António Costa: os meios e os fins até ao Governo hoje legitimado

Em Julho de 2015, Miguel Marujo e Octávio Lousada Oliveira, jornalistas de politica do Diário de Noticias, lançavam o livro intitulado “António Costa: Os meios e os fins do líder socialista”, num mês onde o PS ainda surgir à frente nas sondagens, onde o PCP aparecia com o dobro da percentagem do Bloco de Esquerda e onde o PDR e o LIVRE eram dados quase como certos no Parlamento.

Biografia António CostaCinco meses depois António Costa veio mesmo a tornar-se Primeiro-Ministro após um acordo parlamentar com um Bloco de Esquerda que ficou à frente do PCP e com um PCP que ainda assim reforçou o seu grupo parlamentar com mais um deputado.

Sem lhes serem conhecidos poderes de futurologia, Miguel Marujo e Octávio Lousada Oliveira escreveram na altura: “Não há um cenário claro de maioria absoluta, antecipando um período eleitoral em que tudo se joga no Parlamento”. Check. “Sem a maioria clara pedida por António Costa”. Check. “O último capitulo deste livro está em branco, ficando assim aberto à participação dos (e)leitores – serão eles que escreverão também essas páginas sobre António Costa no dia das eleições legislativas, nas mesas de voto”. Bom, esta última parte já não se registou na totalidade, com o líder socialista a chegar a Primeiro-Ministro apenas 50 dias depois das eleições de 4 de Outubro e depois de rondas negociais que se julgavam intermináveis.

Ainda na senda de futurologia dos dois jornalistas, várias ideias que foram lançadas e documentadas ao longo das páginas desta “biografia não autorizada”, falavam já em características que se verificaram bem presentes no estilo de liderança de António Costa.

O livro começa com o episódio do ataque à liderança do Partido Socialista por parte de António Costa, onde o agora Secretário-Geral afirmou que “se agora dividir o partido, dois meses depois ele está unido”. Apesar de os timmings não se terem verificado, António Costa conseguiu calar até os mais críticos que ainda tentaram surgir dentro do Partido Socialista, como Sérgio Sousa Pinto e Francisco Assis e com a ajuda de Cavaco Silva, todos se uniram à volta da solução que Costa começou a delinear no dia seguinte às eleições legislativas.

O caminho que começou aos 14 anos

António Costa“Jotinha” desde 1975, onde entrou pelas mãos de Alberto Arons de Carvalho, o pragmatismo de António Costa sempre foi reconhecido quer dentro da JS quer dentro do PS, o que levou a assumir o primeiro cargo nacional em 1978 para a partir daí serem quase inexistentes os períodos em que não ocupou nenhum lugar na estrutura socialista.

O capitulo dedicado à passagem de António Costa pela Juventude Socialista é aliás mais um dos momentos curiosos deste livro. Margarida Marques, José Apolinário, Ascenso Simões, Eduardo Cabrita, Porfirio Silva, Eduardo Cabrita e outros foram nomes que partilharam os momentos da juventude de António Costa dentro da JS, nem sempre do mesmo lado é certo e que agora aparecem novamente ao lado do Secretário-Geral, mais de 30 anos depois.

José Sócrates e António José Seguro cruzaram-se também com António Costa nos tempos de JS, com o agora Secretário-Geral a ter apoiado até uma lista onde estavam integrados os dois Secretários-Gerais anteriores à sua liderança.

O modelo Sampaísta e a importância das autarquias

O percurso de António Costa é comparado ao de Jorge Sampaio pelo facto de ter “saltado” da Câmara de Lisboa para um cargo de maior dimensão, embora Sampaio tenha ido para Belém e Costa para São Bento. Ainda assim e apesar de António Costa ver em Sampaio um modelo politico, os dois tiveram também opiniões divergentes ao longo dos últimos anos.

António Costa Jorge Sampaio Almeida Santos Vera Jardim Manuel AlegreO trabalho autárquico é no entanto o preferido de António Costa, que segundo o livro “não gostou de desempenhar as funções de Ministro dos Assuntos Parlamentares” excepto quando pôde «pôr as mãos na massa» com a organização da Expo98.

São aliás estórias acerca das campanhas autárquicas e das conquistas autárquicas de António Costa que revelam maior felicidade por parte do Secretário-Geral e de onde se destacam a corrida entre o Ferrari e o Burro para a Câmara de Loures e mais tarde a corrida entre Pedro Couceiro, piloto, Rui Sousa, ciclista e o António Costa, de metro para provar a utilidade do investimento nos transportes públicos em 2009 frente a Santana Lopes.

Ainda na vertente autárquica não se pode ignorar a “menina dos olhos” de António Costa: a requalificação da zona do Intendente, onde montou o seu escritório, requalificando toda a zona, uma medida que ainda hoje classifica como a melhor que tomou na sua vida politica.

A “amizade” com José Sócrates

José Sócrates não podia faltar à chamada numa biografia sobre António Costa, ainda para mais quando o ex-Primeiro-Ministro voltou a ser chamado à ribalta com a sua detenção. A obra de Miguel Marujo e Octávio Lousada Oliveira dá conta de um desprezo de José Sócrates face a Costa, a quem não vê capacidade de liderança suficiente para conquistar a maioria do eleitorado. (Outro ponto que se verifica meses mais tarde).

José Socrates António CostaDurante a sua permanência como nº2 de José Sócrates enquanto Ministro de Estado e da Administração Interna, António Costa é apontado como reformista, com especial incidência na reforma das forças policiais portuguesas, que teve de deixar cair, bem como o facto de ter sido um dos primeiros responsáveis políticos a bater-se pelo “fim do tabu da união de freguesias”.

O capitulo seguinte, e mais “contemporâneo” aborda então a saída de António Costa para a Câmara de Lisboa, desafiado por José Sócrates, e segundo o livro por “já em 2005 não querer ser Sócrates”. Na verdade, António Costa tinha entrado de pé atrás no Governo de Sócrates, tendo saído de vice-presidente do Parlamento Europeu para a Administração Interna, mas tendo como objectivo os Negócios Estrangeiros.

Assim, contra a vontade dos seus Secretários de Estado, onde se inclui o actual Ministro Adjunto, Eduardo Cabrita, partiu para a capital, que se viria a tornar a sua grande montra politica que o conduziu até São Bento.

O caminho final até São Bento

A 29 de Setembro de 2013, dia em que renova a maioria absoluta para a Câmara Municipal de Lisboa, a pergunta a que mais procura escapar é se vai cumprir o mandato até ao fim. Não iria, cedendo a liderança para Fernando Medina.

A ruptura de António Costa com António José Seguro deu-se à margem de um evento de homenagem a Maria José Nogueira Pinto, na presença de Paulo Portas, Rui Machete, Pires de Lima, Ferreira Leite e até de Marco António Costa. Aí dá 24h ao PS para digerir a “vitória de Pirro”, expressão de Mário Soares, abrindo assim as hostilidades que o conduzirão até à liderança do Partido Socialista.

O processo das primárias é conhecido de todos, até à vitória final, folgada de António Costa, depois de uma campanha agressiva entre Costa e Seguro, onde o ex-Secretário-Geral chegou a ganhar um debate para surpresa de muitos, para não dizer de todos os militantes socialistas, que viam em António Costa uma melhor figura para ser a cara do Partido Socialista contra o PSD e o CDS.

O futuro que já é presente

António CostaA ultima parte da biografia do agora Primeiro-Ministro dedica-se ao futuro que agora é já presente. Quase tudo o resto estava já escrito: o problema com as presidenciais, que acabaria por se tornar numa “não-questão” e a descida da TSU, que acabou por deixar cair por pressão dos partidos da esquerda, tal como estava também escrito neste livro.

A Miguel Marujo e a Octávio Lousada Oliveira só faltou escreverem que António Costa iria assinar um acordo com o PCP, o Bloco e os Verdes, porque quase tudo o resto estava “cenarizado”: a união que conseguiu dentro do PS, o “problema” eleitoral que se iria pôr, o “pragmatismo” de Costa na acção politica e até as críticas de Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes que o acusavam de “aventureirismo”, o mesmo adjectivo que Passos Coelho utilizou hoje, passando pelo conjunto de nomes que acompanham Costa desde os tempos da JS com 14 anos.

A estes dois jornalistas do Diário de Noticias ninguém os pode criticar quando se falar de António Costa e eles disserem: nós dissemos!

Agradecimentos à matéria-prima edições

Descomplicador:

Miguel Marujo e Octávio Lousada Teixeira do Diário de Noticias escreveram em Julho uma biografia de António Costa onde estavam já descritos alguns dos cenários que se viriam a verificar cinco meses depois no dia em que o executivo de António Costa foi legitimado no Parlamento.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *