A violência sexual na política

Um dos temas que mais interesse parece suscitar nas formações em Igualdade de Género que ministro (ou em contextos análogos) é a participação das mulheres na política, especialmente a parte em que discutimos os motivos pelos quais a participação das mulheres na política continua aquém do esperado e, especialmente, muito aquém do ambicionado pela Lei da Paridade.

O primeiro motivo a ser apontado pelas/os formandas/os costuma ser a dificuldade na conciliação da participação política com as outras esferas da vida, especialmente a familiar e a profissional. As reuniões nocturnas e os fins-de-semana repletos de aparições públicas são normalmente apontados como incompatíveis com a vida das mulheres. Também a discriminação, sob a forma de paternalismo ou de afastamento, é mencionada como um obstáculo ao reconhecimento do trabalho político das mulheres… mas há algo mais que está sempre presente nas conversas: a violência.

Porque o cavalheirismo é ainda disseminado como parte das regras de boa educação, a hostilização com recurso à violência direta surge, normalmente, como consequência de uma postura de resistência por parte das mulheres. Quando o paternalismo e os jogos de bastidores não chegam, há que travar a ameaça das mulheres pelo ataque, recorrendo à agressão verbal e outras formas de intimidação, nomeadamente sexual. Não só o assédio sexual “tradicional” permanece como uma arma de impedir as mulheres de se sentirem parte no espaço púbico, como o discurso de ódio online com recurso à violência sexual se transformou como arma política.

merkelRecentemente, o Brasil acordou com uns autocolantes que retratavam Dilma Rousseff de pernas abertas. O autocolante, com um buraco, servia para adornar o depósito de combustível dos automóveis. A humilhação política de Dilma passa, pois, naquele imaginário coletivo, por enfiar a mangueira da gasolina naquele buraco no autocolante.

Não é preciso ir para o outro lado do Atlântico para encontrar outros exemplos mediáticos. Quando a Assunção Esteves ousou expressar o seu desejo de fechar as galerias, rapidamente a Internet se encheu de uma sua fotografia na praia, em biquíni, com comentários que não quero reproduzir. Quando a crise estoirou, a fotografia de uma Angela Merkel nua na praia foi utilizada como arma online de humilhação. E assim sucessivamente.

Os desejos de que estas e outras mulheres políticas sejam violadas, com pénis de outros políticos que são chamados a estas fantasias ou das/os próprias/os comentadoras/es e/ou com objetos à escolha em sítios à escolha (boca, vagina, ânus) não nasceram na Internet, claro, mas o meio online faz com que estes desejos proliferem sem quaisquer consequências – legais ou, principalmente, sociais. Não havendo vozes dissonantes, que se oponham contra a utilização de violência no combate político, protegidas/os pelo anonimato, estas/es comentadoras/es são uma fonte inesgotável de discurso de ódio contra as mulheres.

Como candidata às Legislativas de 2015, pela candidatura cidadã LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR, quero fazer um apelo à denúncia do discurso de ódio contra as mulheres e ao seu combate. É um imperativo de uma sociedade igualitária e democrática mostrarmos que há uma outra forma de participar na política – consciente e no respeito pelos Direitos Humanos das Mulheres e de todas/os.

Publicado por: Silvia Vermelho

Politóloga, trabalhando como profissional independente (formadora, consultora e técnica de projectos) e empresária. Realiza trabalho associativo e activista voluntário nas áreas da Igualdade de Género, Desenvolvimento Local e participação política.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *