Interior e associativismo: A coragem de lutar por um país igual

Há 5 anos atrás era apenas mais um estudante deslocado a pisar pela primeira vez as terras de Trás-os-Montes e Alto Douro. O destino apresentou-me Vila Real, e Vila Real tratou de se apresentar como uma parte importante da minha vida. Conhecia primeiro como estudante inseguro e mais tarde com a segurança de quem conhecia bem o que fazia o coração de Trás-os-Montes continuar a bater.

Aprendi à força como o desinvestimento no interior projetou uma desertificação cruel à qual ninguém pode ficar indiferente. Escolas encerradas, centros de saúde transferidos, emprego escasso e a promessa de um futuro melhor no estrangeiro ou no litoral, empurraram e continuam a expulsar milhares de pessoas das suas terras. Os últimos dados dos censos de 2011 mostram que o interior perdeu cerca de 100 mil pessoas desde a década compreendida entre 2000 e 2010, uma tendência fatídica que ao que tudo indica, sairá reforçada com a política austera dos últimos anos.

A verdade é que quem por cá passa sente na pele o sofrimento desta gente e desta terra esquecida num país a dois ritmos e duas velocidades. Se a crise assombra todos os dias, milhares de famílias no litoral, por cá ela bate-nos à porta primeiro. Sem aviso ou cautela, continuamos a ser o alarme da pobreza e o deserto de uma esperança que já não habita aqui.

Vila RealApercebi-me cedo desta realidade, e não foi passado muito tempo que a democracia me chamou. E se há chamada a que não podemos faltar é essa. Da democracia nasceu o associativismo e do associativismo o ativismo estudantil. E hoje aquilo que eram as suspeitas de um problema grave, transformaram-se nas certezas de um interioricídio claro. A asfixiação da baixa pressão demográfica tem conduzindo o interior a um ciclo vicioso, onde sem pessoas não há investimento e onde sem investimento não há pessoas.

Aqui, somos obrigados a sentir de forma diferente o associativismo. Assumimos a participação cívica como uma responsabilidade maior porque sentimos esse peso sob os nossos ombros todos os dias. O peso de sermos dos últimos que ainda ficam por cá, mas também o peso de sermos os primeiros a querer reconstruir o interior. Aqui, aprendemos a ser mais combativos, a ponderar melhor cada passo, e a pensar cada momento, porque a margem é pouca para falhar. Aqui, continuamos a não desistir da ideia de que há um ciclo para inverter. E onde há ciclos para inverter há estudantes que não baixam os braços.

A coragem por de trás do associativismo torna-o capaz de denunciar o problema sem deixar de ser parte da solução. A ponte com os habitantes, a ativação do território e a criação de mecanismos de fixação da população são missões importantes que não podemos nem queremos deixar para trás, seja através da cultura ou do desporto, da recreação ou do debate. Este é só o princípio de um trajeto que se prevê longo e repleto de adversidades, mas não desistimos deste rumo que se quer propulsor de igualdade, uniformizador de oportunidades e de um investimento consistente. Porque desistir do interior seria desistir deste país.

Publicado por: André Coelho

Presidente da Associação Académica da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (AAUTAD). Estudante de Ciências do Desporto.

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