A direita portuguesa: cinco pontos

  1. Durante quatro anos, assistimos ao mais radical governo que alguma vez operou em Portugal. Foram quatros anos de sucessivos ataques à Constituição da República, com orçamentos de Estado chumbados (em vários pontos) pelo Tribunal Constitucional, constantemente chantageado durante toda a legislatura. Foram quatro de anos de quebra do contrato social, um dos pilares da nossa República, com cortes nas pensões e ataques aos reformados. Foram quatro anos de naturalização da precariedade, até na Administração Pública, com criação de emprego artificial e estágios não-remunerados, atirando milhares de portugueses para a pobreza e/ou para a emigração. Foram quatro anos de privatizações sem precedentes em Portugal, sobretudo através de capital estrangeiro, sedeado em países como China e Angola, criando monopólios privados em sectores estratégicos da economia, como a energia ou os transportes. Foram quatro anos de diálogo nulo com outras forças partidárias. Foram quatro anos de radicalização. De fractura. Foram quatro anos de um radicalismo que se desconhecia, ao abrigo de um programa de assistência financeira que, não raras vezes, pediu menos cortes e menos privatizações do que aquelas que foram feitas.

Pedro Passos Coelho Paulo Portas

  1. A direita portuguesa, coligada, teve nas últimas eleições um dos seus piores resultados eleitorais de sempre. Talvez mesmo o pior em termos numéricos. Nunca o PSD e CDS juntos tinham alcançado uma percentagem tão baixa de votos, cerca de 36%, desde que há memória de eleições livres em Portugal. A única excepção talvez seja a das eleições de 2005, nas quais a dupla PSD/CDS obteve um resultado na ordem dos 35%. Ainda assim, importa realçar que, nessas eleições, houve mais portugueses a votar na dupla PSD/CDS do que nas do passado dia 4 de Outubro (cerca de 2 milhões contra 1,9 milhões de eleitores). É verdade que a coligação foi a força política mais votada em Portugal, mas isso não significa, de todo, que a sua política e/ou ideologia tenha saído reforçada. Muito pelo contrário.
  1. Face aos sinais de desespero revelados no ponto anterior, a coligação, que nunca contactou o PS nos últimos quatro anos, jamais encetando qualquer tipo de diálogo (talvez as únicas excepções sejam a revisão do IRC e mais recentemente as negociações pós-eleitorais), deposita agora toda a “fé” (palavra utilizada, por exemplo, por Teresa Leal Coelho) numa franja de deputados do PS para lhe viabilizar o programa de governo, com base numa argumentação encoberta por uma semântica de “responsabilidade”, “moderação” e “estabilidade”. Esta semântica tem sido habilmente construída e reificada pela direita portuguesa nos últimos anos, como se fossem proprietários desses substantivos, sem nunca terem efectivamente demostrado qualquer moderação, ou vontade de adoptar uma postura mais moderada e aberta ao diálogo, terem sido irresponsáveis ao adoptar um discurso tecnocrata em que a legitimidade democrática é relegada para segundo plano (por exemplo, ao serem agentes activos da destituição do governo grego, por receio de perdas eleitorais em Portugal, mesmo quando este havia sido legitimamente sufragado pelos eleitores gregos) e de, hoje em dia, não estarem em condições de representar qualquer tipo de estabilidade para o país.
  1. A direita portuguesa considera-se dona de Portugal. De acordo com a sua visão, a governação está vedada a quaisquer outros intervenientes políticos, com a hipotética excepção de um PS que apresente um programa de governo tendencialmente liberal. Foi isto, no fundo, que nos disse Cavaco Silva na quinta-feira. Cavaco Silva, presidente da direita portuguesa, e não Presidente da República Portuguesa, disse ao país que cerca de um milhão de votos dos eleitores portugueses (o número equivale a metade dos eleitores que votaram no PàF) são uma espécie de “margem de erro”, como acontece nos inquéritos sociológicos. São um desvio padrão. Uma casualidade que não deve ser sequer equacionada. A confirmar-se o cenário de um governo de gestão PSD/CDS, nunca se assistira em Portugal a uma demissão tão grande da Presidência da República, com consequências profundas para o futuro do país, nomeadamente no que toca à sua economia. Importa sublinhar que ainda não se ouviu ninguém da direita portuguesa a criticar as palavras de Cavaco Silva, mostrando total concordância com uma Presidência de facção.
  1. O futuro só nos pode reservar algo de bom. Esta direita, inflexível, radical e pouco democrata (repare-se como tem utilizado expressões como “golpe de estado” ou “sequestro dos votos”, e ao mesmo tempo acha genuinamente que a governação é um direito exclusivamente seu – em nome dos mercados e da Europa), só pode ter os dias contados. Com ela, assistimos à moderação de forças políticas de esquerda, como o PCP e o BE, que vão surgindo, naturalmente, mais ao centro-esquerda (atente-se ao genuíno interesse em dialogar, em moderar posições, em alcançar acordos, em assumir compromissos), empurrando o PS para o centro, e atirando o PSD e o CDS para uma franja eleitoral. Assim sendo, poderemos assistir em Portugal a uma viragem política, que finalmente conceda responsabilidades governativas a partidos que, até hoje, estavam arredados do governo. Com isso, poderá estar a chegar uma verdadeira era das negociações, do diálogo e do compromisso.
Publicado por: André Nóvoa

Formado em História, mestre em Antropologia e doutorado em Geografia Cultural. Viveu quatro anos em Londres e actualmente divide-se entre Oeiras e Boston, onde é investigador na área das políticas públicas, transportes e sustentabilidade. Tem vindo a desenvolver trabalho na área da mobilidade humana, identidades contemporâneas, espaço e cultura.

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