio da Nóvoa é na liberdade de iniciativas, em especial públicas, numa lógica de desburocratização do estado. Assim em 2012, Sampaio da Nóvoa disse que “as universidades vivem de liberdade, precisam de ser livres para estarem à altura do que a sociedade lhes pede” e este ano diz que quer “incentivar e apoiar muitas acções, de grande generosidade, que se têm desenvolvido em sectores muito diversos da sociedade, e que são prova da responsabilidade e da dedicação das pessoas, através da sua liberdade e da sua capacidade de iniciativa“.

Mancha gráfica do discurso de Sampaio da Nóvoa em 2015 (Carregar para aumentar)

Mancha gráfica do discurso de Sampaio da Nóvoa em 2015 (Carregar para aumentar)

“Emergir da noite e do silêncio”

No discurso que proferiu a 10 de Junho de 2012 e no discurso que proferiu a 29 de Abril de 2015, António Sampaio da Nóvoa repetiu uma frase. Sabe qual é?

Em 2012, o à época reitor da Universidade de Lisboa disse que “Lisboa é dos poetas. Em Abril, a poesia esteve na rua e fez-nos emergir da noite e do silêncio” e em 2015, Sampaio da Nóvoa disse que este seria “o primeiro dia do resto das nossas vidas. Chegou a hora de emergir da noite e do silêncio”.

Exclusivo 2015

No discurso de ontem, Sampaio da Nóvoa não se pôde focar tanto no academismo como tem feito ao longo das suas intervenções públicas nos últimos anos. O candidato a Belém disse que “o Presidente não governa, nem legisla. Tem um poder moderador e regulador. Não deve, por isso, apresentar-se aos portugueses com um programa de governo“, admitindo no entanto que “tem uma enorme responsabilidade, que recebe através da eleição por sufrágio universal e directo e por isso, a obrigação de expor, com clareza, as suas ideias para Portugal, dizer o que pensa sobre as grandes questões, agitar ideias, agir com um pensamento de futuro“.

Sampaio da Nóvoa começou o seu discurso no Teatro da Trindade ao dizer que “sozinhos, nada somos. Juntos, podemos fazer a diferença” e terminou afirmando que “temos de ser maiores do que os nossos problemas. Porque só os vencidos tombam no chão do medo“.

Sampaio da NóvoaAnálise do discurso

Numa análise de ambos os discursos, em 2012, Sampaio da Nóvoa falou mais vezes do futuro em 2015 do que em 2012, e se em 2012 falou mais vezes da Europa, ontem falou mais do país e do mundo em geral. De referir ainda que em 2012, Sampaio da Nóvoa tinha referido Portugal por doze vezes e este ano falou de Portugal e dos portugueses cerca de 26 vezes.

Citações

Sampaio da Nóvoa é também conhecido por citar e referir inúmeros autores nas suas intervenções, mas se em 2012 citou sete autores, na verdade no discurso de 2015, embora possa ter utilizado uma expressão ou outra acabou por nunca referir outros autores.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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