Do que vamos falar?

Outdoor PSConfesso: enganei-me. Por momentos, acalentei a esperança de que a campanha eleitoral que se aproxima fosse séria. Esperei, talvez com ingenuidade, que pudéssemos debater o país com sobriedade, as suas necessidades actuais e futuras, os últimos quatro anos de governação e projectar os próximos quatro. Não que esta esperança fosse totalmente infundada – afinal de contas, o maior partido da oposição apresentou um programa sólido, assente num cenário macroeconómico bem construído, sendo as suas medidas quantificadas. Na imprensa lia-se, por esses dias, que nenhuma campanha legislativa voltaria a ser igual, havia um novo grau de exigência no debate público e aqueles que não fossem capazes de realizar um exercício de igual rigor, seriam desacreditados aos olhos dos eleitores. Em pouco tempo, tudo mudou.

Bem sei que o Partido Socialista errou no “caso dos cartazes”. António Costa assim o admitiu e por isso pediu desculpa. O assunto, de tão pouco relevante para a discussão que devemos empreender na campanha, surpreendeu-me pelas proporções que assumiu. Corrijo, aliás: mais do que pela relevância que a direita tratou de imprimir ao tema, surpreendeu-me pelo tratamento que a imprensa e a opinião pública deram ao mesmo. Da parte da direita já nada nos espanta, um caso insignificante como este é perfeito para a sua estratégia de fazer, nesta campanha, a de 2011; quando isso não bastar, discutir os fait divers do momento em vez do país. É uma estratégia cobarde, de quem não tem nada para oferecer ao país, mas que não é nem inovadora, nem capaz de nos causar surpresa.

Já quanto à imprensa e à opinião pública, não contava com tal nível de destaque. Em primeiro lugar porque não me esqueci dos prenúncios de uma campanha totalmente nova, como fora anunciada pouco tempo antes. E, se entendo a relevância jornalística do caso, tenho maior dificuldade em acreditar que este assunto mereça maior atenção mediática do que a falta de ideias, de quantificação de medidas ou até de previsões concretas no programa da Portugal à Frente, coligação essa que nos governa no presente, apesar de parecerem esquecidos. Nas discussões do dia-a-dia, também ambos os temas tiveram uma atenção desproporcional.

Outdoor Portugal à FrenteNos dias seguintes, nova polémica rebentou, desta feita com os cartazes da Portugal à Frente, motivada pela utilização de imagens de um banco, não tendo a licença para utilização para fins políticos sido requisitada a tempo. Mas, uma vez mais, falámos do acessório em vez do essencial. Cada um é livre de ajuizar a correcção de comportamentos em ambos os casos. No entanto, interessa-me pouco que seja um modelo estrangeiro a dar a cara num cartaz da PàF: preocupa-me muito mais que a mensagem ao lado dessa cara seja uma projecção de um país que não existe, mentindo descaradamente aos portugueses.

Por isso, gostaria que esta fosse mesmo a campanha eleitoral que marcará, pela positiva, as futuras campanhas para eleições legislativas. Nos últimos tempos, tivemos algumas notícias que nos deviam preocupar: segundo os dados do INE, descontando o efeito da quebra do preço do petróleo (50% em relação ao mesmo período do ano passado), o défice comercial português está a piorar há dois anos – sendo que desta análise se exclui a ajuda da desvalorização do euro face ao dólar e as taxas de juro baixas devido ao programa de compra de dívida pública por parte do BCE; o Eurostat revela que a produção industrial em Portugal caiu 2,1% em Junho, registando a maior queda da Zona Euro; no mesmo mês, o Estado perdeu 6,5 mil milhões de euros em depósitos e as receitas caíram 2,4 mil milhões de euros em seis meses, estando a dívida pública a aumentar 43 milhões de euros por dia; um em cada cinco trabalhadores ganha o salário mínimo, tendo a percentagem de trabalhadores a ganhar esse valor aumentado em 73,6% desde 2011; segundo o Dinheiro Vivo, entre os primeiros trimestres de 2011 e 2015, a crise tirou 7,6 mil milhões de euros a salários e deu 2,5 mil milhões ao capital. Perante tudo isto, resta perguntar: já podemos falar de política?

Publicado por: Eduardo Barroco de Melo

Mestre e Licenciado em Bioquimica. Ex-presidente da Associação Académica de Coimbra. Coordenador Nacional dos Estudantes Socialistas

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