Mulheres na Política ou políticas para mulheres?

Nos últimos anos, em especial no tempo que precedeu e sucedeu à Lei da Paridade, esta questão tem sido uma constante quando se fala de Igualdade de Género. Com efeito, a subrepresentação das mulheres no Poder político tem vindo a ser apontada como um problema a ser resolvido. Muita desta preocupação com a subrepresentação das mulheres diz também respeito a alguma confusão conceptual quando falamos de representação política no seio da própria Democracia Representativa. Na Democracia Representativa, pretendemos falar de um Parlamento que seja espelho da população – desenhado à sua imagem e semelhança, ou falamos de um Parlamento que represente a vontade da população, que seja a sua voz e que aja pelos seus interesses, que “represente” como a figura de Procurador/a mandatado/a para o efeito?

Assembleia da Republica ParlamentoDe facto, as bases da nossa Democracia encontram-se no último caso. Às/aos deputadas/os, é-lhes requerido que exerçam o seu mandato para representar todo o país e não apenas, por exemplo, os círculos por onde são eleitos. O Parlamento ou outras instituições da nossa Democracia Representativa nem nunca poderia ser um espelho da população, porquanto partes da população estariam sempre excluídas, como as pessoas abaixo dos 18 anos ou, salvo algumas exceções, a população imigrante.

Por isso, a participação das mulheres na política encarada como “simbólica” de “espelhar” as “duas metades” da população nas instituições do Poder Político é uma perspetiva redutora do que está em causa quando falamos de Paridade. A Paridade não é apenas um fim em si mesmo, não é “apenas” a efetivação da mais elementar justiça da partilha do poder de decisão mas é um primeiro passo para que as políticas públicas possam ser pensadas também para mulheres. De pouco nos serve ter mulheres na política se estas reproduzirem a falsa neutralidade que norteia as nossas políticas públicas. Políticas públicas neutras conduzem a desigualdades profundas – ao serem desenhadas para um todo neutro e indefinido, não servirão para ninguém ou servirão, apenas, para quem estiver em melhores condições de adaptação.

As mulheres na política são também importantes porque para além da perspetiva das mulheres enquanto grupo social que, independentemente da sua pluralidade, partilha realidades comuns, elas são também porta de entrada para outras realidades – como a das crianças, a das pessoas idosas e mesmo a de pessoas em situação de pobreza ou de outras formas de exclusão social. São as mulheres que estão na linha da frente do cuidado e, por isso, são elas, enquanto cuidadoras, que têm o contacto com a voz das pessoas cuidadas. Por isso, as mulheres na política, para além de poderem contribuir para que haja mais políticas para mulheres, contribuem para políticas mais inclusivas para todas as pessoas e são também um catalisador da participação direta das pessoas cuidadas, contribuindo para o seu empoderamento na esfera pública.

Lei da Paridade Igualdade FeminismoAo mesmo tempo, a consciencialização do nosso papel político e social de “mulher” faz com que estejamos mais despertas para os nossos outros papéis políticos e sociais – a tão chamada “interseccionalidade”. Enquanto mulher, partilho problemáticas comuns a todas as outras – como a expetativa de que eu seja cuidadora, como a vulnerabilidade a situações de violência sexual, como a expetativa de obter uma menor remuneração do que os meus pares homens. Mas é esta autodeterminação como “mulher” que me faz estar consciente de que, entre nós, possuímos diferenças que é necessário acautelar – temos origens no meio rural ou no meio urbano, somos mulheres das ilhas ou do continente, temos diferente orientação sexual, somos ou não mulheres migrantes, somos mulheres cis e mulheres trans, somos mulheres de diferentes origens étnicas, de diferentes idades, somos mulheres de diferente situação económica (sim, classe social!)… todas estas diferenças, quando identificadas e acauteladas, só podem reforçar as políticas desenhadas (também) para mulheres – para todas as pessoas!

Enquanto candidata às Legislativas pela candidatura cidadã LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR e, por isso, mulher na política institucional, estou consciente da responsabilidade que tenho em contribuir para que as políticas públicas se tornem cada vez mais inclusivas, que acautelem a dimensão de género como transversal a outras as outras e que se permeabilizem para que, como lia num artigo no outro dia, se deixe de “pensar a cidade a partir dos olhos de deus” e desde o Renascimento que isso significa pensar a Humanidade a partir da perspetiva do Homem, que mais não é que o espelho dos homens, a medida de todas as coisas…

Publicado por: Silvia Vermelho

Politóloga, trabalhando como profissional independente (formadora, consultora e técnica de projectos) e empresária. Realiza trabalho associativo e activista voluntário nas áreas da Igualdade de Género, Desenvolvimento Local e participação política.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *