Acerca do Frankenstein

Os últimos sete anos foram marcados por uma concertação política e ideológica, à escala Europeia, no intuito de responder à crise financeira global, iniciada nos Estados Unidos da América, corria o ano de 2008. Esta concertação alicerçou-se numa estratégia clara e inequívoca: resgatar o sector bancário privado, em falência ou quase-falência técnica, dando em troca os Estados Sociais do sul da Europa, sobre os quais as instituições europeias impuseram uma austeridade social e económica, assente, entre muitos outros aspectos, numa desvalorização do trabalho. Os arautos da empreitada, tão “necessária” quanto ideológica, proclamavam que era esta a única forma de imprimir competitividade aos mercados sul europeus (evitando-se, claro está, rearranjar a arquitectura da moeda única que, tanto quanto se sabe, acaba por ser mais favorável às economias do norte do que às economias do sul), obrigando tais países a redesenhar os seus modelos de Estado, a privatizarem um rol sem fim de empresas públicas (nomeadamente para capital estrangeiro oriundo dos tesouros de outros Estados soberanos) e a revisitarem, para não me socorrer de outra expressão, os seus contratos sociais. Por detrás desta opção, sustentando-a capilarmente, encontrávamos os tão-proclamados “mercados”, substantivo que, em bom rigor, se pode traduzir por “credores privados estrangeiros”. Foram eles que, em grande medida, escolheram e protegeram esta concertação.

Taxa de Juro Dívida PúblicaO problema é que a estratégia foi um desastre. As dívidas dos países em “ajustamento” nunca estacaram e, pior ainda, dispararam. As economias do sul da Europa continuaram sem significativos aumentos de competitividade. Ou de produtividade. A isto, ainda se juntou um desemprego estrutural, principalmente jovem, que faz corar qualquer Estado que se diga moderno e progressista. Os PIB nacionais não aumentaram. Na verdade, até desceram. Factos estes ao qual se junta uma emigração em massa de portugueses, espanhóis e gregos, de uma geração altamente qualificada, para os países do centro Europeu. Perante as evidências, dão-se sintomas. Em Portugal, Vítor Gaspar demite-se em 2013, admitindo que o seu programa falhara. Poucos meses depois, Christine Lagarde, do FMI, diz que os ajustamentos ficaram totalmente aquém dos seus objectivos. Cerca de um ano depois, Vítor Bento, na altura conselheiro de Estado e um dos rostos da política de ajustamento, pensa isto. Estes serão apenas alguns dos exemplos. A página foi, de facto, virada e são os próprios autores do livro que o reconhecem. Hoje, poucos são os que ainda acreditam na solução austeritária, e nas políticas que lhe estão subjacentes.

Os mercados criaram o seu Frankenstein. O ajustamento é uma horrenda invenção sua. Nem todos os criadores, e são muitos, o conseguem admitir, por receio de descrédito na vida pública e política, mas a verdade é que o monstro cresceu ao ponto de se tornar intoleravelmente incómodo, para não dizer insuportável. Não o conseguindo matar, também já com ele não conseguem viver. Tal como o jovem cientista Victor, personagem de Mary Shelley. E é por isso que os mercados, hoje, não reagem ao novo governo de António Costa. Os mercados já não querem nem Passos nem Portas, os operários do monstro. E a maneira de se livrarem deles é manterem-se quietos, calados e serenos. Não haja a menor dúvida: perante o quadro político e económico internacional, se os mercados e a Europa não quisessem este governo em Portugal, ele dificilmente existiria. Basta recordar a Grécia. Terá sido a última gota de água. Um canto do cisne. Com uma diferença significativa: é que o Partido Socialista está ancorado numa internacional europeia com peso histórico, simbólico e político, visto que foi essa internacional que, em grande medida, produziu a integração Europeia, pelo menos em Portugal.

E, portanto, tal como Victor não conseguiu matar a sua horrenda criação, também hoje os mercados não podem assassinar publicamente Passos e Portas, porque foram eles que, em bom rigor, os mandataram. Foram eles que os tornaram os operários do horror. Fazem-no, então, pela calada. Fazem-no numa não-reacção. Fazem-no não fazendo nada. Mostrando serenidade perante um quadro de inversão de políticas. Os credores sabem-no bem. A única maneira de reaverem o seu dinheiro é invertendo políticas. Mesmo que não o consigam admitir, de forma frontal, franca e honesta. É mesmo tempo de mudar. Para as instituições europeias, é tempo de, ainda que envergonhadamente, aceitar o virar de página. São os próprios mercados que o profetizam.

Publicado por: André Nóvoa

Formado em História, mestre em Antropologia e doutorado em Geografia Cultural. Viveu quatro anos em Londres e actualmente divide-se entre Oeiras e Boston, onde é investigador na área das políticas públicas, transportes e sustentabilidade. Tem vindo a desenvolver trabalho na área da mobilidade humana, identidades contemporâneas, espaço e cultura.

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