Ensino Superior: Sucesso e Acesso

Os resultados do 4º Barómetro Educação em Portugal comprovam empiricamente uma preocupante realidade no seio da comunidade estudantil nacional, os estudantes dos ciclos obrigatórios de ensino estão a afastar-se da formação superior.

Os dados apresentados no inquérito, extrapoláveis para o universo nacional, revelam uma diminuição de nove pontos percentuais face aos resultados verificados no ano transacto, situando-se em 54,5% a percentagem de estudantes de 3º ciclo que considera uma formação ao nível do Ensino Superior.

Na mesma tendência dos dados supracitados, informação disponibilizada pela Direção Geral de Estatísticas de Educação e Ciência (DGEEC), publicada no passado mês de Abril e relativa aos estudantes finalistas do Ensino Secundário no ano lectivo 2012/13, indicavam que 67,9% dos mesmos considerava continuar os estudos, valor que sofreu uma quebra de 7,7 pontos percentuais face aos dados relativos a 2008.

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Paralelamente, os resultados do 4º Barómetro Educação em Portugal, indiciam que as motivações familiares para uma formação superior também se encontram em quebra, registando para esta questão, uma variação negativa em 8,8 pontos percentuais, face ao valor registado no ano transacto. Ainda sobre esta matéria, e segundo dados da DGEEC, de entre as várias considerações para o afastamento dos jovens do Ensino Superior destacam-se as dificuldades económicas (29,7%), com um crescimento de 7,7 pontos percentuais face 2008 e a vontade/necessidade de ganhar o próprio dinheiro (51,9%), com uma variação de dois pontos percentuais, para o mesmo período.

A acompanhar as motivações para o acesso, também a relação entre o tecido social e o sucesso constituem um fundamental debate. A literatura académica dedicada a esta matéria é bastante clara, o sucesso escolar é um fenómeno cuja explicação se pode dever a vários fatores, contudo como vários autores desde Bourdieu e Passeron (1970) vêm demonstrando, através da análise da origem familiar é possível evidenciar padrões classificatórios onde é muito claro que indicadores como a classe social de origem são fatores potencialmente explicativos do sucesso e do insucesso nas escolas. A democratização passa pois pelo esbatimento da relação de causalidade entre a origem social dos alunos, e os seus condicionalismos e possibilidades sociais, culturais e económicas, e os resultados escolares (Correia e Sebastião, 2007).

Esta matéria há muito que é uma preocupação dos estudantes e do movimento associativo. As frequentes intervenções relativas à necessidade de desenvolvimento de políticas de promoção do emprego jovem contribuíram para a criação de programas como o Impulso Jovem e Garantia Jovem, resoluções que a academia recebeu com bons olhos. No entanto, segundo dados da OCDE, a taxa de desemprego jovem, situada nos 35% em Abril de 2015, continua a ser um factor preocupante e contributivo para o afastamento das famílias do Ensino Superior, sendo fundamental afirmar o Ensino Superior como veículo para a mobilidade social ascendente e publicitar estudos que assinalem a importância da formação qualificada para a inserção no mercado laboral, estabelecendo condições para a afirmação do Ensino Superior como instituição democrática e transversal a todos os sectores sociais.

Cabe ainda às instituições e a todos os seus agentes um papel pedagógico de acompanhamento ativo dos estudantes, enquanto atores determinantes para a prevenção do abandono e do insucesso escolar, contribuindo para um modelo de Ensino Superior inclusivo e socialmente transversal.

 

Publicado por: André Santos Pereira

Licenciado em Sociologia pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, a frequentar o Mestrado em Sociologia na mesma instituição, co-autor do livro Sociedade em Rede em Portugal: Uma década de transição, investigador, Presidente da Federação Académica de Lisboa e membro do Conselho Geral do ISCTE-IUL

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