Às mulheres livres

A campanha eleitoral tem-nos presenteado com muitas oportunidades para discutirmos o machismo na nossa sociedade. Bem sei que falar de machismo é hoje quase ridicularizado, mesmo nós, feministas, recorremos frequentemente ao termo “sexismo”, quase a título de eufemismo… mas suavizar o machismo é torná-lo invisível aos nossos olhos, tornamo-nos facilmente incapazes de o reconhecer. O machismo não está na moda mas invisibilizar o machismo está.

Ao Expresso, manifestei-me surpreendida com o espanto nos sites de redes sociais perante as declarações de Paulo Portas. É sabido que o machismo é um fenómeno muito democrático, todas e todos nós somos seus reprodutores, à esquerda ou à direita, mas o espaço ideológico de Paulo Portas não tem por hábito dar-lhe visibilidade ou dedicar-lhe tempo de combate. Os “conservadores” da nossa praça entregam, por norma, ao tempo, a responsabilidade da mudança, esquecendo que o tempo é apenas um palco e que sem actrizes e actores nada acontece.

Devemos indignar-nos sempre que nos reduzem à natalidade e ao cuidado, mas devemos ativar todos os sinais de alarme quando “aguentar” penosos anos é algo pelo qual se congratulam as mulheres… Nas palavras exatas de Paulo Portas, “foram os portugueses que conseguiram, com os seus sacrifícios, vencer a crise e quero fazer uma homenagem especial às mulheres que aguentaram os anos de chumbo da recessão da herança do PS…”

Às mulheres sempre foi pedido, historicamente, que “aguentassem”, em nome desse bem maior que é a “família”. Que as mulheres aguentem a violência no casamento, pela família. Que as mulheres aguentem a violência nas ruas, pela ordem social. E o que realmente transparece das palavras de Paulo Portas é este “obrigada às mulheres portuguesas, por terem sacrificado ainda mais o vosso tempo pessoal a cuidar dos filhos, dos netos, dos pais e da casa. Foi graças a vós que o descalabro não foi ainda maior e que conseguimos compensar, mesmo que só em pequena parte, a falta de dinheiro nas famílias para pagar lares, creches e serviços domésticos. Foi graças a vós, à vossa capacidade, quiçá biológica, de “aguentar” as dores e as agruras da vida, que o país continua calmo e ordeiro. Calmo e ordeiro como as mulheres. É assim que as coisas são e é assim que devem permanecer.” Até porque o tom de voz das mulheres na política, ou a sua estatura não são as características mais adequadas, ou não seriam usadas para comparações em tom depreciativo…

Helena Pinto, Ana Drago e Joana Mortágua

Em tempo de campanha, nestas ruas e praças das nossas aldeias, vilas e cidades no Distrito de Viseu, tenho falado com muitas mulheres que me dizem que não sabem ler – mas que vão votar num símbolo e, acrescentam algumas, naquele em que o marido vota. Algumas têm pouco mais de 60 anos. São as exceções à alfabetização de Salazar e são a regra de uma Democracia que não chegou a todas as pessoas. Outras sabem ler mas perguntam ao marido se quer ficar com a propaganda. Porque a propaganda não poderá ser para elas, ora essa. Por isso, há outras que fogem antes que nos aproximemos. Outras ficam com a propaganda, porque gostam de ler “essas coisas”, mesmo quando o marido lhes retira o material das mãos e nos devolve. Elas vão atrás e dizem que se eles não querem, querem elas. Depois há outras, as que desabafam sobre os assassinos que andam para aí a matar mulheres. Paramos, para ouvir. Paramos porque há, nestas mulheres, consciência de que a violência contra as mulheres é um fenómeno eminentemente político e que deve estar na agenda política. Em quantos partidos ou políticos encontramos esta consciência? E ainda há as que falam das mulheres que admiram lá no Parlamento. As que se lembram de Ana Drago no Parlamento e a querem de volta, mesmo se não sabem precisar o partido em que esteve ou em que está. As que falam destas mulheres de esquerda como outros exemplos das pessoas que as representam, mesmo que estas não sejam mulheres “de direita, e a direita é que é boa porque as coisas tortas não medram”.

As mulheres que nos falam na rua sobre política revêem-se nestas mulheres combativas, não nas mulheres “exemplares” que “aguentam” os sacrifícios. E são estas mulheres que vamos querer eleger e os homens como elas. Mulheres que sejam deputadas como o foi Helena Pinto (a deputada que mais me representou, na minha opinião), como o vai ser pela primeira vez Joana Mortágua, a quem admiro desde os meus tempos de estudante no ISCSP, que se cruzaram com os dela, e como o vai ser novamente Ana Drago, minha camarada pelo círculo de Lisboa na candidatura cidadã LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR. E, sim, há outras, muitas outras mulheres livres que, nessas listas por esse país fora, merecem o nosso voto e a nossa confiança, porque são mulheres que sabem que só uma política progressista e feminista lhes reconhece o espaço na pólis que é delas, que é nosso e que é de toda a gente, por inteiro.

Publicado por: Silvia Vermelho

Politóloga, trabalhando como profissional independente (formadora, consultora e técnica de projectos) e empresária. Realiza trabalho associativo e activista voluntário nas áreas da Igualdade de Género, Desenvolvimento Local e participação política.

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