Ana Drago: “O PS dizer que dá tudo a todos não cria confiança”

Foi deputada pelo Bloco de Esquerda até 2014, quando saiu do partido devido a divergências quanto à estratégia política a seguir. É agora a recém-eleita segunda candidata por Lisboa do LIVRE/Tempo de Avançar, nas eleições mais inovadoras da democracia portuguesa.

Nesta entrevista ao Panorama, Ana Drago fala-nos da consolidação e das estratégias do LIVRE, das divergências com o Bloco de Esquerda, do que a une e separa do Partido Socialista e da isolação “trágica” do Syriza na Europa.

Ana Drago

Panorama: O LIVRE, tão recente mas já com considerável apoio, pode tornar-se a alternativa mais credível na esquerda no que toca ao arco de governação?

Ana Drago: Sem dúvida que esta ideia de que é necessária uma plataforma política em que vários partidos que se têm batido contra a austeridade se possam encontrar e estabelecer compromissos sobre situações determinantes – o combate à pobreza, à precariedade, a sustentação de políticas redistributivas – é uma proposta que faz sentido para a maior parte das pessoas que se revê nos partidos de esquerda. Portanto, creio que é uma proposta que tem essa coragem e esse mérito de propor o que é necessário, hoje.

P: E acha que os eleitores o vêem dessa forma?

AD: Eu não vou negar, nós ainda temos o problema de sermos conhecidos pelas pessoas. Somos uma estrutura nova, ainda relativamente frágil, e percebemos isso. Mas à medida que vamos estando na rua, percebemos que esta nossa proposta, no meio de tanta desesperança, sectarismo e medo, é aquela que faz mais sentido na cabeça das pessoas.

“O PS nunca fala sobre a dívida”

P: Falou sobre acordo entre partidos que se batem contra a austeridade. A reestruturação da dívida portuguesa é o maior entrave ao entendimento com o PS?

AD: Nós temos que descentrar daquilo que são sucessivas dificuldades no diálogo político à esquerda. É óbvio que a reestruturação da dívida é uma questão central da política portuguesa, não porque a dívida seja uma espécie de fetiche mas porque ela é um dos principais instrumentos disponíveis para encontrar recursos que permitam criar emprego e sustentar o país. O Partido Socialista tem falado dessa sua vontade de criar emprego, de sustentar o Estado Social, mas nunca fala sobre a questão da dívida. Eu sei que há muita gente em Portugal que esteve em todos os protestos contra a austeridade e defende a criação de emprego e a sustentação de políticas sociais, e que sobre a dívida continua a ter medos sobre o significado disto no quadro do confronto europeu. Temos de fazer esse processo conjuntamente, debatendo mais tarde ou mais cedo o que me parece óbvio.

P: Desde que o LIVRE entregou o caderno de encargos aos outros partidos de esquerda tem havido esse diálogo, sobretudo com o PS?

AD: Não tem havido assim tanto. Nós fizemos uma proposta de mesa redonda e a ideia não ser uma coisa alargada. Temos tido obviamente dificuldades em implementar esse processo; é preciso continuar a insistir nessa percepção de que estamos a viver um momento histórico e portanto temos de subir um bocadinho acima das nossas circunstâncias e perceber o que está em causa, que é, de facto, o futuro do país com dignidade, e para isso é necessário uma frente política que defenda esse futuro.

P: Porque é que o PS, depois de anos de austeridade, não consegue descolar nas sondagens e inclusivamente aparece derrotado frente à coligação em algumas?

AD: Apesar de terem surgido nos últimos tempos várias propostas do Partido Socialista, eu acho que não há clareza e não há muita confiança no PS. Nós estamos, com a situação na Grécia, à beira de um processo muito difícil para o país e não se percebeu quem é que o PS chamará para fazer um confronto e uma negociação no quadro na União Europeia. Que alianças pretende fazer? Quererá um bloco central, para ceder perante as instituições? Ou tentará aliar-se à esquerda? Por outro lado, acho que o PS apresentou um conjunto de propostas que são contraditórias entre si. É muito difícil falar sobre a sustentabilidade do Estado Social e sobre criar emprego, que acho que são propostas positivas, sem perceber onde é que se vão buscar recursos. O cenário macroeconómico apresentado pelo PS parece-me claramente irrealista, e eu creio que não é preciso ser um dos doze especialistas – qualquer pessoa em casa tem dificuldade em perceber como é que agora subitamente vai ser tudo tão fácil. Esta ideia de que é tudo apenas uma má vontade que existia… Eu acho que obviamente Pedro Passos Coelho e Paulo Portas queriam ajustar contas com determinado modelo da democracia portuguesa, redistributiva, com políticas sociais, com direitos no trabalho, mas a situação portuguesa é mesmo difícil e vão ser mesmo necessárias escolhas muito difíceis. Entre interesses contraditórios na sociedade portuguesa. O PS dizer que vai dar tudo a todos não cria confiança.

“O Bloco de Esquerda não cumpriu o seu compromisso”

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P: Porque é que acha que por exemplo o Bloco de Esquerda não parece priorizar esse futuro do país de que fala?

AD: Eu creio que o Bloco de Esquerda não fez uma leitura correta sobre a situação política que estamos a viver. De alguma forma, o Bloco coloca toda a sua agenda política em cima da mesa, num jogo de ou tudo ou nada. Eu creio que esta é altura de tentar encontrar compromissos e não deixar cair o que é fundamental.

P: Então a grande vantagem do LIVRE é dar em termos de entendimento político aquilo que o Bloco não dá?

AD: O grande contributo desta candidatura são duas coisas: por um lado, percebermos que não basta ter uma agenda cheia de coisas absolutamente corretas para o futuro do país numa situação tão difícil. Só é possível criar um mandato no quadro da zona euro que possa negociar com força a defesa dos interesses do país se houver um mandato popular e uma mobilização popular forte. E portanto não basta ter as pessoas em casa, sentadas, a irem votar no dia das eleições. Portanto, criar um processo em que se altera a própria forma de fazer política, em que as pessoas sentem que a sua escolha é levada a sério, é determinante. A segunda questão: obviamente, a disponibilidade para assumir responsabilidades.

P: Dentro do Bloco, a corrente Socialismo está mais isolada desta realidade que fala em enfrentar?

AD: Eu já não sei bem como é que estão as correntes dentro do Bloco… (risos). A minha divergência do Bloco foi quando o partido recusou um processo de convergência durante as eleições europeias, e eu acho que no contexto que estamos a viver em Portugal não se recusam convergências. Ficarmos presos em todos os pontos do nosso programa significa na prática não mudar nada e portanto ser derrotado.

P: Acha que a sua saída foi um rombo importante para o Bloco?

AD: Não consigo avaliar isso…

P: E na visão dos eleitores?

AD: As pessoas farão as mais diferentes leituras, creio eu.

P: O que têm em comum os afastamentos das grandes figuras do Bloco?

AD: A minha leitura é que o Bloco não cumpriu o seu compromisso, que era de ser um pólo agregador das diferentes esquerdas que se batem por um projeto de progresso, de liberdade, de direitos para o país.

P: Com as novas figuras no Bloco e com a consolidação da liderança de Catarina Martins, o Bloco pode ser uma ameaça maior para o LIVRE nas próximas eleições?

AD: Eu não vejo o Bloco como uma ameaça. Tenho muitas concordâncias políticas com o Bloco, o meu problema é um problema estratégico. Nós estamos a viver uma crise histórica, nunca antes vivida na democracia portuguesa, e neste momento precisamos de assumir responsabilidade. Não entrar em processos de diálogo e convergência quando eles são a única forma de criarmos esse mandato claro que defenda o país é uma irresponsabilidade, nos tempos que etamos a viver. Tenho a certeza de que dentro do Bloco a defesa das causas do emprego, do Estado Social, de acabar com a imigração forçada, com o ataque aos pensionistas, continua e portanto nós somos aliados do Bloco nessa luta.

“No contexto português não se recusam convergências”

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P: Ana Drago e Rui Tavares acabaram por ser cabeças de lista por Lisboa nas eleições primárias do LIVRE. Na sua cabeça, havia alguma hipótese de não o ser?

AD: Todas. Estar num processo em que as pessoas decidem quem é a equipa que dá a cara e assume responsabilidades é estar num processo em que todos mostramos disponibilidade para estar nessa luta, mas todos sabemos também que todas as experiências, talentos, são contabilizados nessas decisões. Ser candidato às primárias é mostrar essa disponibilidade e estar pronto a aceitar os resultados.

P: Com este processo que o LIVRE promove, acha que se evita o carreirismo político?

AD: Eu creio que sim. Esta ideia de participação, de fiscalização, de prestação de contas é um mecanismo de as pessoas sentirem que os partidos não se transformam em máquinas fechadas e que as coisas não são decididas por meia dúzia de pessoas numa sala fechada. Essa transparência é fundamental para dar confiança à democracia. É por isso que não basta ter as propostas certas; é preciso que o processo político de participação também seja o correto.

P: Como faz o balanço do processo que envolveu as eleições primárias, que o LIVRE definiu como complexo e moroso?

AD: Foi um processo que correu muitíssimo bem para uma primeira experiência numa escala tão alargada. Uma das coisas em que creio que falhámos e temos, num próximo processo, de corrigir é ter mais mesas de voto disponibilizadas pelo país – só tivemos vinte e isso significou algum entrave nalguns distritos, em que só havia uma mesa de voto. O processo de votação eletrónico também não foi fácil. Nós vamos aprendendo.

P: A ideia da candidatura dos cidadãos afasta o voto útil?

AD: Eu espero que afaste! Como alguém dizia com alguma sabedoria, o voto é útil para quem o recebe. O voto útil neste momento é um voto para quem está disposto, num contexto histórico tão difícil, batalhar pela vida das pessoas. Obviamente que haverá todos os receios, medos e campanhas de chantagem que vão ser lançadas. Espero que as  pessoas votem por perceber que este movimento é uma garantia, pela forma como está organizado e monitorizado pelos cidadãos e de manter as suas propostas e se bater por elas.

“A isolação do Syriza é trágica”

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P: Rui Tavares disse que com o LIVRE a reestruturação da dívida não fica à porta do Conselho da Europa. O que falta ao Syriza fazer para o processo correr melhor?

AD: O Syriza esteve acima das expectativas. É um partido até agora sem qualquer experiência governativa e demonstrou uma incansável disponibilidade para processos de negociação. O que o Syriza nunca aceitou é que em cima de uma situação de crise humanitária se juntasse mais pobreza e desemprego, e portanto bateu-se. No momento em que foi confrontado perante uma situação tão difícil como o default no dia do pagamento ao FMI, com uma alteração de proposta da parte dos credores, o Syriza entendeu que não tinha mandato e chamou o povo grego a tomar uma decisão. Portanto, eu acho que é um processo que correu de forma lapidar, com muito bom senso e ponderação do Syriza. A chantagem que foi feita nos últimos dias sobre a Grécia – com as instituições a colocarem-se dentro do debate interno do país, com tudo a ser dito ao mesmo tempo; o Syriza cedeu em tudo, o Syriza é um radical – mostra que o confronto na Europa será duríssimo. O que me faz impressão é que para salvarem uma determinada narrativa de que a austeridade ia funcionar, depois de quatro anos e meio com os seus governos na Grécia sem resultar, estejam a colocar em causa o projeto europeu. O início da desagregação da Zona Euro coloca o euro sob uma pressão imensa, e o efeito político não se consegue saber. Acho uma enorme irresponsabilidade a forma como as instituições se portaram nesse processo.

P: Varoufakis disse há poucos dias que a Grécia não sai do euro de forma nenhuma. Como vê esse cenário?

AD: Eu não consigo perceber… já não é uma questão de ideologia. É perceber que a austeridade na Grécia, que foi aplicada humildemente pelos vários governos até ao Syriza, só teve resultados desastrosos. O que não era possível era neste momento haver mais um balão de oxigénio para fazer frente ao pagamento ao FMI e as instituições não compreenderem que era necessário dar uma resolução definitiva ao problema das crises soberanas na Zona Euro, e que isso só se consegue com aquilo que foi dito de forma sensata pelo Secretário do Tesouro norteamericano: é preciso um alívio da dívida grega! Uma dívida de 180 por cento do PIB não é pagável! Não conheço nenhum economista que diga que é, e atirar assim mais medidas recessivas…

P: Quando apareceu o Syriza com as suas propostas, falou-se numa possível abertura para Portugal seguir o exemplo. Com as negociações no ponto em que estão, o cenário fica facilitado ou dificultado para nós?

AD: Uma das coisas que eu acho trágicas neste processo é a forma como o Syriza está isolado perante os outros governos. Uma das coisas que mais me choca é a forma como o governo português não entendeu que o processo de alívio da austeridade e a introdução da questão da reestruturação das dívidas era a questão do interesse de todos os portugueses. Para manter a sua própria narrativa, tem sido um dos governos mais inflexíveis em relação ao Syriza. Acho isso vergonhoso. Não consigo encontrar palavras para descrever a minha raiva, porque acho que esta gente não nos representa. Venha-nos a senhora ministra das Finanças, de forma absolutamente irresponsável, dizer que temos os cofres cheios para aguentar seis meses de pressão dos juros nos mercados… É de uma irresponsabilidade brutal. Estão a brincar com a nossa vida, portanto é altura de dizer que este governo não nos representa e tem de se ir embora.

P: Se as negociações correrem bem à Grécia, pode ter sido um tiro no pé que Portugal e Espanha não lhe tenham seguido o exemplo?

AD: Acho, obviamente. Era necessário ter conseguido coligar diferentes forças, que não estão no poder mas são importantes na Europa, no sentido de dizer que esta política punitiva de austeridade não é só má: ela falhou redondamente. É preciso encontrar uma nova agenda para a Europa, porque senão a Zona Euro começará um processo de desagregação com crises políticas que poderá durar anos e que pode colocar a paz e a cooperação na Europa em risco.

P: Outra proposta do LIVRE é reverter o processo de privatização da TAP. A TAP enquanto empresa pública é sustentável?

AD: Creio que sim. Precisa de se ver livre de alguns dos negócios em que se meteu ultimamente, no âmbito do Brasil, e de um processo de acesso a novo capital.

P: São problemas de má gestão?

AD: Houve processos que devo dizer que sim. Não acho que as entradas em algumas negociações no Brasil tenham sido corretas. Estamos a discutir em Lisboa e percebemos a centralidade de ter uma companhia aérea que permite fazer uma articulação com o espaço lusófono e permite trazer a Portugal um conjunto de contigentes de turistas, de centralidade nas rotas em relação à Àfrica e ao Brasil, e é importante na própria multiplicação da economia nacional. Se ela for restringida a uma coisa que não seja exatamente defender o interesse de toda a economia portuguesa, é todo o país que perde.

P: Em termos de políticas, o que é que o LIVRE traz de novo à esquerda portuguesa?

AD: Traz obviamente a questão da reestruturação da dívida portuguesa, da precariedade – a precariedade tornou-se absolutamente viral na sociedade portuguesa e hoje afeta não só as novas gerações mas todas as que caem em situação de desemprego; é necessário que o Estado dê o exemplo e dê a quem trabalha para si contratos de trabalho rapidamente. Tem de haver um combate aos falsos recibos verdes e um novo estatuto para o trabalho independente, um novo regime para a sustentabilidade para a Segurança Social. Tem de se perceber que o recibo verde paga trabalho, e aquele que compra trabalho tem também obrigação de fazer um contributo para a Segurança Social. Temos outra proposta inovadora, que diz respeito ao endividamento. Nós temos famílias endividadas à banca, à Segurança Social e ao fisco e que estão a afogar-se. Ter um fundo de resgate para as famílias que consiga comprar estes créditos e voltar a negociar com as pessoas é absolutamente determinante. Os juros que as famílias endividadas têm de pagar ao fisco são altíssimos, quase como a dívida pública portuguesa dos tempos em que estava a atingir os máximos, e é uma forma de extorsão e isso não é aceitável.

P: Uma previsão de como o LIVRE se vai sair nas próximas eleições? Vai crescer em relação às últimas europeias?

AD: Neste momento, o LIVRE é uma candidatura cidadã que agregou um movimento, um conjunto de independentes e de organizações muito largo, e isso vai ter reflexos. Vamos ver se temos capacidade de nos enraizarmos. Eu tenho uma grande expetativa: quando nós conseguimos chegar às pessoas, esta proposta faz sentido na cabeça delas.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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