O bloqueio da sociedade Portuguesa

O vislumbre do que será a campanha das próximas eleições legislativas traduz-se num misto de preocupação, frustração e decepção. Depois de termos vivido a pior crise económica e social desde que entrámos na aventura Europeia – crise essa que está longe de ser ultrapassada e cujos efeitos vão ser estruturalmente vividos pelos Portugueses nas décadas que se avizinham – olhamos uns para os outros, meio impávidos, meio sedados, e, ao nosso redor, assistimos ao mais puro degredo da política nacional, esmagada por demagogia, incompetência, falsos moralismos e uma leviandade imprópria de uma democracia que, muitas vezes, se pensa madura.

Portugal à FrenteDe um lado da barricada, temos uma coligação entre PSD e CDS que está a um passo de atingir mínimos históricos em resultados eleitorais. Nem em 2005, aquando da primeira eleição de José Sócrates, o resultado do aglomerado PSD + CDS fora tão baixo quanto o previsto para Setembro. Em 2005, os dois partidos conquistaram 36% dos votos. Todas as sondagens apontam para valores abaixo desse número, excepção feita à da Universidade Católica, que aponta para cerca de 38%. E, ainda assim, a coligação tem o desplante de se lançar para uma campanha eleitoral, com este peso simbólico, munida de um programa sem conteúdo (como muito bem demonstrou Pacheco Pereira) e sem contas nem números (mesmo quando existe a ideia instalada de que os números e as contas são uma espécie de monopólio da direita, por oposição a uma esquerda infantil, irresponsável sem capacidade de pensar a economia). A coligação lança-se à campanha pura e simplesmente armada de um latido demagógico de que o PS é o único responsável pela bancarrota e que foi ela, a coligação, quem salvou Portugal, como se o país não vivesse máximos históricos de dívida (132% do PIB), desemprego (acima dos 20%) e emigração (400 mil Portugueses nos últimos 4 anos). Uma campanha de falsos moralismos e demagogia: não seria altura de acharmos isto curto?

António CostaDo outro lado da barricada, temos um partido à beira do abismo: o PS. Alguns dos seus congéneres Europeus, como o PASOK ou o Partido Socialista Francês, já se eclipsaram. E com alguma razão: já ninguém quer partidos de centro-esquerda que sejam meros suplentes dos partidos neoliberais do centro-direita. Mais ainda, quando esses partidos parecem ser dirigidos por secretariados que revelam uma incompetência incompreensível. A recente polémica dos cartazes é absolutamente simptomática. Depois de tudo o que o PS viveu internamente (com Seguro, com Sócrates) e de tudo o que o país sofreu, havia mesmo necessidade de o PS se estatelar na praça pública por causa de cartazes de rua? E havia mesmo necessidade de não um, não dois, mas três erros de palmatória em torno dos mesmos? O primeiro cartaz do PS, ao estilo evangélico ou new age, é mau demais para acreditar. Mas, depois disso, o PS não enviar o maior especialista em marketing para fazer uma dupla vistoria aos novos outdoors é ainda mais incompreensível. Pelo que se sabe, não só os mais recentes cartazes do PS apresentam histórias falsas, com fotografias não autorizadas de uma Junta de Freguesia por si governada, como ainda conseguem relatar um episódio de desemprego ocorrido no tempo de… Sócrates. Já sabíamos que o PS tinha pouca capacidade de ruptura, pouca vontade de fazer um programa de governo que invertesse o paradigma ordo-liberal Europeu e pouco interesse em romper com o seu próprio “centrão” que, acima de tudo, quer e gosta de manter o status quo. Agora, juntar a isto uma incompetência infantil é novidade. E uma novidade que os Portugueses não mereciam.

E assim vamos andando. Uns a achar que já saímos da crise, outros a achar que não, mas com a certeza de que as escolhas que temos pela frente estão a ser construídos em cima do pior que há na política: falsos moralismos, demagogia, incompetência e leviandade. Repito: não seria altura de acharmos tudo isto demasiado curto?

Publicado por: André Nóvoa

Formado em História, mestre em Antropologia e doutorado em Geografia Cultural. Viveu quatro anos em Londres e actualmente divide-se entre Oeiras e Boston, onde é investigador na área das políticas públicas, transportes e sustentabilidade. Tem vindo a desenvolver trabalho na área da mobilidade humana, identidades contemporâneas, espaço e cultura.

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