O entendimento que importa

Europa União EuropeiaA crise internacional que ainda se abate sobre a Europa tem tido múltiplos efeitos sobre os seus cidadãos e sobre os Estados, muitos dos quais serão apenas conhecidos ou identificados com o distanciamento histórico necessário. No entanto, é inegável que não só vivemos tempos que marcarão a história do resto do século, como temos assistido a mudanças profundas na forma como os cidadãos olham a sociedade e na forma como os partidos políticos se posicionam na batalha ideológica, animada como há muito não a víamos.

Assumindo o risco desta abstracção podemos dizer que todos fomos obrigados a tomar um posicionamento contrário ou favorável  à austeridade. Isso decorre da necessidade de cada uma das partes de conquistar o consenso social, difundindo a sua interpretação da realidade. Assim se permitiu que permeasse na opinião pública a ideia de que a austeridade redentora era a salvação de todos os males, castigo imposto aos mandriões que gastavam o dinheiro dos contribuintes alemães. Isto, apesar de,  não só não verem o seu dinheiro gasto pelos países periféricos, como ainda verem os seus bancos enriquecer com as necessidades de crédito alheias. Por outro lado, à esquerda do debate, a realidade ajudou a enformar a mensagem: a quebra de rendimento e a imposição do miserabilismo não resolvem os problemas dos países, não produzem valor nem relançam as economias e, acima de tudo, desrespeitam a principal prioridade de um Estado, ou seja, os seus cidadãos.

Posto isto, temos assistido à reconfiguração dos sistemas político-partidários em vários países europeus, muito ou pouco afectados pela crise, intervencionados ou não, dos quais Portugal será, possivelmente, um dos exemplos menos fulgurantes. À direita, as alterações de dinâmica centram-se sobretudo no reforço da extrema-direita e nos eurocépticos, ainda que não na formação de novos partidos. À esquerda, os movimentos de base popular e os partidos de Esquerda Radical têm assumido uma relevância maior, como poderemos observar na Grécia, Espanha, Irlanda e até mesmo em Portugal, ainda que sem o mesmo impacto.

Um dos exemplos destes reequilíbrios de aprovação popular, tem lugar em Espanha, como foi possível ver nas recentes eleições municipais, realizadas no dia 24 de Maio. As candidaturas cidadãs, muitas delas apoiadas pelo Podemos, provocaram um terramoto no bipartidarismo espanhol. Segundo os dados oficiais, o PP atingiu 26,7%, enquanto o PSOE se ficou pelos 25,1%. Juntos, conseguem pouco mais de metade dos votos expressos nas urnas, demonstrando a crença espanhola de que os programas populares, construídos colectivamente e destinados a resolver as necessidades fundamentais, como o direito à habitação, prevalecem sobre os programas tradicionais. Acima de tudo,  só a cidadania pode resolver os problemas da cidadania.

Ada ColauApesar destes resultados, o mais surpreendente destas eleições foi a capacidade de entendimento para a realização de coligações que permitissem materializar o domínio eleitoral da esquerda, do centro-esquerda à extrema-esquerda, em executivos locais. A 13 de Junho, confirmou-se aquilo que, não sendo particularmente expectável, resultou em amplos acordos do PSOE e das forças à sua esquerda, derrotando o PP em todas as câmaras possíveis, de onde se assinalam as vitórias de Manuela Carmena em Madrid e Ada Colau em Barcelona.

Este exemplo espanhol devia fazer-nos reflectir sobre a possibilidade de entendimentos deste tipo em Portugal. As esquerdas conhecem, obviamente, muitas divisões de rumo e até de objectivo, ainda que mais do primeiro do que do segundo. Mas em Espanha, mesmo num cenário em que as forças radicais assumem maior protagonismo e em que as legislativas se aproximam, todos foram capazes de deixar o eleitoralismo de lado para compreender que a derrota da direita era o objectivo principal e era condição fundamental para a mudança das condições de vida da população.

Em Portugal, o surgimento de movimentos-partido, como o Livre/Tempo de Avançar, dão um sinal positivo. Mas a dificuldade em unir pela convergência, sem separar pela divergência, radicam no conflito histórico entre o PS e PCP no pós-25 de Abril e na crescente sectarização do BE. Ao fim de quarenta e um anos de democracia a esquerda precisa, para que (parte dela) não se torne inútil, de construir posições comuns em torno de matérias básicas: a paz, o pão, habitação, saúde e educação, como cantava Sérgio Godinho. E para isso precisa de diálogo, sem dogmas, sem resistências e, fundamentalmente, sem medos.

Nota: Os dados do INE para 2014 revelam que, apesar do milagre económico prometido pelo Governo e dos propagandísticos sinais de recuperação que proclama, o último ano foi aquele em que mais portugueses emigraram desde que há registo. São 134 624 só nesse período.

Publicado por: Eduardo Barroco de Melo

Mestre e Licenciado em Bioquimica. Ex-presidente da Associação Académica de Coimbra. Coordenador Nacional dos Estudantes Socialistas

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