Stiglitz lotou a Fundação Gulbenkian para falar dos “mais ricos e dos mais pobres”

O grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian tem capacidade para 1228 pessoas. Tirando algumas sobras nos lugares destinados à imprensa e aos convidados, os lugares “comuns” estavam lotados para ouvir o Prémio Nobel da Economia de 2001, Joseph Stiglitz. O norte-americano conduziu a alocução como mandam os livros: piadas ligeiras, exemplos que ilustram a realidade e números que ficam no ouvido. A desigualdade foi o tema da tarde.

Joseph StiglitzA abertura da sessão coube ao presidente da Fundação, Artur Santos Silva que começou por recordar a primeira passagem de Stiglitz por “esta casa”, há 15 anos atrás. Stiglitz pegou no mote e disse esperar que nos próximos 15 anos “as coisas não piorem tanto como pioraram nos últimos 15 desde que cá vim”. Primeira risada na sala.

Joseph Stiglitz conquistou o Prémio Nobel da Economia, puxando a “politica aos números” e o combate às desigualdades tem sido o seu cavalo de batalha dos últimos anos, tema que em Portugal “cai que nem ginjas”. As críticas ao modelo norte-americano sucedem-se umas atrás das outras, questionando ainda Stiglitz o porquê de tanto país seguir os Estados Unidos, quando o modelo já provou ter falhado e ter criado ainda mais desigualdades, acrescentando ainda que “se todos beneficiassem com o dinheiro que vai para os 1% mais ricos, todos estaríamos melhor nesta altura”.

Para Joseph Stiglitz a classe média deve ser o motor de um país, deixando um elogio ao período em que os Estados Unidos da América procuraram criar essa classe, através da aposta na educação e na ciência, modelo que defende para o desenvolvimento de um país e que considera ter sido um dos tempos prósperos do país. Nos últimos anos, o ex-assessor de Bill Cliton criticou o facto da recessão económica ter acabado “apenas para os mais ricos, que conquistaram 91% da receita”.

O economista disse que é “curioso os jornais mostrarem os casos de sucesso, porque os jornais não escrevem sobre coisas normais”. Segunda risada na sala e mais um ponto a favor da redução das desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres, numa sociedade em que nos últimos anos, “os CEO’s ganharam 300 vezes o salário de um funcionário base”.

O facto de Joseph Stiglitz ter sido presidente do Conselho de Assessores Económicos de Bill Cliton e ter estado sempre envolvido na politica americana através dos seus conselhos económicos, dão ao Nobel de 72 anos um conjunto de episódios que relatam a realidade da politica norte-americana, criticando a falta de transparência na maioria das actividades politicas americanas.

Joseph StiglitzPara Stiglitz as doações a partidos politicos não são “caridade mas sim um investimento, e mais seguro do que os investimentos financeiros, porque os políticos têm retorno”. Antes de concluir, Stiglitz criticou ainda a estratégia económica de Ronald Reagen, que classificou de “desastre” e terminando por onde começou: “se foi assim tão mau porque é que tantos quiseram seguir os Estados Unidos”.

Na fase dedicada a perguntas e respostas, Stiglitz teve ainda tempo para criticar a austeridade, por ser uma solução que não olha para o quadro por completo, situação que tinha já criticado anteriormente ao dizer que “as escolhas não são uma questão de riqueza, ou são boas ou más”, gerando resultados independentemente da dimensão económica do país. Para o Nobel de 2001, a Europa tem ainda o problema da Zona Euro, que dificulta as alterações necessárias, mas que espera que corrija os seus problemas em breve.

O TTIP, o tratado transatlântico de comércio ficou guardado para o fim, mas não foi por isso que recebeu menor atenção por parte do economista. Stiglitz arrasou o acordo, relatando até o caso do Brasil que se recusou a assinar e o caso da África do Sul que quer resignar ao acordo. Para Joseph Stiglitz, o TTIP “está a mudar as regras no sentido totalmente errado”, dizendo que “não é uma parceria mas uma ditadura que cria mais desigualdades”. O economista norte-americano pediu à União Europeia que ponha fim a este tratado que “é dificil de descrever o tão mau que é” e que “diminui a democracia”.

No final de contas, o que conta “não é economia. É política. Conseguiremos alcançar as mudanças políticas que levem a uma sociedade igualitária?”.

Descomplicador:

O Prémio Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, ex-assessor de Bill Cliton, esteve esta tarde na Fundação Calouste Gulbenkian, onde encheu mais de mil lugares para falar sobre a sociedade desigual dos dias de hoje e sobre quais os caminhos para combater estas desigualdades, num discurso onde abordou a austeridade na Zona Euro, a sua passagem pela administração norte-americana, as opções económicas de Reagen e ainda o polémico TTIP.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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