“Este programa do PS vem responder mais a um problema do PS do que do país”

Na segunda parte da entrevista exclusiva ao Panorama, António Marinho e Pinto, euro-deputado e fundador do Partido Democrático Republicano aborda o futuro. As eleições legislativas já ocupam muito do tempo e do pensamento do ex-bastonário.

Ao Panorama, Marinho e Pinto fala da “Agenda para a Década” do Partido Socialista, deixando criticas às propostas de António Costa, mas também ao Governo PSD e CDS. O candidato do PDR revela ainda algumas linhas mestras do programa do partido e da necessidade de criar uma “quarta república”.

Marinho e Pinto

P: Isso é uma critica à “Agenda para a Década” do PS, recordando uma critica recente que fez que estas medidas visavam “gastar primeiro e arranjar para pagar depois”?

MP: Exactamente, este programa do PS vem responder mais a um problema do PS do que a um problema do país. O PS estava com um problema na sociedade, diziam que não tinham propostas, então arranjaram as propostas. Portanto resolveram o problema deles na sociedade. Agora, que propostas são estas? Baixar a TSU dos trabalhadores e empresas? E a sustentabilidade da Segurança Social? Isto é gerar o pânico. Mesmo que as medidas estejam tecnicamente correctas, que não estão, elas eram possíveis em 2011 como alternativa ao PEC IV do Eng. Sócrates? Eram possíveis? Se não eram em 2011, são hoje? Porquê? São uma alternativa a esta politica ou uma consequência desta politica austeritária deste Governo. Neste aspecto é lamentável ter que o dizer mas o PSD e o PS são o Dupont e Dupont da banda desenhada. São as duas faces de uma mesma moeda, só mudam as pessoas, porque ambos estão vinculados às mesmas clientelas e aos mesmos compromissos dentro da Europa, o capitalismo puro e duro com algumas nuances, uns tostões aqui, outros ali, e isto é muito perigoso, é o que acontece no Reino Unido entre uma politica conservadora feita por conservadores e e uma politica conservadora feita por progressistas e o eleitorado prefere os conservadores. Mas há mais exemplos, não é só Blair, é também Hollande. A mentira como arma da politica. Não se deve mentir aos eleitores. O que António Costa está hoje a fazer devia saber que é impossível e está não só a aliciar mas a enganar o eleitor, como fez o governo actual e os restantes anteriores.

P: Antes de nos focarmos no futuro e portanto nas eleições legislativas, mantém a decisão de abandonar o Parlamento Europeu para preparar as eleições legislativas? Já tem definida a data para a saída?

MP: Sem dúvida, deixarei de ganhar 20 e tal mil euros para vir para o parlamento português, porque sei que cá sou mais útil ao povo português. Lá serei mais util a mim e à minha conta, aqui sou mais útil ao povo e aos meus ideais. Mas sim, deixarei o Parlamento Europeu quando for eleito para a Assembleia da República. Se não for eleito não saio é óbvio.

P: Quanto é que o PDR começa a apresentar novidades, nomeadamente o programa de governo? Quais serão as principais bandeiras de um programa do PDR?

MP: No final de Julho. Já está em fase adiantada de preparação. Quanto às medidas, depois iremos ver, mas definimos algumas que intitulados como rupturas criadoras, mas algumas só são possíveis com maioria absoluta, de dois terços, como por exemplo a Constituição. Algumas medidas só serão viáveis com uma alteração da Constituição, mas apontaremos isso desde já. Estamos agora no inicio de um combate politico, mas queremos resolver problemas de décadas, e não os vamos resolver de um dia para o outro. Vamos iniciar um processo que aponta para isso, dependendo dos resultados, da responsabilidade que o povo nos der e não renegaremos nunca esse programa.

Marinho e Pinto

P: A ideia é apresentar listas em todos os círculos eleitorais?

MP: A ideia é apresentar listas em todos os círculos eleitorais do país.

P: Acredita então que o PDR é um partido de alternativa e não um partido de protesto?

MP: O PDR é a única alternativa que há, não a este governo, mas a este sistema. Não somos alternativas ao PSD e ao PS, mas a este sistema partidocrático em que os partidos excluem os cidadãos da participação politica, em que chamam a si todo o poder. Dominam tudo, incluindo tribunais, para onde nomeiam os seus homens de confiança e portanto o sistema esgotou, chegou ao fim. O que nós dizemos no PDR é que erguemos a bandeira da alternativa ao sistema, um novo 25 de Abril, sem armas, sem G3, sem chaimites, mas que faça a refundação da república, uma quarta república com novos pressupostos políticos mas assente nos ideias da democracia, a liberdade, a justiça, a solidariedade, o pluralismo e esta revolução não é de veludo porque vai doer a muita gente, mas é sem violência, pelo voto, pela consciência das pessoas, se o povo quiser há uma alternativa de seriedade, transparência, verdade e honestidade. Se quiser continuar com os que estão há 40 anos nisto o povo é soberano e eu vou embora para onde secalhar já devia ter ido, que é escrever as minhas coisas, ouvir as minhas músicas, para a reforma. Se quiser, estou pronto para esse combate, para esta guerra, que terá várias batalhas, mas que é uma guerra longa, não dos 100 anos, mas de muitos anos, para recuperar a dignidade do país, do povo, das instituições democráticas. Andamos nisto há 40 anos, PS, PSD e de vez em quando vai lá o CDS, mas andamos nesta mentira constante, de que o PS é alternativa ao PSD e de que o PSD é alternativa ao PS. Mudam só as pessoas e as clientelas, porque continuam a assaltar o estado, a fazer negócios à custa do património público, mas o resto continua, portanto é preciso uma alternativa. É preciso uma alternativa que coloca a politica ao serviço do país, da população, é preciso recuperar a nobreza da politica e não o seu abandalhamento, não como instrumento para obter vantagens pessoais. Pessoas que entram com uma mão à frente e outra atrás e saem de lá ricos, pessoas que entram como bancários e saem como banqueiros, entram como operários, saem como empresários. Saem da politica à custa dos negócios públicos, o estado está cada vez mais pobre, o pais está cada vez mais pobre e esses estão cada vez mais ricos. É preciso ter a coragem de acabar com isso, de levar a honestidade à politica, de acabar com a promiscuidade entre os negócios económicos e a politica, isto parece um país de mentecaptos.

Marinho e Pinto

P: Acredita então num bom resultado do PDR nas eleições legislativas?

MP: Não acredito nem deixo de acreditar, vamos apresentar as nossas propostas e submeter as propostas com humildade ao veredicto do povo. O povo é soberano, se confiar em nós confia senão não votará. Vamos apresentar-nos num combate desigual, porque a imprensa trata-nos de forma desigual, aliás nem sequer nos trata porque há um manto tenebroso de silêncio sobre as propostas e a actividade do PDR que viola os princípios do pluralismo numa comunidade democrática. A comunicação social devia apresentar as ideias do PDR porque representamos uma parte significativa da sociedade portuguesa, que elegeu dois deputados ao Parlamento Europeu [n.d.r. quem elegeu foi o Movimento Partido da Terra (MPT) com Marinho e Pinto como cabeça-de-lista. O segundo eleito pertence ainda ao MPT]. Porque é que as rádios, os jornais e a televisão silenciam a nossa actividade enquanto andam a massacrar as pessoas com as piruetas e pirotecnia mediática do PS, PSD e CDS, com pura fantasia e palhaçada mediática só para dar a ilusão de que são as únicas coisas neste mundo. Há mais mundo para além da comunicação social, porque a comunicação social está comprometida com o próprio sistema.

P: Se entender que a melhor forma de contribuir para o país é juntar-se a um governo do PSD ou do PS numa coligação pós-eleitoral, estaria aberto a integrar um governo com os partidos “tradicionais”?

MP: Nunca faremos coligações pré-eleitorais. Vamos a eleições com a nossa cara, com o nosso nome, com as nossas propostas. Pós-eleitoral, faremos alianças com o diabo se for útil ao povo. Tudo depende das politicas e dos futuros parceiros para executar as politicas. Há linhas vermelhas que respeitamos, não somos como Paulo Portas. Nunca aceitaríamos uma coligação em troca de lugares, discutimos politicas e não clientelas.

Marinho e Pinto

P: Acha que é possível?

MP: Connosco é. Se não for não há apoio, nem viabilidade para isso. Não podemos ser mais transparentes. São as politicas. Podem existir flexibilizações aqui e acolá mas não pelos lugares. A justiça, o ensino, os transportes, esse é o nosso programa claro. A responsabilidade social das empresas, o papel regulador do estado, que não pode ser deixado entregue a si próprio senão é a lei da selva. O estado tem que intervir, moderando os excessos e suprimindo as deficiências.

P: As presidenciais têm estado mais na agenda mediática do que o esperado. O PDR vai apresentar candidato presidencial?

MP: Para nós as presidenciais só se colocam depois das legislativas, até lá não existem para nós. Se depois das legislativas entendermos que devemos apresentar um candidato próprio apresentaremos, se entendermos apoiar um dos candidatos independentes, escolheremos entre a imensidão que vai haver.

P: Há algum que lhe agrade em especial?

MP: Neste momento esta questão é colocada na agenda politico-mediática para obnubilar a importância das legislativas. As legislativas é que são importantes não são as presidenciais, essas é que vão definir o futuro do pais, não é o Presidente da República.

P: Marinho e Pinto entrou na politica activa há relativamente pouco tempo. É para ficar? Até onde se vê a chegar? Primeiro Ministro, Ministro?

MP: Não estou disposto a ir a sitio nenhum. Estarei disposto a assumir as responsabilidades que o povo português democraticamente me conferir. Só isso. Estarei disponível não por muito tempo porque como digo somos como os iogurtes, temos um prazo e o meu está a aproximar-se se é que já não estou a ultrapassá-lo. O país vive uma situação em que todos devemos dar um contributo para mudar este sentido de degradação, o abismo para onde nos conduzem os partidos tradicionais.

Com José Pedro Mozos

Esta é a segunda parte da entrevista de Marinho e Pinto ao Panorama. A primeira parte está disponível AQUI.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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