Debate histórico em Espanha confirma a força dos partidos menos tradicionais

debate espanha el paísO debate organizado pelo “El País” que teve lugar esta segunda-feira em Espanha foi um debate histórico. A apenas três semanas das eleições legislativas, este encontro marcou a política espanhola por diversas razões: em Espanha a existência de debates em períodos de pré-campanha não é muito habitual; Mariano Rajoy, Presidente do Governo espanhol e candidato pelo PP, recusou participar neste evento; e ainda o facto de o debate ter sido transmitido via internet e não em canais televisivos. Os participantes foram Pablo Iglesias (Podemos), Albert Rivera (Ciudadanos) e Pedro Sánchez (PSOE). Juntamente com o PP, são estas as forças partidárias que compõem o Top4 das intenções de voto nas mais recentes sondagens. Nota ainda para o facto de forças políticas com assento parlamentar, como a Izquierda Unida, não terem sido convidadas para participar.

Ao longo de quase duas horas, os representantes destes três partidos discutiram propostas, trocaram acusações e tentaram convencer o eleitorado que assistiu ao debate. Os temas que foram abordados foram cinco: combate ao terrorismo, economia, políticas socias, unidade do território espanhol e ainda a corrupção. Os três candidatos debateram de pé, atrás de púlpitos e perante a ausência marcada de Rajoy, que tinha o seu púlpito vazio para assinalar a recusa do convite para participar no debate.

Este foi um debate bastante dinâmico, onde o tom foi sempre cordial, apesar de alguns momentos de crispação naturais, e com várias propostas discutidas ao longo do evento.

Economia e Políticas Sociais geraram desacordos

O primeiro e mais curto tema foi o combate ao terrorismo e gerou logo desacordo. Rivera e Sánchez concordaram com uma eventual aliança com a França para retaliar o Estado Islâmico ainda que esse feito implicasse a participação numa guerra. Os dois líderes sublinharam a importância de ter a aprovação do parlamento para que se pudesse levar a cabo essa ofensiva, cumprindo sempre com as normas internacionais. Já Pablo Iglesias preferiu recordar que os bombardeamentos no Afeganistão, no Iraque, no Iémen e na Síria não tiveram bons resultados e propôs que se cortasse o financiamento a este tipo de grupos em vez de atacar os países onde se escondem.

Seguiu-se o tema sobre economia. Os candidatos apresentaram as diferentes visões que têm para solucionar os altos debate espanha el país 2níveis de desemprego e para melhorar a vida dos espanhóis a nível de rendimentos. A crítica aos últimos quatro anos de governação do PP foi transversal a todas as intervenções mas foi o único ponto em que os três candidatos concordaram. O contrato único defendido pelo Ciudadanos foi fortemente criticado por Sánchez e Pablo Iglesias por ser uma medida demasiado liberal e que, segundo os dois líderes, apenas vai “prolongar a precariedade” e não combatê-la. Albert Rivera apresentou ainda a sua intenção de reduzir o IRS e de reformar a lei laboral.

Pablo Iglesias também defendeu a descida de um posto: do IVA. O líder do Podemos considera que se trata de “um dos impostos mais injustos” por não ter em conta os diferentes rendimentos das famílias. O politólogo e professor propôs ainda taxar as transações financeiras e acabar com a reforma laboral iniciada pelo Governo de Rajoy. Pedro Sánchez preferiu recordar que as grandes conquistas laborais e do estado de bem estar foram alcançadas por governos socialistas e sublinhou a ideia de que o PSOE é o partido que tem o projecto mais “claro e progressista” a nível laboral. A resposta veio do líder do Podemos que acusou os socialistas espanhóis de terem um face na campanha e outra na governação.

Depois do primeiro de três intervalos, os candidatos entraram no tema das políticas socias. Neste tema, Albert Rivera foi acutilante no ataque a Pedro Sánchez, que propunha acabar com uma série de políticas implementadas pelo Governo do PP, ao afirmar que “não basta revogar o que o PP fez: é preciso apresentar propostas”. O líder socialista acusou o Ciudadanos de não querer acabar com as más políticas do PP e deu como exemplo os copagamentos na indústria farmacêutica. O clima começou a aquecer entre os dois líderes e foi Pablo Iglesias quem acabou por pôr água na fervura ao pedir que o tom voltasse a ser cordial. De seguida, apresentou as suas propostas, entre as quais se encontrava um programa para potenciar o regresso dos “cérebros” espanhóis que tiveram de emigrar por não terem condições de trabalho suficientes em Espanha. Os três concordaram ainda em reformar o voto dos estrangeiros por considerarem o atual sistema demasiado burocrático.

Independência da Catalunha

Este é um dos temas do momento em Espanha e os três candidatos têm posições diferentes quanto à sua resolução. Catalunha BarcelonaAlbert Rivera – que, tal como o seu partido, é catalão  – defende a criação de uma lei anti-independência; Pablo Iglesias propõe a realização de um referendo sobre a independência da Catalunha e Pedro Sánchez fala numa revisão constitucional que permita redesenhar os poderes que as Comunidades Autónomas de Espanha têm.

Neste tema os líderes partidários trocaram acusações de parte a parte e a crispação acentuou-se. Todos defenderam as suas posições mas rapidamente passaram ao ataque das propostas dos adversários. Albert Rivera criticou a atuação de Artur Mas à frente do Governo autonómico da Catalunha e disse que “no dia 20 de Dezembro [data das eleições legislativas espanholas], é importante que se vote Ciudadanos para que dizer a Mas que já basta”. Pedro Sánchez preferiu atacar a proposta de referendo defendida pelo Podemos ao dizer que não existe nenhum estado democrático que defende na sua constituição “o direito de autodeterminação”. Pablo Iglesias respondeu relembrando o referendo que existiu na Escócia sobre a independência.

As acusações continuaram. Sánchez e Rivera protagonizaram o momento mais quente do debate, quando o líder do Ciudadanos insinuou que o socialista era um independentista. Pedro Sánchez não gostou e relembrou que não considera que Rivera “seja de extrema direita” apenas porque o  Ciudadanos se coligou com um partido de extrema direita num ato eleitoral passado.

A Corrupção marcou o fim do debate e o início do rescaldo

A temática da corrupção foi ainda abordada pelos três intervenientes. Todos propuseram medidas para acabar com a corrupção na política espanhola mas rapidamente voltou a troca de acusações. Os três líderes políticos apontaram o dedo aos seus adversários, acusando-os de terem compactuado com personalidades ou forças que já haviam sido indiciadas por suspeitas de corrupção.

Na conclusão do debate cada um dos intervenientes teve direito ao seu “minuto de ouro”, onde falavam diretamente aos espanhóis. Rivera apelou ao voto no seu partido e defendeu “um projeto comum” para Espanha; Pablo Iglesias recusou apelar ao voto por considerar que se trata de um velho estilo de fazer política e pediu para os eleitores “lerem os diferentes programas” para tomar a sua decisão; e Pedro Sánchez relembrou que “ao longo dos últimos 37 anos” foi o PSOE quem melhor governou e considerou que já tinham sido dadas provas da sua capacidade para liderar o país.

Após ter terminado, o debate foi automaticamente alvo das mais diversas análises. Nas redes sociais as reações foram imediatas. No site do “El País” estava disponível uma sondagem para os internautas poderem votar no vencedor do debate. Pablo Iglesias foi o preferido dos leitores do diário espanhol com 47,01% dos votos. Em segundo lugar surgiu em Albert Rivera com 28,90% e em terceiro posto ficou Sánchez com 24,09% do total dos votos. Com este resultado, fica transformada em certeza a esperança que os partidos não tradicionais tinham de romper com o bipartidarismo espanhol entre PP e PSOE.

As eleições legislativas espanholas estão marcadas para o próximo dia 20 de Dezembro. Uma das mais recentes sondagens atribui um empate técnico a três partidos: PP, Ciudadanos e PSOE, todos na casa dos 22% das intenções de voto. Em quarto lugar surge o Podemos com pouco mais de 17%. No entanto, o partido de Pablo Iglesias tem vindo a crescer nas últimas semanas e ameaça não facilitar a vida aos seus adversários.

Descomplicador:

Em Espanha, a noite desta segunda-feira ficou marcada por um debate a três no âmbito das eleições legislativas do próximo dia 20 de Dezembro. Organizado pelo jornal “El País”, a transmissão ocorreu por via digital. Perante o púlpito vazio de Rajoy, que recusou aceitar o convite para participar no debate, estiveram em palco Pablo Iglesias (Podemos), Albert Rivera (Ciudadanos) e Pedro Sánchez (PSOE). Abordaram-se cinco temas: terrorismo, economia, políticas sociais, unidade territorial e corrupção. No fim, os leitores do diário espanhol votaram para nomear um vencedor: Pablo Iglesias com 47,01% dos votos. Em segundo ficou Albert Rivera, confirmando assim a força dos novos partidos em Espanha.

Publicado por: José Pedro Mozos

23 anos, natural de Lisboa. Aos dezasseis anos percebeu que a sua vocação era o jornalismo. Licenciado em jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós graduado em Jornalismo Multiplataforma pela FCSH - Universidade Nova de Lisboa. Entre março de 2016 e junho de 2017 passou pela SIC Notícias. Faz parte da editoria de política da Revista VISÃO desde julho de 2017. Acredita no jornalismo como sendo um dos pilares de qualquer democracia. Atualmente, faz parte do Conselho Editorial do Panorama.

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