O clube dos Cronistas Maldispostos

Li a crónica de Paulo Tunhas no Observador (que pode ler aqui) e saí dela, também eu, aterrado.

Até lhe peço as palavras emprestadas: “Com todo o respeito, nunca vi uma tal mistura de indefinição, inconsciência e exorbitante amor de si numa página de jornal.”

Começa por supor que os portugueses pensam “as coisas políticas” como ele, que procura incessantemente “detectar de onde vem o mal pior, tentando evitá-lo”, concluindo, modestamente, que “se não é assim, devia ser, que era melhor para todos.”

Aqui se lê o seu exorbitante amor de si próprio: se não pensam como eu, “bom”, deviam, que pensavam melhor.

Sampaio da NóvoaParte depois para a análise da entrevista de Sampaio da Nóvoa, “que há pouco se tornou conhecido por ser conhecido e gostar de ser conhecido”. Aqui se lê a indefinição: o cronista não sabe como identificar negativamente o candidato, não o quer identificar pelo que ele é na realidade e opta por uma tentativa trágico-cómica (trágica na concretização, cómica na intenção) de dar a entender que ele gosta de ser conhecido. Saiu aquilo: “é conhecido por ser conhecido”.

Acrescenta ainda a pérola “Não mentir deve resultar não de uma ingenuidade primordial e atávica, mas de um esforço que a nós próprios mais ou menos à força nos impomos”.

Portanto: para Tunhas, mentir resulta de esforço que cada um impõe, à força, a si próprio. E aqui lemos a inconsciência do cronista, que acredita que o seu esforço em dizer a verdade é partilhado pelos demais (e se não é, “bom”, devia ser).

Por fim, remata com a conclusão de que o entrevistado “como Presidente, seria – e isto já não é imaginação, é absolutíssima certeza – uma desgraça trágica”, gravando assim profeticamente a mensagem que já lhe adivinhávamos desde o subtítulo da crónica.

Deixem-me clarificar uma coisa: esta crónica não é sobre Sampaio da Nóvoa, que (e aqui, em esforço, me obrigo à verdade) apoio e de cuja candidatura faço parte.

É sobre os Tunhas que escrevem nos jornais. Que olham para uma página em branco, escolhem um alvo e lhe direcionam toda a bílis que conseguem reunir.

Certos cronistas (dos quais Paulo Tunhas é um dos espécimes, ainda que não seja o mais representativo) adoram causar comoção e chocar o leitor. Imaginam-se uns Almadas Negreiros em pleno Teatro da República, todos pimpões na sua falta de moderação.

Almada NegreirosA crónica deles é menos que a gargalhada de Eça n’Uma Campanha Alegre, que nem é um raciocínio, nem um sentimento, que não cria nada, que destrói tudo, que não responde por coisa alguma.

Deve ser esfuziante sentar o rabo numa cadeira e escrever mal sobre outras pessoas. Eu próprio me sinto elevado agora, neste meu ataque ao clube dos Cronistas Maldispostos que, quais Grus sem Minions, insultam da sua janela virtual o transeunte que ouse dar uma opinião.

Não, não, para dar opiniões estão cá os Cronistas Maldispostos. Os outros, ai deles, são uns vaidosos, uns embevecidos, uns trauliteiros.

Os Cronistas Maldispostos descobrem-se logo no subtítulo. Não enganam ninguém. Só abrem o word para deitar abaixo os outros. Temo-los à direita e à esquerda, impressos ou online.

São a versão responsabilizável dos trolls anónimos nas caixas de comentários.

Os Cronistas Maldispostos nunca cometem delitos de opinião, porque existe liberdade de expressão. Mas acusam os outros, de dedo em riste, de tudo e de nada.

Esta é a minha opinião, verdadeira (e sem esforço), sobre alguns dos cronistas que ocupam o espaço opinativo da comunicação social e gastam todas as palavras em insultos, não sobrando nada para a fundamentação.

Um grande abraço de consideração aos outros, que leio com prazer, mesmo quando criticam, fundamentadamente, os meus candidatos.

Publicado por: João Marecos

Advogado estagiário. Ex-Presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa. Global Shaper

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