“Outros tendo ambições politicas mantiveram-se calados e têm menos legitimidade”

PRIMEIRA PARTE

Henrique NetoNesta segunda parte da entrevista do Panorama ao candidato presidencial Henrique Neto, o ex-deputado socialista fala nas suas propostas para a área económica e politica e deixa criticas a Sampaio da Nóvoa, que diz ter apresentado uma “candidatura oportunista”.

Henrique Neto fala ainda da questão grega, que diz ser sobretudo uma questão da União Europeia, bem como dos apoios que tem recebido na sua caminhada até Belém.

P: Acha que este é que deve ser o grande objectivo do mandato do próximo Presidente da Republica?

HN: É o grande objectivo politico, aumentando a concorrência aos partidos. Os partidos defendem a concorrência na sociedade e nas empresas, mas não entre eles. Politicamente este é o grande objectivo. Na economia tem que haver grandes objectivos, especialmente no momento actual. Aqui temos que ter a capacidade de prever os acontecimentos futuros, antecipar as transformações da sociedade e com base nessas transformações desenhar uma estratégia, que eu fiz e que publiquei. Depois há que cumprir essa estratégia, convencendo os partidos durante a campanha para as legislativas de que precisamos de uma estratégia. O país não pode ser governado há 20 anos sem uma ideia, depois da entrada na União Europeia. O país tem vindo a navegar à vista. Os erros assim sucedem-se. Um exemplo, apostamos tudo no transporte rodoviário quando ninguém na Europa pensava investir neste meio. Já todos apostavam no ferroviário e nós sem estratégia de futuro a apostar no rodoviário. Depois há que ter medidas práticas que conduzam a estratégia ao desenvolvimento económico e consequentemente à criação de emprego. Há doze anos que o pais não cresce a agora estamos mais pobres e o país está mais fraco.

O nosso crescimento tem que ser feito no plano Europeu e Atlântico. E há medidas concretas no âmbito da logística, transformando o Porto de Sines num porto transhipment,  colocando Portugal como porta de entrada e de saída de diversos produtos. Sines tem a melhor localização da Europa para esse fim e que vai ser reforçada pelo crescimento do comércio no Atlântico, especialmente quando no futuro existir um acordo entre os Estados Unidos e a Europa. Se Portugal souber aproveitar isto é o país com mais condições para atrair investimento estrangeiro, que é uma lacuna grave nos últimos doze anos.

P: Disse recentemente que vai estar no terreno durante a campanha para as legislativas. De que forma é que pretende materializar essa presença, que debates tem já pensados, que outras acções estão já planeadas?

HN: Começamos por visitar os partidos, entregamos-lhes alguns documentos e a partir de agora, semanalmente vamos começar a publicar documentos com propostas concretas para cada uma das questões que temos vindo a destacar. Vamos sempre desafiando os partidos para se pronunciarem sobre as questões que formos lançando. Depois vamos também fazer conferências e debates, um dia 2 de Julho em Lisboa e outro dia 8 de Julho no Porto para debater os programas dos partidos. Fazemos isto por duas vias: apresentamos as nossas propostas e depois vamos avaliar a validade dos programas dos próprios partidos e estou certo que vamos chegar à conclusão de que precisamos de uma estratégia. Claro que os partidos podem ignorar isto, mas pelo menos esperamos que os portugueses não o ignorem.

Henrique NetoP: Medina Carreira e Mira Amaral são dos mais mediáticos apoiantes da sua candidatura. Já teve oportunidade de falar com eles sobre ela, estão de alguma forma a colaborar com a sua candidatura?

HN: Estão já a colaborar. Muitas das ideias do que está a ser feito foram debatidas com eles. Por outro lado vão colaborar também nestas conferências, assim como outros apoiantes e simpatizantes desta candidatura.

P: Como é que olha para os seus adversários na corrida a Belém? Quem é que da direita poderá ser o candidato mais forte e quem é que acredita que vai avançar?

HN: Não sou adivinho como já disse e é um bocado indiferente, porque são concorrentes que são a continuidade das politicas partidárias e principalmente da continuidade das politicas que conduziram à crise. São co-responsáveis pela crise. Ainda não vi nenhum que não o fosse, da direita ou da esquerda. Outros como o Dr. Paulo Morais não tiveram responsabilidades, não tiveram posições politicas e não tiveram omissões. A responsabilidade faz-se pela acção, estar no Governo, no Parlamento, liderando partidos como o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Mas também se faz por omissão como o Prof. Sampaio da Nóvoa que viu todos estes problemas acontecerem, a chamada da troika, o desemprego, a falha dos governos, sem fazer nada. Outros como eu opuseram-se a isto, avisaram e escreveram sobre isto e esses têm legitimidade, como o Prof. Medina Carreira ou o Eng. Mira Amaral. Outros tendo ambições politicas mantiveram-se calados e têm assim menos legitimidade e a candidatura destas pessoas corresponde a uma atitude oportunista.

Henrique NetoP: Foi apoiante de António José Seguro, criticou a politica de betão do Governo de Sócrates. Costa não descola nas sondagens, há dias atrás falou novamente em grandes obras públicas. O futuro do PS continua a não ser risonho?

HN: O futuro do PS não depende de mim e eu só me preocupo com o depende de mim. Risonho ou não os portugueses é que vão decidir. Fui apoiante de António José Seguro porque acreditava que iria fazer as reformas relativamente aos partidos políticos, iria abandonar a estratégia do castelo e de certa forma fê-lo com as primárias, com o aumentar das responsabilidades aos deputados. A disciplina partidária torna os deputados irrelevantes. A politica de Seguro agradavam- me mais do que as anteriores e agradava-me mais do que as posteriores para ser consequente.

P: Naquela que poderá ser a ultima grande decisão do Presidente da Republica qual deve ser o papel do PR no rescaldo dos resultados das legislativas? Deve formar Governo sem maioria, deve promover um acordo?

HN: Não vejo que possa fazer outra coisa a não ser que queira manter o país sem Governo durante meses. No entanto um Governo de minoria pode ter várias soluções, seja um acordo parlamentar global ou pontual. Como não acredito que Cavaco Silva adivinhe o futuro, pelo menos até aqui não o fez, não pode achar que um governo minoritário por definição é incapaz. Acho eu que não pode. É interessante que as pessoas que se preocupam tanto com a governabilidade, não se preocupem com o problema de poder não haver Governo.

P: É difícil perguntar-lhe como é que olha para a situação na Grécia porque de hora a hora surgem informações díspares, mas acha que Portugal pode sofrer com uma saída da Grécia da Zona Euro?

HN: Essa é a pergunta do milhão de dólares. Mas o problema não é grego é da Europa. O problema da Grécia só tem importância porque não foi verdadeiramente resolvido há três ou quatro anos, porque a Europa está em plena desarrumação. Está balcanizada, as instituições deixaram de funcionar e as decisões passaram a ser assumidas pelo directório que toda a gente fala. A cobardia de muitos governos nacionais é que tem permitido isto, incluindo o português. As politicas europeias não são assim credíveis e a Grécia é um sintoma desta desorganização da Europa e do meu ponto de vista, a União Europeia não é sustentável desta forma. No caso da Grécia, não sabemos se a dificuldade em chegar a um acordo se deve ao problema da divida, se se deve à confiança da União Europeia no Governo grego. Portanto o problema já não é o acordo, mas sim a desconfiança na capacidade do Governo grego, isto é futurologia. Esta futurologia pode ser provocada por uma dúvida legitima, ou apenas porque não querem o Syriza na Grécia. Eu não sei o que motiva toda esta confusão e isto não é normal. Se um Governo de direita fosse eleito, com um programa e uma estratégia, o que não acontece em Portugal, sabíamos que a politica era aquela e era legitimada pela eleição, mas ninguém elegeu Merkel, Hollande ou Juncker para governar os países e esta situação não é sustentável e mais tarde ou mais cedo implode, como escrevi há 25 anos num texto sobre este tema.

A entrevista do Panorama ao candidato Henrique Neto foi publicado em duas partes. A primeira parte está disponível AQUI.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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