Mariana Mortágua: “O problema é que o PS não é de esquerda”

Panorama (P): O que é que lhe passa pela cabeça quando ouve Ricardo Salgado afirmar que ninguém tirou “um tostão de proveito próprio” na crise do BES?

Mariana Mortágua (MM): Nada. Há uma parte nessa resposta que é verdade e outra que é mentira. Aquela família enriqueceu à custa do BES, portanto é claro que houve situações de proveito próprio. Por outro lado, muitos negócios foram feitos não com o propósito de enriquecer e tirar proveito, mas de salvar o grupo.

P: Foi frustrante ter de ouvir os desvios às perguntas sobre o BES durante a Comissão de Inquérito?

MM: É normal, quer dizer, é expectável. Quem estava a ser interrogado podia ser criminalizado por alguma coisa durante a Comissão de Inquérito. Claro que se esperava que pudesse haver uma colaboração com a Assembleia da República.

P: Mas acredita na incompetência dos envolvidos?

MM: Acredito que houve pouca incompetência dos envolvidos no caso.

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P: O elogio de Passos Coelho a Dias Loureiro é ilustrativo da forma como as elites em Portugal funcionam?

MM: Claramente. Estamos a olhar para negócios com o amigo do amigo, as chamadas negociatas. É preciso evitar que haja aquilo a que chamamos super-gestores, como é o caso do Proença de Carvalho, que é um caso de um advogado todo-poderoso. Ainda para mais, neste caso, o que questiono é como é que semanas depois de um escândalo destes Passos Coelho tem este pudor de o dizer em público.

P: E como é que se inverte esta tendência?

MM: Tem de haver um plano de ruptura, medidas mais apertadas, tem de se combater a promiscuidade na banca, e isso não tem interessado, nem a este governo nem aos anteriores. Por isso, o que tem de ser mudado é quem nos governa.

P: Com números que não são animadores sobre a economia portuguesa e vários anos de austeridade, o PS de Costa continua a não se isolar nas sondagens para as eleições legislativas. Falta uma esquerda forte em Portugal?

MM: O PS não descola nas sondagens porque o PS não é de esquerda. É um partido que se insere no sistema de alternância, e o programa novo é uma cedência absoluta ao liberalismo económico. O que faz falta não é uma esquerda mais forte, o problema é que este PS não é de esquerda.

P: E a restante esquerda está preparada para governar? O Bloco quer governar?

MM: Claro que quer. Senão, porque é que andávamos aqui?

P: E quando é que apresenta um programa de governo?

MM: A 30 de Maio o Bloco de Esquerda vai apresentar um plano. Depois apresentará o programa eleitoral quando todos os partidos o fizerem, mas o Bloco apresenta as suas ideias de forma clara e as pessoas sabem as causas que defendemos e aquilo em que acreditamos.

Mariana Mortágua

P: Considera que veio dar novo fôlego ao Bloco? Em termos de ideias e imagem?

MM: Sou uma das caras desta renovação. No entanto, as pessoas andam a vaticinar o fim do Bloco de Esquerda desde que o partido começou, e nós sempre conseguimos reinventar-nos e renovar-nos. O Bloco continua a dar voz a jovens, a mulheres. É um orgulho integrar-me no partido que conta com uma eurodeputada e com uma mulher, a Catarina Martins, como sua líder.

P: Entrou na Assembleia da República em substituição de Ana Drago; foi comparada ao Francisco Louçã de início de carreira. Sente uma herança pesada?

MM: Não, a herança não me pesa. O Bloco tem uma boa herança. Teve e tem bons deputados. Apesar de haver uma renovação geracional e de estes grandes nomes se terem afastado sem ficarem agarrados às suas posições, eles não saíram do partido, continuam a ser militantes e a contribuir para o futuro do Bloco de Esquerda. Isto mostra que no partido a política é uma coisa que se desempenha numa altura porque faz sentido mas é um projecto maior: é mais do que um projecto pessoal. Portanto, quem já cá esteve e quem ainda cá está deixa-nos uma herança muito boa.

P: Ao longo do seu percurso político sentiu que por ser mulher e jovem tem de lutar mais para se fazer ouvir?

MM: Em primeiro lugar, eu não gosto de falar numa classe política ou de ver a política como uma carreira. Mas sim, é verdade que o facto de ser mulher e ser jovem chama algum paternalismo ou alguma condescendência. Mas disso sofro eu e sofre qualquer mulher jovem na maior parte das profissões que eu conheço. Portanto, nesse sentido não é assim tão diferente embora sinta isso.

P: Há uma página no Facebook, que se intitula “Mariana Mortágua a Primeira-Ministra”. Quanto tempo é que acha que esta popularidade vai durar?

MM: Não sei. Acho que isso são duas coisas separadas. Por um lado, eu faço o trabalho que posso e sei fazer. Por outro, está a popularidade, que é algo que sai fora do meu controlo. E portanto só posso responder pelo trabalho que faço, que será sempre o mais empenhado possível. O resto já não sou eu que controlo.

P: Há quem fale na sua preparação técnica, outros na assertividade e na comunicação. Há alguma característica que a distinga?

MM: Acho que ninguém consegue responder a essa pergunta. São várias. Umas melhores que outras.

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P: A pergunta vai mais no sentido de perceber porque é que as pessoas gostam tanto de si.

MM: Eu acho que as pessoas percebem o que eu digo. Ou seja, eu acho que a melhor forma de comunicar é dizer as coisas como nós próprios as entendemos e sentimos. E quando assim é, não há grande volta a dar: as pessoas compreendem-nos bastante bem. E acho que o poder de comunicação vem de quem diz aquilo que pensa sem grandes floreados.

P: Acha que também pode ter influenciado o facto de as pessoas terem visto em si um rosto de alguém que enfrentar grandes interesses cara-a-cara, sem tremer a voz?

MM: Não sei. A comissão de inquérito foi uma oportunidade importante desse ponto de vista. Mas aí não foi só para mim, foi para a população inteira. Acho que Portugal viu a comissão de inquérito ao BES porque viu pela primeira vez os grandes poderosos e intocáveis deste país a serem inquiridos. Estavam pela primeira vez a prestar contas ao país. E acho que isso foi importante do ponto de vista da consciência que temos das nossas elites e da forma como o nosso país é gerido.

P: O que responde a quem lhe chama tecnocrata?

MM: Há quem me chame tecnocrata?

P: Sim.

MM: Não sei, porque às vezes a técnica e a ciência são usadas pela política para justificar decisões. Mas eu, pelo contrário, sou contra a técnica dominar a política. A política está no topo de tudo. A técnica ajuda a política mas não a pode substituir. Uma das razões pelas quais eu sou contra os argumentos técnico é porque eles afastam as pessoas da política. Tecnocrata é quem mete técnicos da Troika em Portugal para tomar decisões políticas que cabem ao povo. Ter uma preparação técnica que nos permite discutir política está longe de ser tecnocracia. Eu não ponho a técnica acima da política, eu uso a técnica para a política.

P: Mas tem um historial académico de sucesso na área da economia e já falámos de que não gosta de carreirismo político. Então para onde se vai encaminhar quando a política deixar de ser uma opção?

MM: A minha profissão é ser economista. Vou encontrar um trabalho na área da economia sempre. Seja a dar aulas ou a fazer um doutoramento ou trabalhar em qualquer outro cargo que apareça, como qualquer pessoa de 28 anos licenciada em economia. Não há nenhuma diferença em relação a qualquer pessoa nesse campo.

Mariana Mortágua

P: Portanto o seu futuro pode não passar pela política?

MM: Pode passar ou pode não passar. Acho que tudo isso é muito relativo. A política não é uma carreira. A política é uma função que se desempenha num determinado momento porque faz sentido. E neste momento, para mim, faz muito sentido mas não é uma opção de carreira. Quando deixar de fazer sentido a minha profissão é ser economista. Mas quando exercer a minha função de economista é claro que não vou deixar de fazer política. São coisas que se combinam.

P: Com uma idade tão jovem, tem diversos livros publicados, artigos internacionais a elogiá-la, páginas a pedir que seja Primeira-Ministra… Qual é o seu próximo passo?

MM: Gostava de acabar o meu doutoramento, para o qual não tenho tido muito tempo e estou também a acabar um livro sobre privatizações.

P: E vai abordar o caso da privatização da TAP?

MM: É precisamente a propósito do caso da TAP.

Com Mariana Lima Cunha.

Publicado por: José Pedro Mozos

23 anos, natural de Lisboa. Aos dezasseis anos percebeu que a sua vocação era o jornalismo. Licenciado em jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós graduado em Jornalismo Multiplataforma pela FCSH – Universidade Nova de Lisboa. Entre março de 2016 e junho de 2017 passou pela SIC Notícias. Faz parte da editoria de política da Revista VISÃO desde julho de 2017. Acredita no jornalismo como sendo um dos pilares de qualquer democracia. Atualmente, faz parte do Conselho Editorial do Panorama.

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