Neste jogo eu não tenho clube

É já para a semana.

Uns engalanam-se, nas redes sociais e na realidade. Vão para a rua vestidos com as mesmas cores, partilham notícias e fazem comentários a favor dos seus e contra os dos outros.

Os murais tornam-se monotemáticos. Os ânimos fervem.

Gritam a uma voz as mesmas palavras de ordem, os mesmos cânticos.

As televisões não falam de outra coisa.

Há quem insulte a inteligência de amigos de longa data por apoiarem outros que não os seus.

Por todo o lado, em cada discussão, pessoas defendem e atacam cegamente, drasticamente, ferozmente.

Não se deixa passar nada em branco. Quem ofende os meus, ofende-me a mim e eu retribuo, em dobro.

Reclamam-se erros do passado, comparam-se historiais e por todo o lado voam acusações de deslealdades, de incompetências e de infâmias.

Os atores principais, na televisão, não põem água na fervura, não elevam o discurso, não chamam a atenção para as coisas importantes. Não: animam as hostes, radicalizam o discurso e apostam tudo na angariação de apoiantes.

A comunicação social apoia o frenesim, extenuando-o em análises, comentários, entrevistas, folhetins.

Há debates com representantes de todas as partes. Cada um defende o seu lado, nenhum reconhece nos outros qualquer mérito. É o tudo ou nada.

Legislativas 2015

Eu simpatizaria com tudo isto, fosse isto só futebol. Fosse isto a preparação de um clássico, de um derby. Quando o futebol é paixão, não é racional. Em certos momentos, para mim existem apenas os que são do Benfica e os que são contra o Benfica.

Mas aqui é política. É campanha eleitoral. Seria o momento em que cada parte apresentava o seu programa e se entretinha a contrariar, fundamentadamente, os dos outros. Era aqui que teríamos os grandes jornalistas a pôr em causa as demagogias, a não deixar escapar uma mentira, a obrigar à clarificação.

Na campanha eleitoral teríamos notícias sobre dados, sobre pensamentos, sobre propostas. Temos ataques, temos música, temos fanfarra.

As campanhas podem ser festa, mas não podem ser só festa. Podem ser demonstrações de união e de mobilização, mas têm de ser muito mais que isso.

A campanha monopoliza o espaço noticioso e mediático e mesmo assim não devem existir mais de 100 portugueses que saibam duas medidas propostas por cada um dos maiores partidos.

E ainda assim, dizem-me que talvez não haja mesmo outra maneira de ganhar eleições a não ser esta.

Que o povo gosta é disto, de bandeirinhas, de bate-boca, de clubismo.

E se o nosso ganhar, festejamos a noite toda.

Não, neste jogo eu não tenho clube. E ninguém devia ter. Não há Benfica na política. Partidos, sim, sejam de Partidos, mas pensem-nos, criticamente, cada decisão, cada movimento. Não compreendo que se defenda uma pessoa ou uma ideia só por ser do Partido A ou B. Nem creio que isso jogue a favor dessa pessoa ou dessa ideia, que seriam bem mais apreciados se fossem criticamente apoiados.

Só admiro aqueles que, mesmo em Partidos, mantêm essa liberdade. Que debatem consigo a sua militância, a renovam e a confirmam a cada tomada de posição do partido, a cada candidato que se apresenta.

É isto que é preciso: espírito crítico. Procurar informação, ler as propostas, questioná-las, decidir e votar. As fanfarras querem-nos arrastar nos seus comboiozinhos do cacique, mas a escolha é nossa.

Isto não é futebol e, parecendo que não, é já para a semana.

Mas o que vê e ouve ou lê nada mais lhe traz senão matéria-prima de pensamento, já livre de muita impureza de minério bruto, porquanto antes do seu outros pensamentos o pensaram; mas, por o pensarem, alguma outra impureza lhe terão juntado. Nunca se precipite, pois, a aderir; não se deixe levar por nenhum sentimento, excepto o do amor de entender, de ver o mais possível claro dentro e fora de si; critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos factos; acredite fundamentalmente na dúvida construtiva e daí parta para certezas que nunca deixe de ver como provisórias, excepto uma, a de que é capaz de compreender tudo o que for compreensível; ao resto porá de lado até que o seja, até que possa pôr nos pratos da sua balancinha de razão. A tudo pese. Pense. “

Agostinho Silva, “Textos e Ensaios Filosóficos

 

Publicado por: João Marecos

Advogado estagiário. Ex-Presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa. Global Shaper

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *