Rússia vs Turquia. Quem conta um conto acrescenta sempre um ponto

17 segundos. 17 meros ou 17 longos segundos. Foi este o tempo que o caça-bombardeiro russo, abatido ontem pela Turquia, esteve no espaço aéreo turco. Se este período parece curto, então menor é ainda o tempo que o governo russo diz ter estado no espaço aéreo turco: 0 segundos.

As versões são opostas e Putin já classificou o caso como uma “facada nas costas” e afirmou que terá “consequências sérias”. O primeiro-ministro russo afirma que o caça russo foi abatido em território sírio e chega mesmo a condenar a Turquia como cúmplice do terrorismo.

Do outro lado, a história é outra. O presidente turco subiu ao púlpito para dizer que o avião russo entrou no espaço aéreo turco e que os seus pilotos foram avisados dez vezes em cinco minutos, enquanto se dirigiam para a fronteira entre a Síria e a Turquia. Para mais, o embaixador turco da ONU disse que na altura do ataque não se sabia a nacionalidade do avião.

Conclusão? Nenhuma. O avião abatido caiu no lado sírio da fronteira e Putin diz ter provas de que o espaço aéreo turco não foi invadido.
O governo sírio de Bashar al-Assad não perdeu a oportunidade e veio a público classificar a atitude de Ancara como um apoio ao terrorismo. Mais uma acha para a fogueira que vai deteriorando, ainda mais, as relações entre os vizinhos turcos e sírios.

Vladimir Putin

Putin classificou o episódio como “uma facada nas costas”

A situação já era polémica. Acusações, versões diferentes da mesma história… Para “apimentar” a situação, a NATO convocou de imediato uma reunião de emergência de embaixadores na qual foi declarado o apoio à Turquia, sua aliada. A justificação é simples: a Turquia tem todo o direito de proteger a sua integridade territorial. Um argumento objectivo e válido juridicamente, mas que simbolicamente pode ter mais repercussões no Kremlin do que se imagina; sobretudo se olharmos para a história e vermos que a última vez que um avião russo foi abatido por um membro da NATO foi durante o período da Guerra Fria.

Os líderes de várias potências mundiais preferiram um julgamento mais ponderado e apelaram à diplomacia. Donald Tusk e Cameron apelaram à conversação entre os dois países, ao ponto que Obama e Hollande, juntos numa reunião na altura em que a notícia surgiu, falaram na necessidade de evitar uma escalada da situação que poderá criar entraves no combate ao Estado Islâmico; e isso é coisa que não  querem.

Apesar de tudo a Rússia não voltou atrás com a sua palavra: os ataques aéreos na Síria vão continuar (mesmo aqueles junto à fronteira com a Turquia). Mesmo assim o acidente não passa em claro, com o ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu, a anunciar que Moscovo vai enviar um sistema antimísseis aéreos para a sua base aérea na Síria.

Sergei Shoigu aproveitou também a conferência de imprensa desta manhã, onde surgiu ao lado de Putin, para falar da situação dos pilotos do avião abatido. Ora, um morreu. As histórias que surgem contradizem-se, há quem fale que foi abatido em terra, outros que dizem que foi morto enquanto descia de pára-quedas. Já o seu companheiro teve mais sorte: o homem da força aérea russa foi encontrado passado 12 horas por homens do exército sírio. É dado como “são e salvo”.

Tanto Erdogan como Putin descartaram o cenário de guerra entre os dois países. O presidente turco quer discutir diplomaticamente a situação. Já a Rússia diz que vai reconsiderar as suas relações com a Turquia. Diz que o caso foi premeditado e que vai ser colocado em cima da mesa em Viena, onde vai ocorrer um encontro em que vai ser discutida a situação da Síria.

Relações Turquia-Rússia: como era antes?

Erdogan

Já com o atual presidente turco, Erdogan, as relações não têm sido fáceis

O passado diplomático entre a Rússia e a Turquia é uma linha de tempo conturbada. Ora está tudo bem, ora está tudo mal. Não recuemos muito:

No século XIX a Rússia decidiu conquistar os Balcãs; à época, era desejado o acesso ao Mar Mediterrâneo e a conquista de um ponto de estratégia por execelência. O problema? A península balcânica era controlada pelo Império Otomano (actual Turquia). A tentativa de conquista resultou numa guerra que acabou mal para as duas partes com várias declarações de independência de territórios que formavam a península balcânica.

Sem termos de recuar dois séculos, basta olharmos em revista o ano passado e estudarmos atentamente o caso da Crimeia. À primeira vista perguntamos: mas que tem a Turquia a ver com a Crimeia? Muito mais do que pensamos. Aquando da anexação da Crimeia por parte da Rússia a Turquia ficou numa posição diplomática muito delicada devido aos compromissos com os aliados ocidentais e com os tártaros-turcos da Crimeia que se contrapunham à relação económica e política com Moscovo. A situação piorou quando a Rússia decidiu expulsar da Crimeia Mustafá Jemilev – apenas o líder dos tártaros-turcos.

Não tem sido uma relação fácil, esta entre a Rússia e a Turquia, mas também já viveu tempos bons, especialmente no que toca às trocas comerciais. No final de 2014 Putin foi à Turquia oferecer mais gás e mais barato. Apesar disso, poucos meses depois estavam num impasse devido à Crimeia.

Agora estão difíceis as relações entre os dois países. Para além do recente incidente do avião russo que foi abatido, o governo russo tem sido um apoiante declarado e assumido do governo sírio, que por sua vez é um dos principais inimigos do governo turco.

Ou seja: entendem-se na economia, desentendem-se na política.

Descomplicador:

A Turquia abateu ontem um caça russo. A história tem diferentes versões: a Rússia diz que não invadiu o espaço aéreo turco e os turcos dizem que tanto invadiram, que foram avisados dez vezes. A situação está a causar alvoroço, tendo já os grandes líderes mundiais apelado à calma e diplomacia. Apesar de tudo, Putin adiou a resolução deste problema para a cimeira de Viena em que se vai discutir o Estado Islâmico. E por falar em Estado Islâmico, Putin já veio afirmar que o incidente em nada vai interferir com os seus compromissos internacionais.
Se olharmos para o passado de relações entre estes dois países vemos que este não é linear. Já mostraram ser bons parceiros comerciais, mas no que toca à política deixam muito a desejar…

ygztbykr@eelmail.com'
Publicado por: Tomás Gomes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *