“O poder do Governo é absoluto e só não o é totalmente porque querem ser reeleitos”

Henrique NetoO Panorama entrevistou Henrique Neto, militante do Partido Socialista, um dos maiores críticos de José Sócrates e agora candidato à Presidência da República, numa candidatura que pretende “refazer a republica”.

Nesta entrevista, publicada em duas partes, Henrique Neto mostra-se mais expansivo nas questões ligadas a politicas de fundo e mais sintéctico nas respostas às “tricas politicas”. Ainda assim deixa um conjunto de criticas a Sampaio da Nóvoa, a Cavaco Silva e sobretudo aos últimos governos portugueses,  criticando também o sistema politico português protagonizado por uma “juventude impreparada”, reforma que pretende operar e transformar no grande objectivo do seu mandato pondo assim fim aquilo que apelidou de “síndrome do castelo”.

Panorama (P): Entra nesta corrida com 79 anos, sente-se com força para levar até ao fim este projecto e se tudo correr bem para enfrentar cinco anos de mandato?

Henrique Neto (HN): Ate à data sinto, daqui para a frente espero sentir.

P: Daqui a 5 anos se ganhar, pondera recandidatar-se?

HN: Isso é futurologia e futurologia não é o meu forte.

P: Como está a correr a candidatura do ponto de vista administrativo, logístico e sobretudo financeiro para levar a corrida até ao fim? E as assinaturas?

HN: Do ponto de vista das assinaturas está a decorrer bem, normalmente, nos diferentes distritos do país. Quanto à vertente financeira é mais difícil. Não está a correr tão bem quanto desejaríamos. A explicação que é dada, não só com a candidatura mas com diversas associações, são dificuldades, na organização de jantares, entre outros. Quando há algo que envolve custos as pessoas não aparecem.

P: Ser um candidato independente é uma condição obrigatória ou está disponível para receber o apoio de algum partido?

HN: É a condição que a politica portuguesa provoca. É uma adaptação à realidade portuguesa. Sabemos que há um descrédito nos partidos, uma abstenção cada vez maior, que há sectores que se estão a organizar à margem dos partidos, grupos de cidadãos para defender projectos concretos e objectivos e também nas autárquicas. Depois há também um minguar dos partidos políticos e isto é um problema grave da democracia e assim sendo justifica-se que uma candidatura presidencial esteja independente dos partidos para poder desde logo expressar as suas opiniões e defender os seus valores, bem como fazer as propostas estratégicas, económicas e sociais sem o condicionalismo de ter de se adaptar aos interesses dos partidos políticos.

P: Como é que olha para a sua vida profissional e comenta o facto de estar ligado à esquerda, num período atípico como foi a pós-revolução e ainda assim ter estado ligado à grande indústria, muitas vezes vista como de direita, numa posição de chefia?

HN: A minha vida politica e profissional começou muito antes da revolução. Fui candidato em 1969 pela Oposição Democrática e não sendo empresário já estava envolvido com empresas. Portanto quando chegou a revolução, tinha já uma preparação razoável para compreender os fenómenos naturais num período conturbado como o pós-25 de Abril. Inicialmente não tive praticamente grande actividade politica para além de 1974 e 1975, onde estava no MDPCDE. No final de 1975 abandonei essa actividade e dediquei-me à empresa até regressar depois como militante de base do Partido Socialista. Mas sempre tive ideias claras antes do 25 de Abril e depois do 25 de Abril. Sempre mantive essa linha de coerência, quer como empresário. Quanto à sua definição, a Maria Filomena Mónica até escreveu um livro na época em que me chamava o “empresário vermelho”, com certeza que não era por ser de direita.

Henrique NetoP: Como é que olha para a dicotomia políticos que viveram a revolução e a nova geração que já nasceu no pós-25 de Abril? Portugal precisa de mais jovens ou deve continuar a manter a geração do 25 de Abril?

HN: A sabedoria reside no equilíbrio entre a experiência da idade e a energia da juventude, e é nesse equilíbrio que os países podem e devem ser governados. Alguns países são muito bem governados dessa forma, o Japão, a China, a Alemanha. Em Portugal não há muito esse equilíbrio. Nos últimos 20 anos previligiou-se muito a juventude à custa da experiência e isso tem custos e não aconteceu por acaso. Os partidos políticos foram capturados por grupos profissionais da politica, alguns vindos das juventudes partidárias, e esses grupos eram por definição jovens. E o poder não gosta de repartir, gosta de concentrar e a juventude tem consciência das sua impreparação e tem assim dificuldades em rodear-se da experiência. É humano e natural, mas não é bom. Uma pessoa que sabe pouco de politica internacional e vai para Ministro dos Negócios Estrangeiros não se vai rodear de gente que sabe mais para não fazer má figura. É assim nesta área e noutras. Portanto os partidos foram capturados por direcções relativamente jovens que começaram a excluir pessoas que tinham estado nos partidos anteriormente, com experiência como empresários e universitários e que não têm feito vida politica. De vez em quando surge um ou outro no Governo, mas sem o verdadeiro poder politico que reside na equipa que dirige o partido. Foi assim com Sócrates e assim com Passos Coelho. Claro que muita da desgraça que está a acontecer, resulta disto. Quando não se compreendem os fenómenos económicos, políticos e sociais acumulam-se erros sucessivos ou abdica-se de tomar posição, nomeadamente no seio da União Europeia.

P: Disse já em entrevistas recentes que considera que O PR tem os poderes suficientes, mas que o sistema politico deve sofrer uma reforma. Que ideias concretas tem para essa reforma do sistema politico?

HN: Desde logo por medidas que reforcem a participação dos cidadãos na vida politica, o que implica mais democracia. Para que isto aconteça é necessária uma reforma das leis eleitorais e à cabeça a reforma da Assembleia da Republica, que é o centro do afastamento dos cidadãos da politica. Os deputados são escolhidos pelas direcções partidárias, as tais relativamente jovens e inexperientes, que estão impreparados porque nunca tiveram actividade profissional, muitos com cursos de vão de escada, viajaram pouco, ou seja, independentemente da idade não acumularam conhecimento. Os deputados são escolhidos quase sempre por razões de fidelidade. Quando se adquire o poder, o primeiro objectivo é mantê-lo. O primeiro objectivo não é o bem do país nem o desenvolvimento económico, mas sim manter o poder e para isso a equipa que lidera um partido está sempre a pensar que vai ser atacada. É o que chamo o síndroma do castelo. Os partidos funcionam como castelos onde as direcções se entrincheiram e para meter deputados dentro do castelo eles têm que ser fieis, para o caso de o castelo ser atacado o defenderem e não para se voltarem contra o dono do castelo. Portanto qualquer prioridade de um líder partidário é encontrar fieis, e esses fieis quando são deputados não fiscalizam os governos, não criticam, ou então criticam-nas quando estão na oposição sem as discutirem. Porque quando se está na oposição também é bom dizer que se está a ser atacado pelos inimigos que estão fora do tal castelo. Por isso é que quando o Governo diz alguma coisa a oposição diz que está mal antes de ouvir, e os que estão no Governo dizem que tudo está bem antes de ouvirem a oposição. Os portugueses já perceberam esta realidade e portanto não confiam em ninguém dentro desse castelo. A Assembleia da Republica não tem poder limitador e portanto o poder do Governo é absoluto e só não o é totalmente porque querem ser reeleitos e têm algum cuidado com a comunicação social e com a opinião pública e isto afastou os cidadãos. É assim essencial que possam ser os cidadãos a escolher os deputados através do voto nominal e depois dar aos grupos de cidadãos as mesmas condições que os partidos políticos têm.

A entrevista a Henrique Neto será publicada no Panorama em duas partes. A segunda parte da entrevista está disponível AQUI.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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