O programa oculto da direita

A coligação PSD/CDS apresentou um programa tardio que merece destaque mais pelo que não diz do que pelo que lá está escrito.

Portugal à Frente

Sob um arrazoado de propostas sem novidades aparentes, supostamente conformadas à continuidade da governação falhada destes 4 anos, a direita apresentou na realidade um programa radical que prevê a privatização (parcial) da Segurança Social. Chama-lhe eufemisticamente plafonamento ou, mais hipocritamente, liberdade de escolha. Mas trata-se de uma privatização e é deplorável que PSD e CDS não tenham a coragem de assumir com clareza as suas opções para um debate sério na sociedade portuguesa.

O seu programa é aventureiro, desde logo porque não apresenta as contas do rombo na Segurança Social com os descontos opcionais, mas é sobretudo mentiroso porque esconde dos eleitores as suas verdadeiras motivações.

A direita tem de dizer com frontalidade que quer desestruturar o contrato social que criámos depois de 1974, abrindo as portas a um modelo de Segurança Social dual e, a prazo, condenado. Só os mais ricos terão «liberdade de escolha» para desviarem parte dos seus impostos de um fundo público e universal (e por que não tornar opcionais outros impostos, já agora?), relegando os que menos têm para um modelo de assistencialismo limitado sem solidariedade intergeracional. Será uma bomba-relógio que é colocada deliberadamente no coração do sistema público para o detonar, engordando fundos privados.

Segurança SocialA Segurança Social é a última fronteira da revolução liberal-conservadora que está em marcha no nosso país. O sistema tem solidez estrutural e os seus problemas decorrerão da manutenção de elevadas taxas de desemprego e emigração, que canibalizaram milhões em descontos e que resultaram das políticas de austeridade dos que agora propõem a sua salvação, matando-o.

Pior do que colocar um pirómano a combater um incêndio, só oferecer-lhe gasolina e fósforos. É o que a direita pede aos portugueses e por isso merece uma tripla punição eleitoral: pelas políticas dos últimos 4 anos, pelas políticas que não tem coragem de admitir e pelas políticas que quer efectivamente assumir.

Publicado por: Tiago Barbosa Ribeiro

É actualmente presidente do Partido Socialista do Porto.

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