A infantilização da mudança

Depois da Revolução Francesa de 1789, o mundo nunca mais foi o mesmo. De muitos aspectos poderíamos falar aqui. Mas há um que gostaria de destacar: o facto de as revoluções terem passado a ser possíveis e temidas.

O mundo do século XIX e de grande parte do século XX foi um lugar onde as revoluções, de facto, aconteciam e podiam acontecer. Eram possíveis. Verosímeis. Estavam, muitas vezes, ao dobrar da esquina. E, como tal, eram temidas. Temidas pelo Poder (com P grande), pelas elites, pelos patrões, pelo status quo. Dito por outras palavras, a mudança, cujo expoente máximo termina na ideia de revolução, era algo encarado, pelo establishment, com respeito e temor. A mudança era concreta e real. Para tal, muito contribuiu um processo histórico de indexação (para utilizar uma palavra em voga…) de um sentido de colectivismo social a um enorme progresso social. As grandes conquistas sociais do séc. XX (direito ao voto, direito à greve, direito a uma escola pública de qualidade, direito de acesso universal à saúde, etc.) só foram possíveis devido a um enorme sentimento de proximidade e solidariedade para com o outro, fosse esse outro o nosso vizinho, o nosso colega de profissão, ou o nosso par social. Este sentimento de colectivismo solidário tornava a mudança – e as revoluções – em algo com substância, em algo verosímil e, enquanto tal, em algo respeitado e temido.

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Depois, veio o (neo)liberalismo. Em pouco mais de 20 anos (desde os anos 80 até ao inicio do século XXI), o (neo)liberalismo, enquanto ideologia, desfrutou de uma conquista fundamental de que pouco se fala: a naturalização da separação. O (neo)liberalismo é uma ideologia que, acima de tudo, separa. Separa as pessoas umas das outras, através da alienação da figura do Estado. Separa pobres e ricos, através de escolas públicas e privadas. Separa, através de hospitais públicos e privados. Separa, através da privatização da segurança social. Separa o capital do trabalho, como tão bem demonstra Thomas Piketty. Separa o trabalho do emprego (hoje em dia, muitas pessoas que trabalham não têm propriamente um emprego, e a tendência é continuar a aprofundar este processo), como nos mostrou Guy Standing. Separa e segrega os que pagam daqueles que recebem, como nos explica Philip Mirowski. Separa, segrega, separa. Esta permanente separação, capilarmente distribuída por todos os domínios da vida pública e privada, destruiu grande parte do tal sentido de colectivismo. Desse sentido que alimentava o motor da mudança. Ao produzir uma naturalização da separação, isto é, ao torná-la natural, ao torná-la um dado adquirido, uma espécie de premissa, ou de tapete, para o debate público, o (neo)liberalismo consegue anacronizar a revolução. Consegue remetê-la para um lugar de prateleira nos manuais escolares do 7º ano. A revolução surge hoje como algo naturalmente absurdo. Como algo que pertence ao passado. Porque a separação se encarregou de transformá-la numa improbabilidade.

Hoje, em 2015, creio que grande parte do retrocesso social que vivemos se deve a um aprofundamento deste processo histórico de separação: chamo-lhe a infantilização da mudança. Depois de anacronizar a revolução, o (neo)liberalismo enceta um processo, que vivemos e que conhecemos hoje, de infantilização da mudança. Hoje, mudar tornou-se infantil. Uma irresponsabilidade. Uma coisa de crianças, ou de histéricos pouco sérios, que não “cola com a realidade das coisas” e que, portanto, deve ser encarada com a mesma condescendência paternal que um pai tem para com o seu filho. Aqueles e aquelas que pensam em mundo diferente – um mundo em que o capital é taxado, um mundo em que os gestores dos bancos não andam a brincar aos casinos com as reformas das pessoas, um mundo menos desigual com redistribuição de riqueza, um mundo em que as dívidas são renegociadas – aparecem no debate público e político como pessoas infantis, irresponsáveis e pouco sérias. Como pessoas que não querem pagar as contas. Como pessoas que apenas querem engordar o Estado para servir os seus próprios interesses. Como pessoas desajustadas daquela que é realidade das coisas. Como utópicos de uma mudança que já não existe. De uma mudança que já não assusta. De uma mudança que é infantil.

Porque já naturalizámos a ideia de que um mundo moderno é um mundo da separação. Quem quiser contrair isto, terá de começar por aqui. Por juntar. Por criar novos laços de proximidade. Por, em suma, reinventar a solidariedade.

Publicado por: André Nóvoa

Formado em História, mestre em Antropologia e doutorado em Geografia Cultural. Viveu quatro anos em Londres e actualmente divide-se entre Oeiras e Boston, onde é investigador na área das políticas públicas, transportes e sustentabilidade. Tem vindo a desenvolver trabalho na área da mobilidade humana, identidades contemporâneas, espaço e cultura.

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