Este não era o texto previsto

Não era isto que ia escrever. Estava já quase pronto, o texto. Começava por pedir desculpa pela ausência dos últimos tempos, pela extensão da crónica e prometia que voltaria a este espaço com maior regularidade. Falava-vos de coisas que agora, neste momento, parecem tão irrelevantes. Ia incidir na actualidade política, no pós-eleições e na possibilidade de um governo liderado por António Costa. Procurava expor muitos dos argumentos falaciosos que se têm ouvido e lido por estes dias, explicava a radicalização da direita e a moderação da esquerda, reflectia sobre as possibilidades no nosso sistema democrático, as quais ainda não fomos capazes de esgotar em 41 anos. Mas não é sobre isso que escrevo.

Paris França Torre EiffelJá esteve quase pronto antes, na Terça-Feira. Quase pronto e prestes a entregar (desculpa, Miguel), quando fui obrigado a interromper o que estava a fazer e iniciar uma corrida contra o tempo para cumprir uma outra e inesperada tarefa, terminando no fim de Sexta-Feira. Cansado, pensei para mim mesmo que o melhor era acabar o texto naquela ocasião, antes de relaxar. E eis que as notícias de última hora inundam os jornais, primeiro com um atentado, em seguida duas bombas, tiroteios, pânico e o texto perdeu-se.

Não assimilei o que aconteceu de uma só vez. A informação era escassa, o interesse muito e a estupefacção maior. Demorei uns minutos até perceber que isto estava a acontecer em Paris. Como era possível? Procuro contactar os amigos que lá moram, com dificuldade no início. Cresce a ansiedade, nenhuma notícia. Até que, finalmente, vou sabendo deles. Todos bem, felizmente, tirando o facto de ter uma amiga barricada num bar no meio de duas zonas de ataque. Horas de inquietude.

Se é verdade que os momentos trágicos trazem à tona o que de melhor há em nós, também é verdade que trazem o pior. Desde esta Sexta-Feira que me dói na alma ver e ouvir o que se tem dito um pouco por todo o lado. Em primeiro lugar, porque a diferença de cobertura mediática entre este caso e o que aconteceu em tantos outros países, desde logo a Síria mas também o Egipto, Líbano, Quénia, Nigéria, entre outros, é gritante. Em segundo, porque a confusão tem incentivado a que se misture tudo: terroristas e refugiados, integração de imigrantes e controlo de fronteiras. Pelo meio, as declarações políticas de vingança iminente não ajudam a um clima instável em que as emoções estão à flor da pele e apenas favorecem o extremismo.

Talvez o tempo nos exija uma intervenção militar mais forte, talvez os resultados do passado a desaconselhem. Não nos podemos permitir a adopção de posições absolutas num cenário necessariamente complexo, nem podemos deixar que o sucesso terrorista seja alcançado na nossa desumanização. Em todo o caso, precisamos urgentemente de fazer o nosso luto, de tirar o tempo que precisarmos para deixar o abalo passar. Parece-me óbvio que as reacções repentinas e imponderadas resultarão em erros irreversíveis e revelarão sempre o lado mais negro da humanidade, em vez da sua incomensurável bondade. Desde este dia 13, tenho perdido alguma esperança, mas talvez ainda não tenhamos perdido a oportunidade.

Publicado por: Eduardo Barroco de Melo

Mestre e Licenciado em Bioquimica. Ex-presidente da Associação Académica de Coimbra. Coordenador Nacional dos Estudantes Socialistas

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