Paris ainda é uma festa? Hemingway voltou a lembrar que sim!

“Se tiver tido a sorte de ter vivido em Paris na juventude, ela o acompanhará sempre até ao fim da sua vida, vá para onde for, porque Paris é uma festa móvel”.

A frase é do escritor Ernest Hemingway e está presente no livro “Paris é uma festa” revelando bem aquilo que a capital francesa representou para um dos ícones maiores da literatura. Nas últimas semanas, o livro “Paris é uma festa” tem-se tornado o símbolo cultural da cidade após os atentados terroristas de 13 de Novembro.

Paris é uma festa Ernest Hemingway 2O livro do Prémio Nobel da Literatura tem esgotado nas livrarias parisienses após os atentados por toda a cidade, tendo sido tomado como símbolo da resistência cultural da cidade a um ataque que foi também dirigido à cultura, com a tragédia que decorreu na sala de espectáculos Bataclan.

O “movimento” começou de forma inesperada, com uma declaração televisiva de uma cidadã anónima de 77 anos que disse em frente às câmaras que “para além de trazer muitas flores para junto dos memoriais é importante ler várias vezes o livro de Hemingway Paris é uma Festa, porque somos uma civilização muito antiga, e elevaremos sempre os nossos valores”.

Esta não é a primeira vez que uma grande obra do passado é assumida como “símbolo cultural” de uma tragédia actual. Após o 11 de Setembro, o “Agente Secreto” de Joseph Conrad representou “amiúde” os atentados, “visto representar com fidelidade uma determinada vivência mental do terrorismo”, refere Mário Avelar, professor catedrático em estudos ingleses e americanos.

Ainda assim, refere o professor universitário, “o universo mental do terrorismo então em causa, de raízes anarquistas e europeias, é distinto daquele com que nos confrontamos hoje em dia, o qual é, importa ter presente, fundamentado numa leitura ideológica muito concreta”.

Mais recentemente, após os atentados ao Charlie Hebdo, o “Tratado sobre a tolerância”, de Voltaire, publicado em 1762, foi considerado como uma obra de “leitura obrigatória” para responder aos terroristas islâmicos.

Este apelo às memórias do que de melhor Paris deu à cultura mundial, tornou assim o livro do escritor norte-americano no símbolo da resistência cultural face aos radicais do Estado Islâmico, que também noutros locais têm desrespeitado a história e a cultura das civilizações que atacam, onde se destaca o ataque bárbaro à cidade de Palmira.

Ernest Hemingway passou por Paris em 1920, integrando o grupo de escritores que a sua “mentora”, Gertrude Stein apelidou de “geração perdida” e que deu à Europa e ao mundo um dimensão cultural e estética que permanece válida até aos dias de hoje, como esta francesa de 77 anos fez questão de recordar.

Mário AvelarMário Avelar, diz ao Panorama que “as vanguardas não tinham, então, uma vivência tão intensa nos Estados Unidos”, acrescentando que esta vivência em Paris teve inicio com o “primeiro contacto do grande público com as vanguardas estéticas europeias, a qual ocorrera naquele evento que ficou conhecido como Armory Show, onde, entre outras, esteve presente a obra de Amadeu Souza-Cardoso”, pintor português.

Foi o facto de terem vivenciado em Paris o seu maior crescimento enquanto escritores e intelectuais, que levou nomes como Ernest Hemingway, F. Scott Fiztgerald e Ezra Pound ficarem a dever tanto da sua produção cultural a Paris, e ao mesmo tempo, a contribuírem também para o estatuto de Paris como “coração” da cultura mundial. Assim, “Paris é uma festa” é o “reflexo daquilo que escritores, artistas e intelectuais americanos experienciaram num microcosmo estético” que era a capital francesa, segundo refere ainda Mário Avelar.

Paris foi assim o epicentro de uma produção cultural fora do comum e que “gerou uma dinâmica criativa que, provavelmente, só teria paralelo na Nova Iorque do pós-guerra, devido à chegada de inúmeros artistas e agentes culturais europeus”, segundo o professor universitário contactado pelo Panorama. No entanto, para Mário Avelar, Paris e a “geração perdida” não deixaram nada a dever um ao outro, isto porque se “foi muito importante o acolhimento que expatriados americanos, de maior ou menor duração, tiveram em Paris” foi também importante o “registo que eles nos legaram desse mesmo acolhimento”.

Ainda que Ernest Hemingway tenha muitas obras inspiradas naquilo que foi a sua vivência em Espanha, onde viveu durante quatro anos, mas o livro “Paris é uma festa”, publicado já a titulo póstumo, revelou o que o Nobel norte-americano ficou a dever artisticamente à capital francesa, tornando-se agora um símbolo popular da resistência cultural aos ataques dos terroristas ligados ao Estado Islâmico.

Pode Paris recuperar a importância cultural do passado?

Este “orgulho ferido” que Ernest Hemingway relembrou aos franceses remete para o Paris dos “loucos anos 20”, mas será que hoje em dia a capital francesa assume ainda esta importância cultural?

Desde 2000 surgiram de França dois Prémios Nobel da Literatura. Em 2008, Le Clézio arrecadou o galardão e em 2014 foi a vez de Patrick Modiano. Ainda assim, para Mário Avelar, a importância cultural de Paris reside mais na “sua dimensão enquanto memória, do que, necessariamente, pelo facto de ser o espaço de inovação estética, pois esse encontra-se disseminado por muitos outros microcosmos europeus, muitas vezes inesperados”.

Prova disso são os exemplos de Orhan Pamuk, que em 2006 se tornou o primeiro turco a receber o Nobel da literatura, ou o exemplo mais recente, Svetlana Alexijevich, que conquistou o galardão este ano, oriunda da Bielorrússia, um país com 24 anos.

Assim, apesar de Paris não ser já o centro cultural com a importância dos anos 20, e de serem ainda os grandes autores do passado a inspirarem a “revolta cultural” actual, Mário Avelar refere que apesar de a Europa ter sido o “lugar onde utopias várias geraram ovos de serpente que, durante o século XX, conduziram às mais tenebrosas formas de vivência distópica, como o nazismo e, aquele que Mário Soares considerou ser um “colossal embuste“, o comunismo”, esta é ainda assim “o espaço onde, ao longo de muitos séculos, se foi sedimentando uma determinada tradição de pensamento e de vivência cívica única, na qual o indivíduo não é algo de descartável”.

Óscar Wilde disse que “quando os bons americanos morrem, vão para Paris”. Secalhar é por isso que, embora Ernest Hemingway tenha morrido já há 53 anos e que, apesar do livro “Paris é uma festa” ter sido publicado há 51 anos, o Nobel da literatura “regressou” a Paris, para relembrar os franceses e explicar ao mundo que “Paris não tem fim, e as recordações das pessoas que lá tenham vivido são próprias, distintas umas das outras. Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como o façamos, não importa que mudanças se tenham operado em nós ou na cidade, acabamos por voltar a ela. Paris vale sempre a pena (…)”.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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