De Espanha, bons ventos!

As eleições do dia 20 de Dezembro ocupavam, há muito, as preocupações das pessoas mais atentas. Ainda que, por cá, a campanha para as legislativas tenha sobrehelenizado a dimensão política internacional, essencialmente pela coincidência temporal das eleições na Grécia, as eleições em Espanha permitem-nos, pelas proximidades cultural e geográfica, refletir sobre o enraizamento dos discursos feministas na Península Ibérica, bem como estabelecer as inevitáveis comparações.

Espanha eleições 2015 Rajoy River Iglesias Sanchez

Alguma imprensa espanhola foi dando destaque aos discursos feministas na campanha e os sites de redes sociais acompanharam o entusiasmo por esta onda de desafio à política patriarcal e tradicional – em vários níveis. Não será muito arriscado dizer, pese embora o empirismo e superficialidade de uma análise num artigo de opinião, que há uma estreita relação entre temas como a crise do bipartidarismo, o questionamento do status quo na política, o combate à corrupção, o discurso anti austeritário, direitos sociais e liberdades individuais e os discursos feministas na política institucional, alicerçados na participação política das mulheres mas também em temas que foram acolhidos pelo eleitorado e pelos media como relevantes (como por exemplo, o combate à violência machista).

Mas nesta linha de pensamento, vale a pena voltar um pouco atrás, a 2014, aos tempos da Lei Gallardón e perceber que aquela sociedade civil que se mobilizou nas ruas contra as reformas na lei do aborto e outros temas eminentemente feministas contribuiu em muito para a permeabilização da agenda política. Significa isto que existiu uma atenção por parte dos partidos políticos à agenda dos movimentos cívicos e o aparecimento de partidos novos, emergentes dos movimentos cívicos dos últimos 4 anos, justificou-se por muitas das preocupações dos movimentos cívicos e em muitas delas se encontrava uma reflexão feminista.

Manifestação contra a Lei de Gallardon

Manifestação contra a Lei de Gallardon

É, talvez, redutor afirmar que os feminismos encontram o seu lugar natural nos movimentos contracorrente (exemplo disso é o feminismo de Estado, em Portugal, que se tornou um ícone do regime). Mas não tenho dúvidas de que os espaços questionadores do status quo permitem às mulheres e também à agenda feminista um maior espaço de afirmação e divulgação. Não só arenas políticas menos hierarquizadas e fechadas permitem mais facilmente o aparecimento de novas líderes e novas lideranças, como também espaços menos conservadores facilitam a discussão política “fora da caixa”, que se traduzem na discussão de novos modelos políticos e de desenvolvimento sustentável bem como em diferentes abordagens no pensamento político, incluindo abordagens feministas.

Em Espanha, esta foi uma fórmula que conquistou as suas primeiras vitórias. A revitalização da Democracia Espanhola está a ser levada a cabo também pelas mulheres, e as problemáticas com que Espanha se depara estão a ter em conta, em alguns lugares, a forma diferenciada como os problemas afetam umas e outros. A reafectação de orçamentos regionais e locais priorizando o combate à violência machista é um exemplo claro dos bons ventos que sopram de Espanha e que viram, nestas eleições, um reflexo dos seus efeitos.

Publicado por: Silvia Vermelho

Politóloga, trabalhando como profissional independente (formadora, consultora e técnica de projectos) e empresária. Realiza trabalho associativo e activista voluntário nas áreas da Igualdade de Género, Desenvolvimento Local e participação política.

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