O desastre

GréciaPensar os problemas que a Grécia enfrenta e os cenários políticos imediatos e futuros não é um exercício simples, tal a rapidez vertiginosa a que se sucedem as notícias e tal a quantidade de informação de que vamos dispondo. Nos últimos tempos, são incontáveis as vezes que o Grexit esteve iminente, tantas quantas as que o acordo era possível, com enormes variações nos termos em que o mesmo poderia concretizar-se. Como tantos outros, aguardei o desfecho das negociações nas reuniões do Eurogrupo, esperando uma solução definitiva. Afinal, estamos ainda longe de poder fazer um balanço das mesmas.

Quero começar por falar de Portugal e de um argumento que tem sido insistentemente repetido pela direita. O de uma colagem do Partido Socialista ao Syriza, tentando demonstrar uma radicalização do PS e qual seria a consequência futura de uma vitória nas eleições legislativas. Este argumento, para além de julgar os eleitores incapazes de discernir as diferenças, é absolutamente falso porque se funda em dois sinais que são importantes a qualquer partido que pretenda colocar um ponto final na austeridade: a necessidade de outros governos com o mesmo propósito e a demonstração de solidariedade para com o povo grego, aquele que interessa no seio deste problema. Qualquer pessoa minimamente séria consegue facilmente compreender que o Partido Socialista não é um partido da esquerda radical e que concordância ou solidariedade pontual não fazem de dois partidos homólogos. A divergência quanto aos métodos utilizados pelo Syriza é assumida, mas não deve impedir a família socialista, social-democrata e trabalhista de contribuir para a construção de uma União Europeia fundamentalmente solidária e humanista, como sempre foi seu apanágio. Disso mesmo relembrou recentemente Jacques Delors, pedindo reformas à Grécia mas exigindo à União Europeia a criação de condições para financiar o país em condições de restaurar a sua solvabilidade. Em todo o caso, o argumento utilizado pela direita é tão válido quanto colar o PSD aos xenófobos do Fidesz, seu partido irmão e membro do Partido Popular Europeu. Seria intelectualmente desonesto, por isso não o faço. Talvez a direita não tenha a mesma preocupação com a sua seriedade de pensamento.

Tsipras JunckerQuanto à Grécia, a primeira conclusão a que podemos chegar é a de que este processo não se deve às dificuldades económicas do país. Se dúvidas houvesse, as negociações no Eurogrupo demonstraram que as motivações dos intervenientes são puramente políticas. Políticas no pior sentido, de quem vergonhosamente abusa do poder democrático que lhe foi entregue pelos seus cidadãos para humilhar um outro país, procurando uma vingança que não se coaduna com a promoção da paz que a União Europeia visa garantir. A constituição de um fundo de 50 mil milhões de euros em propriedade pública grega, bem como a introdução de cortes automáticos de despesa em caso de incumprimento de metas, constituem um atentado à soberania do país e à democraticidade do seu regime político.

Relativamente ao plano em si, este é inviável. Politicamente inviável, dado que o parlamento grego será forçado a aprovar medidas que na verdade rejeita e implementadas por um governo que não acreditas nelas, socialmente inviável porque a população as renega. Economicamente, não há ninguém que acredite nele. Não se ouviu, até ao momento, um único economista que defenda a exequibilidade deste princípio de entendimento ou que não assuma que o acordo final sofrerá grandes alterações. À voz do governo grego juntam-se as do FMI, por Christine Lagarde, e do BCE, por Mario Draghi, que assumem que um grande perdão de dívida é indispensável. Aliás, a posição do FMI foi defendida num relatório divulgado dias antes do referendo grego, apesar da oposição de diversos países europeus que não o queriam tornar público nessa altura.

O que se ganhou, portanto, com este entendimento? A Grécia fica no Euro e isso é bom. Mas resta perceber a que custo – que parece ser a destruição total do país – e se esta permanência é definitiva. O saldo final, até ao momento, é extremamente negativo. Todos atingiram um acordo, como queriam, mas os termos e a forma como se chegou a ele parecem condenar politicamente o futuro da zona Euro e da União Europeia. O Euro deixou de ser uma moeda credível, em que a permanência dos seus membros é inegociável (a não ser por vontade do próprio país), a Alemanha demonstrou que não age de boa-fé e os governos nacionais, de um modo geral, parecem ser incapazes de pensar o futuro da União Europeia, preferindo focar-se no futuro eleitoral de cada um dos seus partidos. Não quero ser pessimista mas, sem uma mudança radical nos termos do acordo final, podemos ter chegado à derradeira receita para o desastre.

P.S.: Por falar em Fidesz, enquanto os nossos olhos permanecem colados na Grécia, o governo de Viktor Orbán já mandou construir um muro que separará a Hungria da Sérvia, evitando a chegada de imigrantes ilegais. Talvez fosse chegado o tempo de sermos mais solidários com os povos de boa vontade e mais intolerantes com a ascensão de regimes ditatoriais dentro da União Europeia.

Publicado por: Eduardo Barroco de Melo

Mestre e Licenciado em Bioquimica. Ex-presidente da Associação Académica de Coimbra. Coordenador Nacional dos Estudantes Socialistas

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