Bastidores do LIVRE. “Houve debates noutros partidos sobre as nossas primárias”

Um processo marcou a candidatura do LIVRE/Tempo de Avançar: as eleições primárias abertas. Quando expressámos vontade de descobrir mais sobre este procedimento sem igual na democracia portuguesa, foi-nos unanimemente apontado um nome. David Crisóstomo era a pessoa mais apta a responder às nossas questões e não o podíamos deixar fugir, por isso descemos o Chiado a correr e chegámos à Padaria Portuguesa recém-inaugurada nos Restauradores já perto da hora do fecho da loja. Crisóstomo estava com pressa, mas assim que começou a falar connosco descontraiu e falou com ânimo do processo que acompanhou a cada passo – e inclusivamente a cada solavanco.

Primeiro, os números: nas primárias, o partido distribuiu 21 mesas de voto pelo país, para reduzir a lista de candidatos inicial de 409 para os 209 finais. Sendo o procedimento pioneiro, as regras foram adaptadas aos regulamentos da Comissão Nacional de Eleições (CNE): 15 pessoas constituiriam a Comissão Eleitoral, pelo menos 3 estariam em cada mesa de voto e 6 representariam a Comissão de Ética e Arbitragem. David Crisóstomo mostrou-se orgulhoso da forma como o processo foi conduzido: “construímos uma máquina que não existia”, embora fossem “ingénuos face à carga de trabalho” que havia pela frente. Os antecedentes nas europeias ou a experiência do PS por federações foram úteis, mas sabe que “houve debates noutros partidos por causa da nossa iniciativa”.

Livre Tempo de Avançar Primárias

O Panorama esteve presente no dia em que foram anunciados os candidatos mais votados

A contagem dos votos foi nova aventura: “a urna do Largo Camões foi fechada às 7h da manhã, contados os votos. Éramos cinco ou seis num café que se disponibilizou para nos acolher. Só nessa mesa de votos havia 515 eleitores, e cada um deles tinha de dispor 15 candidatos por ordem de preferência”. As complicações não ficaram por aqui: cada candidato podia inicialmente candidatar-se por três círculos, e só após apurados os resultados se fez a triagem, por ordem dos mais votados em cada círculo. No evento de divulgação dos resultados das primárias, na casa da Imprensa, em Lisboa, a ideia já tinha ficado clara: o processo foi moroso e tem de ser agilizado.

O processo é complicado, mas esse não é o único obstáculo no caminho para a “transparência, abertura e frescura” que o Livre/Tempo de Avançar ambiciona transmitir. David Crisóstomo reforça que a equipa é “pobre, sem fundos, toda voluntária”, o que obriga a “sacrifícios pessoais que limitam o processo”. Com o crescimento, espera-se que a situação fique mais fácil e “danifique menos” as vidas dos voluntários.

As primárias não ocorreram sem percalços internos. David Crisóstomo falou-nos com à vontade do caso de Daniel Mota, o inicial cabeça de lista da candidatura pelo Porto que passou para 11º lugar depois de terem sido levantadas suspeitas de manipulação dos votos. Daniel Mota – ou a “pessoa” em questão, cujo nome Crisóstomo nunca refere – viu-se acusado de manipular a eleição depois de terem chegado, de um total que rondou os 50 a 60 em todo o país, 46 votos postais do mesmo posto, hora e minuto… que o colocavam em primeiro lugar. A Comissão de Arbitragem ouviu as queixas e anulou os votos e Daniel Mota recorreu ao Conselho de Jurisdição e ao Tribunal Constitucional, vendo todos os apelos negados. Crisóstomo orgulha-se de ter criado “sem intenção, jurisprudência a nível nacional”. O advogado Ricardo Sá Fernandes passou a primeiro da lista do Porto.

Outra polémica que Crisóstomo aborda é a de Geiziley Fernandes, que teria sido a primeira candidata a deputada brasileira da história da nossa democracia. Não foi, porque devido a um erro do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras não se recenseou a tempo. Crisóstomo exclama: “foi tão frustrante! Por uma questão de dias impediu-se algo histórico em Portugal”. E assegura: no programa do Livre/Tempo de Avançar contempla-se o projeto de que todas as nacionalidades possam requerer o estatuto de igualdade de deveres e direitos (por agora só disponível para cidadãos brasileiros).

Fora de controvérsias, ficam as memórias de quem começou no primeiro momento a acompanhar o projeto. “Lembro-me de estar aqui no Rossio a falar de um novo partido, a distribuir folhetos. O conceito de primárias abertas, presente desde a fundação, fazia confusão, mas também era o aspeto que convencia mais gente”. E a emoção continua presente. Crisóstomo conta que o boletim do círculo da Europa tinha quase 30 candidatos, havendo apenas lugar para dois candidatos efetivos e dois suplentes. “Até me irritava!”, reclama, por entre risos. “Íamos à caixa de correio, ao apartado na Praça do Município que ainda conservamos, todos entusiasmados com cartas de todo o país e de fora.. NY, Sidney… Aos montes de Bruxelas, Londres, Barcelona. Aos molhos de Estocolmo ou da Costa do Marfim… Eram as que faziam a diferença, as que nos emocionavam”. E conclui: “a acessibilidade ao voto seduziu muita gente”.

Com José Pedro Mozos

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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