A descriminação do grotesco

 

Veio a público neste fim-de-semana o caso de uma jovem violada à porta de um estabelecimento de diversão noturna, leia-se, discoteca, na zona norte do país. Repulsa, asco, nojo, indignação: um infindável número de substantivos não chegariam para eu repudiar o ato de cobardia praticado contra esta mulher de 17 anos.

Igualdade de GéneroContudo, entendi escrever sobre esta notícia, não pelo crime propriamente dito, mas pela estupefação com que me deparei com os comentários à mesma, seja nos órgãos de comunicação social online, seja nas redes sociais.

Ora, entendem muitos dos “leitores” que a responsabilidade por este (e eventualmente outros) crime de violação recai ou sobre os pais que deixaram que uma menor de 17 anos permanecesse numa discoteca até às 7h ou sobre, pasme-se, a própria vítima. Esta – dizem alguns – poderia estar a “pedi-las” pela forma como estaria vestida ou por uma qualquer outra razão igualmente idiota a que me furto a enumerar e muito menos a comentar. Como se fosse o ato bárbaro de uma violação justificável em qualquer medida e como se uma mulher, independentemente de maior ou menor de idade, não se pudesse vestir ou frequentar um sítio a que horas lhe apetecer, sem que com isso não esteja a legitimar um crime desta natureza.

Em nenhum destes comentários, que tive a infeliz ideia de ler, vem qualquer referência sequer à responsabilidade daqueles que contra a vontade daquela mulher praticaram sexo sem ser consentido. Aqueles comentadores, homens e mulheres, esquecem-se que esta vítima poderia ser sua filha, mulher, namorada, prima, amiga, e que nessa circunstância, eventualmente, a condescendência com o criminoso e a atitude persecutória com a vítima seriam eventualmente diferentes. Ou então não. Nessa situação, os comentários seriam exatamente os mesmos, uma vez que a vítima quando saiu de casa infringiu o código de conduta e o dress code que certamente teriam evitado a violação.

Os anos passam mas as mentalidades não mudam ou mudam tão vagarosamente que nem daqui a 100 anos estaremos no patamar de desenvolvimento que nos retire do vergonhoso 3.º lugar de país da União Europeia com mais desigualdades entre homens e mulheres.

Um jornalista inglês escreveu um dia que “o homem distingue-se dos outros animais por ser o único que maltrata a sua fêmea”, mostrando com isso que a irracionalidade também toma conta de nós.

 

 

 

Publicado por: Margarida Balseiro Lopes

Deputada eleita pelo PSD. Licenciada e Mestre em Direito e Secretária-Geral da Juventude Social Democrata

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