“Depois de 12 anos de marasmo, vivemos hoje um ciclo com um Porto cosmopolita e liderante”

Tiago Barbosa RibeiroTiago Barbosa Ribeiro é presidente do Partido Socialista do Porto há três meses, após a saída de Manuel Pizarro para o Secretariado Nacional após a eleição de António Costa como líder do PS. O jovem líder do partido é uma das figuras de proa da nova geração e no Porto tem protagonizado a realização de inúmeros debates para construção do programa eleitoral do PS.

Recentemente abriu o debate à restante esquerda, promovendo encontros com partidos e sindicatos, e em entrevista o também colaborador do Panorama afirma que “é importante demonstrar que não há interditos e que há espaço para convergir em torno de temas concretos”.

Panorama (P): Submeteu-se a eleições para a concelhia do Porto apesar de não ser obrigatório. Estava nos planos vir a ser presidente do PS Porto?

Tiago Barbosa Ribeiro (TBR): Não, de forma alguma. Já integrava a anterior direcção do PS Porto e, com as mudanças no PS ao longo do último ano, Manuel Pizarro foi convidado por António Costa para integrar a sua direcção política, o Secretariado Nacional. A partir desse momento colocou-se a questão da sucessão no PS Porto, porque nenhum militante pode acumular dois cargos executivos. Ora, como número dois da anterior direcção do PS Porto e com a saída de Manuel Pizarro poderia ter assumido a liderança sem ir a votos, de uma forma que reputei como burocrática, mas isso nunca foi uma opção para mim.

O PS é um partido plural, republicano e democrático: quem quer liderar uma estrutura, submete-se ao voto dos seus militantes. É assim que deve ser e é assim que preservamos os nossos melhores valores, mas também a estabilidade de um mandato com uma liderança sufragada e solidamente legitimada. Abrimos dessa forma um processo eleitoral em que todos puderam participar e disputar a sua visão para o futuro do PS Porto. Pela minha parte, apresentei um projecto estruturado em prioridades muito claras que foi apresentado em várias sessões a todos os militantes, com um programa aberto à participação da cidade, que se traduziu numa votação histórica em contexto de lista única.

Tiago Barbosa Ribeiro (PS Porto) e Paulo Cunha e Silva (Vereador da Cultura da CM Porto)

Tiago Barbosa Ribeiro (PS Porto) e Paulo Cunha e Silva (Vereador da Cultura da CM Porto)

P: As iniciativas públicas, debates, acções de formação, têm sido um tónico do seu mandato. Algum motivo em especial para esta aposta? Que resultados/ilações retira até ao momento destas iniciativas públicas?

TBR: Fazemos um balanço muito positivo destes primeiros três meses de mandato em que interviemos em várias frentes: organização, comunicação, sessões temáticas, formação, gabinetes orgânicos, posições públicas sobre temas de relevo para o Porto e para o Norte, iniciativas abertas a toda a população, debates e fóruns dedicados, como foi o caso da acção de contestação ao confisco da água por parte do actual Governo PSD/CDS. Os resultados excederam em muito as expectativas. É paradigmático o caso de uma das acções que fizemos de forma pensada e articulada com o trabalho do PS a nível nacional, O Porto na Agenda para a Década. Participando activamente na construção de uma nova maioria liderada por António Costa, o PS Porto organizou um ciclo de conferências para envolver o Porto e o Norte nos desafios de uma nova governação. As conferências desenvolveram-se em torno dos quatro grandes pilares da Agenda para a Década e envolveram diversas personalidades, demonstrando o que é que o Porto pensa e pode fazer pelo país. Entre os participantes estiveram, entre outros, Alexandre Teixeira dos Santos, Álvaro Domingues, Augusto Santos Silva, Maria Manuel Leitão Marques, Matos Fernandes, Paulo Cunha e Silva, Ricardo João Cruz-Correia, Silvestre Lacerda e Teresa Lago, fazendo do PS Porto uma grande plataforma de participação política e de projecção dos interesses da cidade no país. As sessões tiveram lugar em diferentes espaços emblemáticos da cidade do Porto, que ficaram lotados com muitos militantes do PS Porto, mas também com muitos portuenses sem filiação que quiseram associar-se a esta acção dos socialistas portuenses.

Paralelamente, lançámos também uma plataforma online onde todos puderam enviar os seus contributos, tendo sido recebidas mais de 100 propostas e ideias. O PS Porto reforçou assim o seu papel na projecção e afirmação do Porto, integrando as grandes preocupações da cidade no futuro Programa de Governo do PS, ao mesmo tempo que aproximou o PS dos sectores e protagonistas mais dinâmicos do Porto. É esta linha de qualificação e abertura que vamos prosseguir ao longo de todo o mandato, afirmando o PS como o grande partido do Porto.

P: Como é que acha que o povo portuense tem olhado para o PS Porto desde que assumiu a liderança da concelhia?

TBR: Creio que mantém a visão de um partido comprometido com a cidade e que coloca acima de tudo os interesses do Porto e do Norte.

P: Qual é o balanço que faz do mandato de Rui Moreira até ao momento? E dos vereadores do Partido Socialista?

TBR: O balanço é muito positivo. Depois de 12 anos de marasmo e paralisia dos factores críticos de afirmação do Porto, vivemos hoje um ciclo em que a autarquia se identifica com um Porto cosmopolita, inquieto e liderante. Os Vereadores do PS estão a trabalhar numa equipa coesa em torno de prioridades claras, firmadas nos compromissos assumidos perante os portuenses. Estamos muito satisfeitos com o trabalho que está a ser feito e que é reconhecido pela cidade.

P: O PS no Porto tem um desafio interessante na medida em que está coligado a um movimento independente cujo presidente tem altos níveis de popularidade. Qual é a vossa estratégia para em 2017 se puderem apresentar autonomamente a eleições? Ou não se vão apresentar de forma autónoma?

TBR: O PS tem um acordo pós-eleitoral até 2017 com o presidente Rui Moreira e neste momento está exclusivamente focado em cumpri-lo, com um mandato que ainda nem chegou a meio. Trabalhamos para isso do primeiro ao último minuto.

P: O Duarte Cordeiro que foi seu presidente na Juventude Socialista lidera o PS de Lisboa, o Tiago o do Porto, como é que olha para esta nova geração da qual é uma das figuras de proa? Que mudanças/inovações trouxeram da JS para o PS?

TBR: Há de facto uma nova geração que está a chegar a cargos de responsabilidade no interior do PS e que faz uma segunda grande vaga de transição face aos dirigentes que cresceram politicamente nos anos de consolidação democrática e europeia em Portugal. São produto do seu tempo e assumem funções de responsabilidade num momento em que por um lado há uma crise de representação partidária e, por outro, uma crise da social-democracia, do socialismo democrático, em toda a Europa. A consciência desses factores leva necessariamente a novas abordagens. Quanto à referência ao meu percurso, permito-me discordar. Sou apenas uma pessoa que vai fazendo e dizendo o que acha mais correcto numa perspectiva de revalorização da esquerda. Até agora tem havido um conjunto de pessoas que se revêem nisso e me têm apoiado. Enquanto acharem que eu sou útil e eu sentir que tenho algo a acrescentar, cá estarei.

Tiago Barbosa Ribeiro

P: De que forma é que esta mudança/renovação geracional se pode e deve materializar nas próximas listas do PS no Porto? Gostaria de vir a ser deputado? Quem é que na sua opinião deve encabeçar o circulo eleitoral do Porto?

TBR: A constituição de listas de deputados não é tema que me entusiasme. Importa que o PS saiba escolher os melhores em cada distrito, compatibilizando pluralidade e abertura com renovação e experiência. Estou certo que assim será.

P: Acredita que há possibilidade das esquerdas realmente se unirem? Acredita que isso pode acontecer nestas legislativas? Que respostas já teve à sua carta?

TBR: As respostas estão a ser muito positivas e colocámos este tema na agenda política a partir do Porto. Já tivemos reunião com a CGTP, temos outras agendadas (BE, LIVRE, Renovação Comunista, APRe!) e vários contactos em curso. É importante demonstrar que não há interditos e que há espaço para convergir em torno de temas concretos, independentemente da geometria variável de cada ciclo de governação.

P: Se o PS tivesse de se coligar com um partido à esquerda, qual seria a sua escolha?

TBR: Não vou especular sobre cenários dessa natureza. Cada partido tem de fazer as suas escolhas.

P: Como olha para os números das sondagens? António Costa pode ficar desacreditado com estes números já que foi através das sondagens que justificou a sua candidatura?

TBR: Não valorizo em excesso sondagens, sejam elas positivas ou negativas. São todas tecnicamente distintas e traduzem a fotografia de um dado momento que, no mundo hipermediatizado de hoje, pode mudar em poucos dias. As sondagens confirmam insistentemente três coisas: a direita em Portugal nunca teve valores tão baixos; o PS não está longe de uma maioria absoluta contra dois partidos da direita unidos por razões instrumentais; a esquerda tem uma imensa maioria política e social no país. Esta é a realidade que antecipa uma viragem política nas próximas eleições, implicando muito trabalho ao longo dos próximos meses.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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