Colocação de professores: “Somos números, não pessoas. E números mal contados”

As listas de colocação de professores foram divulgadas na passada sexta-feira e os resultados não surpreendem: mais de 86% dos professores que concorreram a um lugar ficaram de fora das listas. Embora haja ainda duas reservas de recrutamento a ocorrer até dia 15 de setembro, dia de início do ano letivo, na primeira vaga de contratações o balanço é de 23 mil docentes desocupados.

César Israel Paulo, presidente da Associação Nacional de Professores Contratados (ANPC), já veio esclarecer que não está surpreendido. Para o líder da ANPC, embora tenha havido 3782 professores contratados este ano e haja possibilidade de haver mais contratados até ao fim da primeira quinzena de setembro, é preocupante constatar que “professores formados por universidades portuguesas com assumida reputação internacional estão a deixar a profissão e a abandonar do país.” Para César Israel Paulo, a fuga de “massa crítica laboral” é uma consequência da forma como o processo de colocação tem desiludido os professores que não fazem parte dos quadros: “a esmagadora maioria dos professores contratados continua a ter 10 a 15 anos de serviço e já devia estar no quadro, mas continuam a ser permanentemente contratados sem vínculo.”

“Nem vou dizer quantos contratos já tive…”

Este é precisamente o caso de Inês Filipe, professora de Educação Física que trabalha há 15 anos para o Ministério da Educação e mais uma vez não foi colocada no dia 1 de setembro. Inês explica que de a efectivação da carreira é, agora, uma miragem: “nesta altura da minha vida profissional nem sequer consigo ter um lugar de contrato na fase de contratação inicial. De há 3 anos para cá regredi tanto que sou uma «necessidade transitória do sistema»”. Inês relembra que “na lei geral, três contratos consecutivos de trabalho equivalem a contrato por tempo indeterminado”. E remata: “nem vou dizer quantos contratos já tive…”.

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O ministro da Educação, Nuno Crato, já falou sobre o processo deste ano. Segundo o governante, o objetivo do concurso é “garantir que os nossos jovens tenham os professores necessários para terem um ensino de qualidade, para terem um ensino que tenha as condições necessárias para que eles progridam”. No entanto, os docentes discordam de que o objetivo seja alcançável, uma vez que não vêem os próprios professores a terem condições de trabalho: “não temos família, não temos raízes, não somos afetos a nada. Somos regidos por regras estranhas onde nos obrigam a concorrer a números mínimos de concelhos e escolas. Temos que ter veículo, computador, impressora, e restantes consumíveis, para sermos professores. E sem patrocinadores. Temos que ter a facilidade de fazer mochila e colocar as costas. Ter a capacidade de adaptação rápida a um novo local de trabalho a cada 12 meses, na melhor das hipóteses. Somos números e também máquinas”. Quando questionada sobre a forma como os professores que não estão nos quadros são tratados, Inês resume: “somos números, e não pessoas. E ainda sendo números somos mal contados”.

“Irregularidades e injustiças continuam a existir”

O Panorama falou também com Patrícia Gameiro, professora contratada que foi, este ano, colocada a 1 de setembro com horário completo. No entanto, também Patrícia encontra falhas graves a apontar à gestão que o MEC faz deste processo. Para Patrícia, o ponto positivo deste ano foi a pontualidade dos resultados, a contrastar com anos anteriores. No entanto, a professora relata que conhece “casos de escolas que têm três e quatro horários para o mesmo grupo e não saiu nada… Alguns colegas tiveram de ficar mais longe quando sabem desses horários. É de lamentar que os Diretores façam isto aos docentes e continuem a criar injustiças num sistema de concursos que era suposto ser transparente e objetivo”. Patrícia salienta que “irregularidades e injustiças continuam a existir” no que toca à colocação de milhares de profissionais.

Descomplicador:

A colocação de professores inicial deixou de fora 23 mil docentes. O Panorama falou com professores que foram colocados e com outros que depositam as esperanças nas reservas de recrutamento.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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