Um – O Elogio da Loucura

Sociedade PessoasAs grandes referências na história das sociedades sempre se mostraram através de ações e testemunhos. Fizeram-no de diferentes formas mas com um caminho comum de valores de serviço público. Isto aconteceu tanto na política quanto no pensamento filosófico, tanto na análise sociológica quanto na cultura ou no associativismo, trazendo novas chaves de interpretação à(s) realidade(s) em que vivemos. Novas lentes de leitura, se quisermos. Mas hoje isso parece rarear. Quem nos ajuda nesta complexidade, trazendo novas chaves de leitura, novas análises cristalinamente adequadas à realidade?

Numa sociedade civil que tem encontrado novas formas de se organizar, multiplicando as suas arenas de atuação, intervindo de forma setorial, especializada, não temos tido a capacidade de descodificar as novas formas de organização, de viver e as novas relações sociológicas, novos negócios, novas ameaças geopolíticas, novas solidariedades, novas associações, consórcios e partilhas. Isto mostra que estamos a precisar de visões abrangentes, completas, Políticas.

Assembleia da RepublicaE não só nos tem faltado capacidade de adaptação como fazemos pior. Diabolizar é sempre mau, mas diabolizar pessoas no espaço público é ainda pior. À política portuguesa não tem faltado, infelizmente, uma tendência para o ataque moral e ético sem reservas, sem limites, sem respeito pelos oponentes. A demagogia política é a pior política que há. Cícero dizia que “não é possível corromper um homem sério com dinheiro, mas é possível corrompê-lo com palavras” e é esse o perigo da demagogia aliada à retórica inflamada que demasiadas vezes vemos na arena política, afastando, empurrando para longe os muito poucos portugueses que estão ainda disponíveis para fazer política, enfraquecendo os indispensáveis equilíbrios e os partidos moderados de centro. E quem ganha com isto? Acredito que no longo prazo, a ninguém beneficiará de uma sociedade que desune. A curto prazo aparenta ganhar quem alimenta discursos de ódio, da arrogância moral, violência discursiva, e de fragmentação social. Quem procura dividir o mundo em dois, “nós” e “eles”. As franjas radicais dos partidos do centro e os extremos (que cada vez mais se confundem), que quotidianamente preferem uma linguagem emocional à racionalidade dos factos e que pretendem dizer que, à exceção deles próprios, todos os agentes políticos são destituídos de um quadro ético-moral aceitável, insultando e tentando lançar sobre os seus alvos uma malha urdida de defeitos e pecados. Parece que é criminoso discordar de alguns ungidos pela luz do conhecimento. Aliás, quanto mais irracional e desligado da realidade é o seu discurso, mais radical e inflamado é o tom. Numa sociedade sedenta de imediatismo, é cada vez mais difícil e exigente explicar racionalmente o porquê de escolhas ponderadas, o porquê da opção pelo consenso e pelo equilíbrio. Parece até loucura tentá-lo. É também por isto que precisamos de políticos de grandes propósitos, com estratégias realizáveis, que digam a verdade, com competência política, caráter e sobretudo paciência. Paciência para ouvir, e paciência para explicar. Que não desistam perante o insulto, a demagogia e a hipocrisia. E depois de encontrarmos tudo isto, precisamos que estas pessoas consigam ainda valorizar o diálogo com os portugueses, com a sociedade civil, fazendo com que esta não se divorcie do Poder. Porque a política tem de atrair os portugueses por aquilo que podemos realizar, por ser uma via para fazermos das nossas aspirações realidade. Isso tudo parece simultaneamente loucura e é ao mesmo tempo absolutamente fundamental. Precisamos de líderes políticos que entendam o estado de espírito dos portugueses. Que saibam como estamos, que sacrifícios estamos a fazer, com um discurso humanizado, que tenham uma visão para o país e fundamentalmente que percebam isto: o valor das pessoas não está na soma dos anos vividos, e que por isso mesmo os jovens podem ser o motor de transformação de um país.7

Luís Rebelo – Presidente do Gabinete de Estudos da JSD

Publicado por: Panorama

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