Bastidores do LIVRE. “Fizemos num ano o que a saúde mandaria fazer em quatro ou cinco”

Rua Febo Moniz, Anjos, Lisboa. Estamos quase no fim de um dia quente de setembro e encaminhamo-nos para um edifício antigo, espremido entre um café típico e outro edifício ainda mais antigo. Subindo ao primeiro andar pelas escadas estreitas, encontramos Pedro Nunes, com quem conversámos esta manhã ao telefone. Mas o assessor de imprensa do Livre/Tempo de Avançar não tem tempo para cumprimentos, embora os tente transmitir: estamos em vésperas da campanha eleitoral, a primeira do partido, e o telefone não pára de tocar.

A sala onde nos instalamos para uma conversa supostamente rápida – arrumada por nossa causa, ouvimos dizer – conta com uma mesa comprida vazia e quatro paredes cheias de papéis afixados: artigos de jornal, previsões sobre os deputados a eleger em cada círculo eleitoral, rabiscos de uma agenda que já está cheia e prevê recorrer todo o país durante o mês que se segue. A arruada final, para a despedida da campanha eleitoral, vai ser feita de bicicleta, salientando aquele que é um dos pilares do partido – a ecologia. Entretanto, Pedro Nunes conta que vai contar todos os quilómetros que fizer para medir a sua pegada ecológica. A campanha ainda não começou, mas os planos estão traçados.

LIVRE Tempo de Avançar

Daniel Oliveira sentado no chão, numa ação de campanha, enquanto Rui Tavares falava sobre a crise dos refugiados

Encontramos um Daniel Oliveira visivelmente agitado, mas igualmente entusiasmado. Temos de começar pelo principal traço que distingue o Livre/Tempo de Avançar das restantes forças políticas à esquerda do PS: a disponibilidade para falar de coligações e acordos. Para Daniel Oliveira, “o tabu vai ser vencido”, pois a posição do seu partido é clara: “não é natural ter como único objetivo ser oposição”. No entanto, neste jogo de entendimentos o PS não escapa às farpas. Entre uma explicação sobre o que historicamente separa PS e PCP e o aviso de que a conversa está para acabar – estamos a atrasar uma reunião da direção, mas ainda vamos prolongar o nosso tempo naquela sala -, o antigo bloquista afirma desejar que o PS “assuma as suas responsabilidades” e aponta culpas: “o PS não tem postura de querer governar com a esquerda”. Agora, a dias das eleições legislativas, a ideia oficializa-se na página de Facebook do Tempo de Avançar, com uma proposta de entendimento entre as forças de esquerda em que se lê: “as sondagens não votam. Mas há uma coisa que hoje é evidente para todos: a direita ficará em minoria no parlamento. Cabe aos partidos de esquerda assumirem as suas responsabilidades e dizerem, ainda nesta campanha, o que pretendem fazer depois das eleições”. As propostas são claras: PS, BE, CDU e Livre/Tempo de Avançar devem comprometer-se a exigir a Cavaco Silva que o governo corresponda à maioria de deputados no Parlamento, a não negociar acordos com a PàF para viabilizar um governo e a construir um acordo de entendimento que sirva de base a um “programa comum de ação política”.

À data em que publicamos este texto, aquela que foi apelidada como “a maior sondagem das legislativas” – após um sem número de outras sondagens e tracking polls diárias – atribui um resultado de 0,8% ao Livre. Se a previsão da Marktest estiver correta, o Livre ultrapassará assim partidos sem assento parlamentar como o PAN ou o PDR de Marinho e Pinto, mas dificilmente chegará aos significativos 2,2% das Europeias de 2014, as primeiras eleições a que se apresentou. No entanto, esta candidatura é construída com dificuldades acrescidas. Para Daniel Oliveira, a equipa – que não tem estrutura profissional, sendo quase na totalidade constituída por voluntários – fez num ano “o que a saúde mandaria fazer em quatro ou cinco”: organizar convenções, órgãos, implantar o partido, “tudo ao mesmo tempo”. O grupo de comunicação é flutuante, cada lugar do país organiza as suas ações, e por isso, como o cronista remata, “há problemas de comunicação em todo o lado”. Enquanto o assessor de imprensa – o único do partido – atende mais uma chamada para a assegurar a presença de Rui Tavares na entrevista de Maria Flor Pedroso na Antena 1, Daniel Oliveira assegura que, como ex-diretor de campanha pelo Bloco de Esquerda, sabe que um profissional vale “por dez voluntários”. Não por falta de vontade, mas de disponibilidade e tempo.

Livre Tempo de Avançar Primárias

As caras do Livre, no dia em que os resultados das Primárias foram revelados

No entanto, e mesmo com os entraves que nos relatam, o orgulho é constante. No topo da pilha de jornais de campanha que a equipa amontoa estão as papoilas do Livre – mais tarde havemos de nos infiltrar na sala do fundo, cheia de materiais de campanha até cima, de marcadores a t-shirts do partido. Mostram o design – em que estiveram envolvidos apenas dois ilustradores – e comparam com o dos jornais dos partidos maiores. Por esta altura, bem antes do início oficial da campanha, já distribuíram mais de 150 mil folhetos e jornais.

A implantação de que Daniel Oliveira nos fala faz-se na rua. Uma implantação que dizem não ter por base “objetivos eleitorais”, mas antes a vontade de estar “em todo o lado”. A desenvoltura da campanha demonstrou-se há dias, numa ação de campanha em que Ana Drago, Rui Tavares e Daniel Oliveira não se fizeram rogados e entraram na cantina da Universidade de Lisboa de improviso para avisar os mais jovens de que têm novas opções na hora de marcar a cruz. Embora este não seja um público escolhido por “opção de campanha”, Daniel Oliveira admite que esse voto, juntamente com o urbano, “é o natural”, por vários motivos: da agenda à presença nas redes sociais (na altura ainda testavam snapchat e instagram), passando, como “não é politicamente correto dizer”, pelas caras mais conhecidas, as “maiores apostas”.

Não chegam a toda a gente como chegam a quem segue a conta de instagram do partido. O assessor de imprensa reclama da “miséria” que é “não se dar voz a todos numa eleição tão decisiva”, falando das dificuldades que o Livre está a enfrentar para conseguir notoriedade. Daniel Oliveira repete a sua opinião sobre  a ausência dos debates: não se admite que quem esteja bem colocado nas sondagens não tenha espaço na televisão e nos jornais. Outros partidos pequenos têm, concede, mas porque “só querem aparecer nos outdoors e na televisão… e torna-se um vício. Tem de haver um critério que parta dos jornalistas”.

As estratégias são claras, a implantação a nível nacional é um desafio. Só saberemos se foi superado com sucesso no dia 4. Mas o esforço por passar a mensagem está lá: usam “mensagens simples”, “letras grandes”, para passar um discurso que consideram “nada redundante” e um sentimento de urgência evidente. Pedro Nunes reclama sobre o slogan: “a agenda inadiável é uma expressão chata…”. Daniel Oliveira responde de rajada: “mas isso é política, pá”.

Com José Pedro Mozos

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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