“A maior falha do Parlamento Europeu é o facto de não ser um verdadeiro parlamento”

António Marinho e Pinto surpreendeu o mundo politico português ao conquistar 8% dos votos para o Movimento Partido da Terra nas últimas eleições para o Parlamento Europeu. Semanas depois de chegar ao Parlamento anunciou a fundação de um novo partido, o Partido Democrático Republicano e a sua candidatura às legislativas deste ano.

Numa entrevista ao Panorama, o polémico Marinho e Pinto fala sem problemas do modo como as sondagens influenciam as pessoas, da situação da Grécia, dos desperdicios no Parlamento Europeu, mas também do futuro.

Das eleições legislativas, das propostas do PS e das clientelas dos partidos “tradicionais”. Numa entrevista da Europa ate às presidenciais, Marinho e Pinto vai deixando propostas e criticas, incluindo à comunicação social. Esta é a primeira de duas partes da entrevista ao actual euro-deputado.

Marinho e Pinto

PANORAMA (P): Começamos por um tema recente: as eleições em Inglaterra. Que leitura faz dos resultados e da maioria absoluta alcançada por Cameron?

Marinho e Pinto (MP): Acho que os resultados só são surpreendentes para quem se ilude com o eco da sua própria retórica. A esquerda britânica – se é que existe – não é uma real alternativa à direita. E não o é sobretudo depois da experiência Tony Blair, que se mostrou mais serventuário aos Estados Unidos do que a própria direita tradicional britânica. Por outro lado, a vitória do Cameron é também uma vitória da tolerância; é uma vitória contra e xenofobia, que partidos à sua direita defendiam. O eleitorado britânico, entre conservadores sinceros e autênticos e uma esquerda que na práctica faz o mesmo que a direita, embora mude a retórica e as pessoas, prefere a autenticidade à imitação. Portanto, a mim não me surpreenderam tanto os resultados mas sim o falhanço das sondagens. Um falhanço porque as próprias sondagens se transformaram em instrumentos de pressão sobre o eleitorado, não para descobrir as intenções de voto do eleitorado.

P: Acha que isso também acontece em Portugal?

MP: Em Portugal e em toda a Europa. As sondagens foram transformadas num instrumento de manipulação da opinião pública. E isso foi feito por poderosos grupos políticos e económicos que pagam essas manipulações. Em Portugal vimos o que se passou comigo: ganhei duas vezes as eleições para a Ordem dos Advogados, uma das vezes até com maioria absoluta, e as sondagens davam-me sempre a perder. E o mesmo aconteceu o ano passado quando me candidatei ao Parlamento Europeu: a maioria das sondagens davam-me cerca de 1%, nem chegava aos 2%, e acabei por conseguir quase 8%.

P: Na altura ficou surpreendido com o resultado?

MP: A mim não me surpreendeu. Só surpreendeu àqueles que acreditam nas sondagens. E hoje continua a ser assim.

Marinho e Pinto

P: Acha portanto que as sondagens não são fiáveis?

MP: Não. Não são nada fiáveis. Para mim as sondagens não valem nada. Eu faço o que tenho a fazer, independentemente das sondagens. Hoje em dia, as sondagens tentam manipular a consciência das pessoas. Muitas vezes servem para justificar hierarquias em listas de candidatos e justificar a atribuição de programas televisivos a este ou àquele. Está tudo subvertido. Hoje não há ética na informação nem na comunicação. São um instrumento controlado por quem tem poder. Ou por quem tem dinheiro! Porque o poder traz dinheiro e o dinheiro traz poder. Portanto os resultados na Grã-Bretanha não me surpreendem. Surpreende sim a quantidade de votos nos nacionalistas escoceses. Isto significa que a Escócia se vai separar finalmente do Reino Unido, como já o fez a Irlanda. É apenas uma questão de tempo. Aquilo que é conquistado pela força, mais cedo ou mais tarde, acaba por se libertar.

P: Concentrando-nos um pouco mais na sua actividade no Parlamento Europeu, que balanço faz do seu mandato até agora?

MP: Eu sempre disse que a maior falha do Parlamento Europeu é o facto de não ser um verdadeiro parlamento. Um parlamento onde os deputados não têm iniciativa legislativa, onde não podem propor leis nem projectos-lei não é um verdadeiro parlamento. É uma instância homologatória ou de recusa das propostas de lei que vêm de outros órgãos. Mas há coisas que se podem fazer. Eu sou um europeísta. Defendo mais Europa em Portugal e mais Portugal na Europa. Mas isto só é possível se houver profundas reformas nas suas instituições e no seu modus operandi.

P: Que tipo de reformas?

MP: No sentido da democratização. A Europa não tem de ter medo da vontade popular. A Europa não tem de ter medo dos seus povos, das suas culturas nem das suas identidades. Não pode haver nichos de prosperidade, como há, e nichos de crescente pobreza, como há. A Europa não existe para aumentar as desigualdades ma sim para as reduzir. Eu, enquanto deputado europeu, pertenço a quatro comissões, sou vice-presidente da delegação para o Brasil. Trabalho muito, embora seja pouco visível o que por lá se faz. Por um lado, a imprensa não liga, por outro lado o trabalho em si não é muito útil, se querem que vos diga. Há trabalho que pode ser útil, mas não enquanto trabalho de parlamento. Só para terem uma ideia: existem 751 deputados, falam-se 24 línguas, há mais de 700 tradutores e cerca de 5 mil funcionários e, apesar de isto tudo, há pouca capacidade de legislar. Há que mudar isto e transformar o Parlamento Europeu num órgão verdadeiramente democrático. E muito mais coisas! Porque é que o Parlamento Europeu vai reunir uma semana por mês para Estrasburgo? Custa cerca de 200 milhões de euros por ano! Há um desprezo pelos contribuintes europeus. É gastar “à fartazana”!

Marinho e Pinto

P: Se se mostra tão crítico em relação ao Parlamento Europeu, porquê a candidatura?

MP: Porque a candidatura é política e a sua pergunta é moralista. E eu ando na política e não ando a pregar moral. Isso é puro moralismo e eu não discuto as morais de cada um. Eu nunca me tinha candidatado e candidatei-me porque fiquei livre depois de sair da Ordem dos Advogados e foram as primeiras eleições desde que deixei de ser bastonário e decidi candidatar-me. Depois de lá estar vi o que aquilo era.

P: Ficou desiludido?

MP: De certa forma fiquei. Sobretudo por não haver iniciativa legislativa e com as renumerações dos deputados. São uma vergonha quando comparadas com os índices de pobreza do meu país, que tem um salário mínimo de 500€. Aquilo que um euro-deputado ganha é escandaloso!

P: Como é que olha para a situação da Grécia? Vai haver acordo?

MP: Eu não faço profecias. Eu não sei. Depende de muitas coisas e penso que o interesse do povo grego não será um factor determinante. Acho que há interesses que se sobrepõem aos genuínos interesses do povo grego. Eu tive alguma esperança no Syriza. Pensei que fosse capaz de dinamizar e capitalizar as simpatias que existiam em relação à Grécia. Pensei que fosse capaz de congregar um movimento de alternativa dentro da Europa face a estas políticas. E tinha condições para isso. Mas em pouco tempo o Syriza e o seu radicalismo panfletário deram cabo desse capital de simpatia que existia para com a Grécia. E fê-lo com arrogância, com uma incapacidade de compreender o funcionamento da própria Europa e a incapacidade de gerar as alianças que a sua situação exigia. Quando se promete acabar com a austeridade sem ter dinheiro para “mandar cantar um cego” não se consegue acabar com austeridade nenhuma. Aumentar o salário mínimo em cerca de 50% e no dia seguinte ir pedir dinheiro emprestado não é a atitude de quem olha para a política com seriedade. O que se está a passar na Grécia é uma humilhação para o povo grego e uma lição para o Syriza e para os “Syrizazinhos” que andam aí espalhados pela Europa, até por Portugal.

P: Está a referir-se a que partidos?

MP: Estou a referir-me aos “Syrizazinhos”. E são muitos. Uns mais assumidos e outros menos assumidos. Só se pode ser independente depois de pagarmos as nossas despesas. Eu aprendi isso ao vinte anos.

Com Miguel Dias

Esta é a primeira parte da entrevista de Marinho e Pinto ao Panorama. A segunda parte será publicada na Quarta-Feira, 13 de Maio.

Publicado por: José Pedro Mozos

23 anos, natural de Lisboa. Aos dezasseis anos percebeu que a sua vocação era o jornalismo. Licenciado em jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós graduado em Jornalismo Multiplataforma pela FCSH - Universidade Nova de Lisboa. Entre março de 2016 e junho de 2017 passou pela SIC Notícias. Faz parte da editoria de política da Revista VISÃO desde julho de 2017. Acredita no jornalismo como sendo um dos pilares de qualquer democracia. Atualmente, faz parte do Conselho Editorial do Panorama.

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