O que dizia a imprensa quando Portas se candidatou ao CDS

Paulo Portas começou por ser jornalista mas a partir de 1995 inverteu os papéis com a sua entrada na Assembleia da Republica. O Panorama foi recordar o que se escrevia na imprensa em Março de 1998, dias antes de Paulo Portas ter sido eleito líder do CDS pela primeira vez, frente a Maria José Nogueira Pinto e sucedendo assim a Manuel Monteiro, de quem foi conselheiro.

José António SaraivaJosé António Saraiva, à época director do jornal Expresso e autor da polémica coluna “Politica à Portuguesa”, dedicou uma edição ao futuro líder centrista. José António Saraiva começou por elogiar o candidato à liderança, dizendo ser alguém com “muito talento”, elogiando a sua oratória e a convicção com que falava, mas criticando o facto de “quando confrontamos as suas declarações de hoje com o que fez ontem ou anteontem, começamos a verificar que muitas vezes não há qualquer relação entre aquilo que diz e faz”.

O ex-director do Expresso e fundador do Sol, cuja direcção deixou há semanas, criticou também o “plano de liquidação sistemática de políticos de direita”, em especial os afectos a Cavaco Silva, mas também de Manuel Monteiro, para além do volte-face sobre a questão europeia, onde inicialmente se afirmava nacionalista e posteriormente a favor de um “partido europeu”.

As conspirações contra Manuel Monteiro, a aproximação do PSD, que acabou por não se concretizar em 1998 mas sim em 2002 e 2011, foram também episódios recordados nesta coluna de opinião.

Na parte final da crónica sobre a “natureza de Paulo Portas”, José António Saraiva disse que as “mudanças de opinião podem simplesmente dever-se ao facto de ser uma pessoa instável” e não um “farsante”, questionando como é que “é possível fazer um contrato politico com este homem sem ter dúvidas sobre se ele o respeitará até ao fim”.

José António Saraiva terminou a sua crónica de Março de 1998 comparando Paulo Portas à fábula da rã e do escorpião:

Uma rã estava na beira do rio quando um escorpião lhe pediu que o deixasse ir nas suas costas para a outra margem do rio. A rã nega.

– És doido! – diz-lhe  – ferras-me o teu veneno e matas-me.

Ao que o escorpião lhe responde que isso não faz sentido. Se a rã for ao fundo, ele escorpião, também vai. Que sentido faz morrerem os dois?

A rã pensa um pouco e acaba por aceder. A meio da travessia do rio, o escorpião ferra o veneno na rã, que começa a desfalecer. Na agonia, diz-lhe:

– Que foste fazer? Não vês que assim morremos os dois? Tu próprio disseste que isso não fazia sentido!

– O que queres? – responde-lhe o escorpião – é esta a minha natureza!

Maria José Nogueira Pinto põe os pontos nos is antes do congresso

Maria José Nogueira PintoTambém no Expresso, pouco antes do congresso que decorreu em Braga e elegeu pela primeira vez Paulo Portas como líder do CDS, Maria José Nogueira Pinto, que anos mais tarde viria a ser deputada pelo PSD, antes de falecer, disse que o candidato contra Paulo Portas devia ser Manuel Monteiro para “existir uma clarificação indispensável” dentro do CDS.

Maria José Nogueira Pinto desafiava assim Paulo Portas a avançar ou então Luís Nobre Guedes, autor da moção de estratégia global de Paulo Portas. Ainda assim, Nogueira Pinto colocou os pontos nos is ao dizer que não era a “herdeira do monteirismo” e que caso ganhasse era ela que “mandava no Caldas” (a sede do CDS).

Maria José Nogueira Pinto considerava à época uma “má candidata mas uma boa presidente” do partido, questionando assim os militantes centristas se queriam “um candidato ou um presidente”. O resultado é conhecido, Maria José Nogueira Pinto acabou por perder e anos mais tarde deixou mesmo o Largo do Caldas rumo à Lapa para integrar o Parlamento como deputada do PSD.

Descomplicador:

Paulo Portas candidatou-se à liderança do CDS pela primeira vez em Março de 1998. O Panorama procurou o que se disse do líder centrista à época. José António Saraiva criticava os volte-faces de Portas, enquanto Maria José Nogueira Pinto falava sobre a forma como pretendia gerir o CDS caso vencesse o congresso em Braga.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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