Essa coisa da igualdade

Igualdade de GéneroHá dez anos que ouço a pergunta para 1 milhão de euros: por que te mexes tu por essa coisa da igualdades?

Nos meus primeiros anos de intervenção, a minha resposta era mais simples: debitava estatísticas e esperava que as pessoas empatizassem, por si mesmas, com “esta coisa da igualdade”. Rapidamente percebi que “a ciência”, “as estatísticas”, “os factos” poderiam ser relevantes na sensibilização para muitas outras causas mas que aqui a eficiência desta resposta deixava muito a desejar. Efetivamente, as estatísticas são frequentemente apelidadas de “distorção da realidade”, de “uma invenção da esquerda” (se de alguém de direita), de “uma distração do verdadeiro problema, que são os trabalhadores” (se de alguém de esquerda) e sei lá eu que mais.

Mas por que há tanta resistência, quer por parte de homens quer por parte de mulheres, a falar sobre esta temática?

Ao longo dos anos, a introspeção e a observação participante têm-me fornecido pistas para uma resposta que, não sendo simples, é compreensível: falar de desigualdade de género – denunciá-la, pô-la a cru nas suas várias manifestações e consequências no quotidiano – é pôr em causa o mundo como o conhecemos. A história que aprendemos na escola, a nossa socialização, as nossas relações de intimidade, a vivência da nossa sexualidade, a nossa perspetiva sobre as relações políticas e sociais… tudo é visto de uma outra maneira quando olhamos para o mundo através de uns “óculos de género”. As estruturas de poder são desafiadas e o nosso papel nessas estruturas é questionado. Ao contrário de muitas outras áreas de intervenção que “apenas” requerem uma mudança do nosso comportamento face a um outro sujeito ou objeto, esta área de intervenção requer, em primeiro lugar, uma profunda reflexão sobre a nossa identidade e, com ela, a nossa ação no mundo… Encontre, nesta crónica, uma companhia para essa jornada.

Publicado por: Silvia Vermelho

Politóloga, trabalhando como profissional independente (formadora, consultora e técnica de projectos) e empresária. Realiza trabalho associativo e activista voluntário nas áreas da Igualdade de Género, Desenvolvimento Local e participação política.

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