O sério

O sério apareceu por aí, um dia, sem que se soubesse muito bem de onde vinha. Mas, afirmando-se sério, houve quem o engolisse. Afinal, em Portugal, nada cai melhor do que um sério. Por isso, não demorou muito tempo até que o sério, com programas pouco sérios e seriamente incumpridos, se tornasse o nosso sério.

E então o sério evoluiu e tornou-se ainda mais sério: afinou a voz de tenor, colocou uns óculos sérios, penteou um pouco mais o cabelo e anunciou: a partir de agora, todo o país seria mais sério. Os antecessores tinham sido pouco sérios e havia uns amigos lá fora, mais sisudos do que sérios, à espera de ver como nos portávamos. E o nosso sério lá nos disse: precisamos de sacrifícios para provar que somos sérios, custe o que custar, pois o mal já estava feito, antes dos tempos de seriedade.

Pelo meio, o sério, que até nem era conhecido por ser especialmente religioso, pelo menos até há pouco tempo, teve um confronto com o Espírito Santo. E logo surgiram outros sérios que diziam “Estão a ver como ele é sério? Nem sequer ajuda os tipos dos bancos! Isto é que é um homem a sério!”. E o nosso sério, com a sua ex-professora e o amigo do Banco de Portugal, também eles muito sérios, disseram-nos que nunca pagaríamos aquela factura. O que foi pouco sério, como sabemos.

Passos Coelho

O sério já não é o nosso sério, mas nem por isso deixou de ser sério. Quase que o tiravam do sério, é certo, quando lhe explicaram como funcionava a democracia. Mas pior ficaram os portugueses quando souberam que o sério lhes tinha deixado uma prenda muito pouco séria, de seu nome Banif. Vieram novamente os nossos amigos sisudos lá de fora, dizer que o assunto era sério e urgente, mas o nosso sério disse que isso ia sujar uma tal saída limpa, que a cada dia que passa parece mais imunda do que um cano de esgoto. É que o nosso sério, apesar de não ligar a eleições (é sério demais para isso), não queria assuntos tão sérios no centro do debate. Vai daí, voltou a nomear o amigo sério do Banco de Portugal, esperando que tratasse do assunto, ou que o empurrasse durante o tempo suficiente para não rebentar nas suas mãos.

Hoje, o sério é mais sério do que nunca. Diz por aí que tem dúvidas sobre a solução para o problema que criou e que é pouco sério responsabilizar o último governo. Di-lo até com convicção e sem gaguejar. É que o sério, como não podia deixar de ser, faz isso com a sua melhor cara de sério. Enquanto os outros já só lhe vêem a cara de pau.

Publicado por: Eduardo Barroco de Melo

Mestre e Licenciado em Bioquimica. Ex-presidente da Associação Académica de Coimbra. Coordenador Nacional dos Estudantes Socialistas

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