Maria de Belém: Perda de legitimidade deste governo é a mais profunda da nossa democracia

Maria de Belém é um dos nomes femininos mais fortes na política portuguesa e, ao mesmo tempo, dos mais duradouros. A agora candidata a Belém já passou por vários governos socialistas como ministra da Saúde e da Igualdade e foi presidente do partido. Avisa estar em modo “blackout” – não fala – sobre as presidenciais, mas ao Panorama fala da sua carreira política, faz duras críticas à coligação e aponta falhas de compromisso aos partidos mais à esquerda.

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Panorama: Ser mulher em cargos de poder é um trunfo ou uma desvantagem?

Maria de Belém: Eu acho que é algo complicado, mas não o veria como trunfo nem como desvantagem. Tem uma especial sensibilidade, porque as mulheres estão mais sujeitas a escrutínio. Penso que ninguém duvida que no contexto da nossa evolução democrática a participação das mulheres é uma exigência, e portanto não é algo que possa pôr-se em causa só porque é mais incómodo.

P: Mas sentiu na pele alguma desvantagem durante a sua carreira política?

MB: Sim, eu tive uma carreira pública muito longa, e onde senti discriminação foi no exercício da ação política.

P: Pensa que por isso a ação feminina tem mais mérito?

MB: Eu não faria uma avaliação de mérito. Acho que devemos partir de constatações, e conto com elas quer na maneira como continuo a exercer a política, quer como avalio as críticas que são dirigidas. É verdade que algumas das críticas que me são dirigidas são sexistas, quer sejam proferidas por homens, quer por mulheres.

P: Apresenta-se como uma política diplomática e conciliadora. Acha que isto colide com a imagem de implacabilidade muitas vezes associada à classe política?

MB: Eu sempre considerei que deveria estar na política como eu sou, e não como é normal estar na política.

P: Como é que é normal estar na política?

MB: A política está a crescer em termos de agressividade, de endurecimento da linguagem, e se eu não sou assim na minha vida, também acho que não devo ser assim na vida política. Uma pessoa com a minha idade, percurso e experiência sabe que sozinha não muda nada, mas aquilo que considero importante é não ser transformada por causa do ambiente em que vivo.

P: Essa postura traz mais amigos ou inimigos

MB: Penso que se tivermos em conta as apreciações sexistas, traz-me inimigos. Se tivermos em conta opiniões mais alargadas, não me traz inimigos nenhuns, até porque muitas pessoas se dirigem a mim cumprimentando-me pela maneira como eu estou na política. Eu teria de me alterar e perder a minha genuinidade para ir atrás daquilo que são modas ou tendências.

P: É isso que acontece hoje em dia na política?

MB: É isso que está a acontecer de forma preponderante, penso que está à vista de todos. À minha vista está, porque estou aqui há muitos anos.

P: Já afirmou que não é o poder que a move. Qual é então a motivação para alguém que constrói uma carreira em cargos de influência?

MB: O que posso fazer de melhor com eles para transformar para melhor a vida das pessoas.  É o único objetivo que deve levar ao exercício da ação política. Nós temos a análise formal ou substancial. Se vivemos numa democracia representativa, as eleições conferem legitimidade formal. Mas se depois dessa legitimidade formal eu não conduzir a minha ação política de acordo com o que levou à minha eleição, ou seja, o conteúdo da minha intervenção e aquilo que me comprometi a fazer, acho que há uma grande falha de legitimidade, que é a substancial. E aquilo que leva a que os cidadãos atribuam um mandato de representação é com certeza pretenderem que as suas vidas fiquem melhores.

P: E este governo, tem mantido a legitimidade formal?

MB: Eu acho, e penso que toda a gente pode confirmar isso, que houve uma dissonância entre aquilo que foi prometido e o que foi cumprido. Foram muitas as vozes que fizeram essa denúncia porque houve uma cisão entre o discurso pré-eleitoral e a ação pós-eleitoral.

P: Mas não é a primeira vez que isso acontece, e não será a a última. 

MB: Mas não deve ser. Eu não estou a responder pelos 40 anos da nossa democracia. Muitas vezes aconteceu; com esta extensão e profundidade penso que é a primeira vez. Considero que em política deve haver palavra. Não deixo de reconhecer ou até afirmar que há circunstâncias excepcionais que podem levar à alteração do que foi prometido, mas essas circunstâncias têm de ser demonstradas para que as pessoas adiram.

P: Então o que critica não é só a extensão dessa diferença entre as promessas e o que foi cumprido, mas também não ter sido explicado aos portugueses o esforço que teriam de fazer?

MB: Não é só isso. Há uma dissonância grande entre o discurso e a ação. Em campanha eleitoral foi afirmado que nunca se usaria o anterior governo como desculpa para aquilo que se viesse a fazer e o governo sabia perfeitamente a dituação financeira de que partia. Portanto, a desculpa que depois foi dada foram estas duas coisas. O compromisso não foi só em relação a políticas concretas.

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“Coligação tem mensagem muito simples: todos os males se devem a governação socialista”

P: Porque é que apesar das críticas que aponta a coligação aparece já numa sondagem à frente do Partido Socialista?

MB: É uma avaliação que os eleitores fazem.

P: Mas pode atribuir-se a erros do PS, uma boa campanha da coligação…?

MB: Tem havido uma boa campanha da coligação. Tem uma mensagem muito simples: tudo o que se fez, todos os males que aconteceram ao país, se devem à governação socialista. Por outro lado, há uma campanha permanente relativamente a indicadores que são mostrados como positivos embora partam de situações que estão muito aquém daquilo que era a verdadeira situação do país antes desta governação. Portanto, houve um downgrade enorme da situação do país, em termos de produção de riqueza, em termos de níveis de emprego, em termos de emborepcimento de famílias e pessoas e sobretudo diminuição da qualidade do trabalho. Esta questão, para mim, é crucial, É o trabalho, nos países civilizados, que dá às pessoas a sua autonomia e a sua realização. Se nós desvalorizamos a simetria do poder nas relações do trabalho, podemos entrar em fenómenos de exploração que não devemos consentir. Essa é a grande preocupação.

P: Porque é que essa imagem, que é para si tão clara, não tem passado para os eleitores?

MB: Estamos a falar apenas de sondagens. A prudência aconselha comedimento. Ainda falta quase um mês para o dia das eleições, e ainda nem entrámos formalmente em campanha. Pode ser que haja uma alteração do comportamento do eleitorado.

P: A mensagem de estabilidade da coligação ganha às ideias de Costa?

MB: Penso que a mensagem de Costa vai fazer o seu caminho e vai poder agora em período de maior relação com os eleitores ganhar mais adeptos e reforçar a sua implantação.

P: Mas o PS podia ser mais claro em questões como a renegociação da dívida ou a posição em relação ao Syriza para esclarecer os eleitores?

MB: Eu sou completamente contra a utilização de casos na política, e sobretudo a telenovelização da política. Eu acho que a política é uma coisa demasiado séria para não ser abordada na sua complexidade. O PS tem sido muito claro sobre a indispensabilidade de ganhar os líderes europeus numa nova forma de concretizar os valores da União Europeia, porque é isso que está em causa. Isso passa muito pela redução da assimetria entre os países, que nunca será conseguida se esmagarmos alguns países mais frágeis na capacidade de fazer investimentos sociais – educação, saúde, investigação – e se, ao contrário, reduzirmos a nossa resiliência e outros beneficiem recrutando os nossos quadros mais qualificados. Tem de haver um caminho para uma nova solidariedade europeia reforçada. O PS tem grande capacidade para fazer esse papel de sensibilização. Foi sempre um partido defensor da integração de Portugal na UE; esteve sempre à frente das decisões que nos permitiram integrar a CEE e a moeda única; nessas áreas, a intervenção do PS pode ser mais forte, mais capaz, mais competente.

P: Se o PS for governo, é possível encontrar um caminho intermédio entre as ações do Syriza e o caminho da austeridade?

MB: Cada povo tem a sua própria contrução política, história e cultura. Comparar Portugal e Grécia é desconhecer diferenças históricas fundamentais. O PS não é o Syriza; sempre teve um discurso de enquadramento nas regras da União Europeia. O novo Tratado de Lisboa é prova disso; as novas regras foram construídas com a participação do PS. Como jurista sei que a interpretação das regras pode ser feita de forma ortodoxa ou inteligente: a que serve as pessoas. Temos de ter capacidade de persuasão e mostrar aos nossos parceiros europeus os dados sociais e económicos reais, já que vemos que este crescimento da economia de um por cento – nos anos 2000 era considerado frágil, até se fala da década perdida – agora transformou-se num crescimento fantástico. Não só é demasiado lento para recuperarmos o nível de produção de riqueza como decorre do empobrecimento das famílias.

P: Mas a comparação do PS com o Syriza vai no sentido de uma identificação. Há partidos socialistas noutros países que podem ter identificação na base, independentemente do contexto, com o PS. A posição de Costa pode não ter sido suficientemente clara, dizem algumas análises.

MB: Sim, mas os analistas não primam sempre pela objetividade. Analistas há muitos. Podemos olhar para o nosso panorama de analistas e comentadores, e há grande preponderância  de comentadores da direita.

“É muito fácil Bloco e PCP prometerem tudo e mais alguma coisa”

P: A quem se pode atribuir a falta de compromisso entre a esquerda, numa altura em que se fala de possíveis coligações?

MB: Há uma grande diferença entre o PS e os partidos mais à esquerda, que é estes não terem tido responsabilidades de governação na nossa democracia. É muito fácil prometerem tudo e mais alguma coisa, sem esclarecerem o eleitorado sobre o que é realizável ou não. Vivemos num mundo de interdependências e não é a nível nacional que resolvemos os nossos problemas. É a nível europeu e global.  Dizem sempre o que fariam, mas não onde estão os recursos; ou os recursos aparecem de forma incompatível com os compromissos que já assumimos.

P: Imaginando que nestas eleições o PS ganha com maioria relativa. Seria aconselhável ter acordo com esquerda ou com direita?

MB: Depende muito do xadrez eleitoral. António Costa já referiu que não faria coligações com partidos que integraram o atual governo. É muito incerto e não entra na forma como gosto de fazer política propor algo com base em cenários.

Com José Pedro Mozos

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

Há 1 comentário neste artigo
  1. ant.cunha@hotmail.com'
    antónio cunha at 16:12

    Entrevista bem conduzida, tanto quanto ao tratamento das incidências relativas ao facto de se tratar de candidata no feminino, até ao posicionamento politico da candidata face ao xadrez pré-eleitoral. E aí, a resposta à penúltima questão quase pareceu premonitória sobre as movimentações tendentes a uma aliança à esquerda por parte do PS, que vão fazendo a actualidade…

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